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30/05/2017

A vitória presa na garganta


As Olimpíadas antigas eram festa religiosa. As Olimpíadas modernas nasceram como uma das formas de substituição da religião. Em Du mußt dein Leben ändern (Suhrkamp, 2013) Peter Sloterdijk notou isso ao ver que a prática ascética é maior que a religião e a engloba, e não o inverso como Nietzsche afirmou. Sendo o lugar máximo da prática como visível antropotécnica, o esporte olímpico transitou, enfim, para o que se esperava dele no mundo pós-paradigma do trabalho, que ele se tornasse um entretenimento-trabalho e um trabalho-entretenimento. Torno-se show e se integrou na lógica contemporânea.

Nessa lógica, pode cumprir algumas funções de destino. Para leitores de Debord, nada é senão mais um elemento do mundo como espetáculo gerado pela caráter espectaculoso da mercadoria. Para nós, slorterdijkianos, isso não o incompatibiliza em ser também um entretenimento. A sociedade da leveza, como Sloterdijk a descreve no volume III das Esferas, é aquela no qual todos nós temos mais tempo livre e uma vida mais suave, e é então necessário que se reintroduza nela um novo tipo de esforço e martírio de modo que a vida ainda continue real. Num campo de suavidade e mimo, e numa era em que tudo é virtual, devemos criar algum peso ontológico ainda, para não estourarmos como balões estratosféricos. O suor e a auto-superação esportiva reintroduzem esse peso ontológico para que não ocorra conosco o que ocorreu com Ícaro.

Mas exatamente no momento em que a auto-superação se põe como o elemento central desse show necessário, ou seja, exatamente no momento que o time de futebol não vale mais nada porque tem altos salários e não tem raça e, em contrapartida, as meninas do futebol e todas as outras mulheres campeãs são louvadas, o lado bom-e-perverso de nossa era se expõe ao máximo. É que precisamos louvar o esforço e, então, procuramos nos pobres e desgraçados que conseguiram se tornar macaquitos para nosso entretenimento e perdão, a nossa própria salvação e, às vezes, também a salvação da própria nação, até da Humanidade. E lá vamos nós, de história em história, para as narrativas dos que saíram da favela e que não podiam vencer senão pelas escolinhas esportivas. Sem elas, as escolinhas, nenhum horizonte existiria. Essa verdade é nosso orgulho e nossa desgraça, pois sabemos que o ideal possível seria aquele em que cada um pudesse ter suas perspectivas, e não uma válvula de escape de um destino macabro.

Rafaela no pódio não é uma moça ganhadora de medalha, é a “mulher negra, da favela, sofrida”, ou ainda, “aquela que foi chamada de macaca”. É disso que falo: temos de dizer isso. Se não dizemos isso ficamos engasgados. Mas, ao mesmo tempo que dizemos isso, estamos como que aceitando a favela, aceitando que ela se chame comunidade, dizendo para nós mesmos que nossas escolinhas não são esportivas, são zoológicos para salvar pobres. Estamos dizendo para nós mesmos o quanto é bom imaginar que há saída que não a mais drástica, que seria não ter o zoológico. E logo em seguida disso, depois que fazemos essa reflexão, voltamos para nós mesmos e concluímos: mas, então, não temos que agradecer aos que fazem essas escolinhas andar? Afinal, nós filósofos que prezamos a filosofia, muitas vezes não fazemos o mesmo com educação em geral?

Os tempos contemporâneos são a época do entretenimento que impõe essas narrativas aporéticas. De modo que nenhuma vitória se põe como vitória completa, mas, como catarse e culpa, como redenção que logo se mostra meia-redenção e meio pecado. Cada medalha se torna uma pequena cruz para servir no Terço que a velhinha carola usa para a sua oração ou que cai bem na gargantilha com a qual garota fica mais sexy na balada.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 08/08/2016.

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11 Responses “A vitória presa na garganta”

  1. Guilherme Pícolo
    23/08/2016 at 19:20

    Além da catarse toda, achei bastante curioso: 1- o Exército e as Forças Armadas engajados na “operação medalha” (esportistas olímpicos que deveriam sair da escola, agora por regra saem dos quartéis…); 2- os países que ainda participam da Olimpíada como se a Guerra Fria ainda estivesse acontecendo (Coréia do Norte, por exemplo); 3- a completa falta de compreensão do brasileiro sobre a necessidade de educação universalista e de qualidade como base para o sucesso em competições esportivas do gênero.

  2. Maximiliano Paim
    12/08/2016 at 19:49

    O que dizer da Globo explicando que a morfologia da Simone Byles e do Michael Phelps justificam o sucesso de ambos?

    • 13/08/2016 at 10:36

      Velha sabedoria, Paim. Funcionava. Agora há além dela a fisiologia do esforço, melhor.

  3. anderson
    09/08/2016 at 18:35

    OFF-TOPIC: Disculpem o fora-de-lugar, mas “se não dizer isso fico engasgado” e este parece um forum adequado para meu “anti-patriotismo”. Vendo o video da luta umas 1000 vezes fiquei com a impressão que ela puxou a perna da rival, não com a mão, mas fazendo alavanca com o brazo. Não sei se isso seria válido no judô. Ela teve sorte que o lance foi muito rápido, que ninguem viu direito, e que os jogos foram no Brasil…

    • 10/08/2016 at 10:59

      Não creio que iriam comer essa bola com a tecnologia de hoje meu caro.

  4. Maria de Jesus
    09/08/2016 at 16:23

    Paulo, Você está com inveja. Que coisa feia! Aposto que irá censurar o meu comentário, seu autoritário.

    • 09/08/2016 at 16:26

      Inveja de quem? Da campeã olímpica? Humm, ainda não tinha pensado em ser campeão olímpico… de judô!

  5. thiago ricardo
    09/08/2016 at 15:03

    No comentário que diz que a judoca foi a “negra que venceu, a partir de um escolinha de fundo de quintal” está embutida a aceitação desta escolinha. Há um lamento, mas também uma aceitação, aí. Não há espaço para fazer algo melhor. Mais que isso: não se está percebendo que ela foi a melhor, e pronto. Acho que é isso: a esquerda não pode ver um “integrante de minoria” sendo o melhor.

  6. LMC
    09/08/2016 at 10:50

    Fico pensando os que são contra as
    cotas universitárias pra negros vendo
    esta foto acima.O que eles vão dizer?
    kkkkkkkk

  7. Hugo Lopes de Oliveira
    09/08/2016 at 08:55

    A necessidade de ressaltar ou refutar que ela é negra, favelada, pobre, e tudo o mais se torna uma regra. Se isso parece que ela não é o que é… para nós. Porque pra ele mesma ela é ela. Ponto final.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo