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18/11/2017

A vaquejada deve continuar, mas com a mãe do vaqueiro!


A vaquejada é um crime. Não era, mas agora tende a ser, é deve ser. A visão sobre o que é cruel muda, sabemos disso. O processo de ampliação da identificação do que é crueldade começou no mundo romano, ganhou sua grande força com o cristianismo e depois, no mundo moderno, foi empurrada pelo capitalismo liberal. Alguns aportes foram feitos pela social-democracia. O fim completo da agonia dos animais faz parte desse processo ininterrupto de suavização das relações, que o mercado capitalista consagrou e que Foucault estudou tão bem. A vaquejada chegou ao fim no Ceará. Deveria chegar ao fim de uma vez, em todo lugar. Touradas foram embora até na terra das touradas.

Nossos sentimentos podem ser naturais, mas é uma tolice achar que o que é natural não é histórico. A história da natureza deve ser vista como embutida na história (e de certo modo, vice versa) (Sloterdijk diz que esse movimento de embutir tais coisas começou no Renascimento). Sendo assim, devemos considerar que nossa psicologia emocional é descrita de modo variável não só por conta de descobrirmos mais coisas sobre o homem, mas também porque somos diferentes e continuamos a nos diferenciar, merecendo assim novas descrições de nós mesmos. A sociedade da honra, como a sociedade grega e romana, e algumas sociedades medievais e aristocráticas, cedeu lugar para a sociedade do amor e para a sociedade da leveza. Gostemos ou não dessa “revolução dos escravos na moral” ela aconteceu e vem vencendo. Assim, nos tornamos naturalmente a favor dos mais fracos. O touro não é mais o poder, o poder é visto na mão do homem, do toureiro. A besta é o homem. Ele é que deve ser parado. A vaquejada entra nesse contexto. Como também a luta para salvar os beagles dos laboratórios de araque, que me fez se opor aos vários colunistas da imprensa na época, faz parte da mudança de sensibilidade minha, que acompanha a mudança em geral. Quando criança, eu achava normal que matássemos animais, ainda  que eu não contribuísse diretamente para tal. Hoje, não uso nada de animal (Vegano No Oil), busco não explorá-los. É insuportável para mim ver animal abandonado e coisas do tipo. O animal é indefeso perante a crueldade de segundas intenções do homem. O homem diante do homem é uma relação mais justa até. Crianças abandonadas possuem mais sorte (eu disse sorte no sentido de sorte e azar) que cães abandonados, hoje sabemos disso.

Claro que a suavização da crueldade precisa caminhar pelas próprias pernas. Gerada artificialmente, como sentimento imposto, pode apenas esconder ou criar monstros. É por isso que é preciso pesar muito bem o que pode e o que não pode ser tomado como bullying e coisas do tipo. A crueldade exterminada por decreto, sem convencimento social, gera mais revolta e crueldade. Mas bastou existir algum consenso e alguma legitimidade, e podemos apostar nela. Em 1990 não era cruel não dar acesso ao casamento para pessoas do mesmo sexo. Hoje é cruel negar tal coisa aos homossexuais. Pessoas do mesmo sexo podem se casar e devem ter filhos. Não aceitar isso já não é mais preconceito, é crueldade. Uns sentem isso, outros ainda não. A mudança dos sentimentos é histórica. A criação dos novos sentimentos também.

A Para-olimpíada é a grande vitória contra a direita e contra Hitler. Viabilizamos uma sociedade onde o diferente não aponta para desigualdades que põe as pessoas para baixo, mas para uma desigualdade que contribui para a riqueza de todos. Isso nunca foi compreendido por Hitler: a hierarquia elaborada pela direita (que previa o fim do deficiente por eliminação física) nunca foi uma boa hierarquia. Tivemos de enfrentar Hitler com a crueldade da guerra, tão maior que a guerra dele (Hiroshima mostra isso), para que hoje pudéssemos pensar no sucesso da Para-olimpíada. A ideia de ampliar a noção de “nós” (Rorty) é algo que está embutida nessa nossa caminhada do Ocidente. Ela é tão forte que às vezes nos dá a impressão de um progressismo moral histórico, em que a ecologia é nosso novo ponto de chegada e de nova partida.

Não se trata aqui de colocar o ideal universal do eu que vira um nós como algo que dever superar as reclamações ensinadas pelo conceito antropológico de cultura. Trata-se de distinções: invocar tradições nem sempre é bom. A escravidão foi uma instituição tradicional. Felizmente, um belo dia, cansamos daquela tradição. A vaquejada é também isso. Um dia, com a sensibilidade mudada, mudamos, e desrespeitamos com gosto a tradição dos regionalismos, jogamos para o espaço antigas definições de preservação cultural. A cultura escolhe a cultura. Temos de entender isso. Às vezes a prática de uma minoria só pode permanecer na sociedade pela preservação dela em museus, mas não mais como prática. E quem escolhe isso não é Deus ou o Estado, mas a nossa sensibilidade mutante. Podemos ser mais ou menos tolerantes com os que ficam para trás. Claro que eu não prenderia uma senhora  de 80 anos que fala frases racistas, eu preferiria avisá-la da mudança da sensibilidade. Mas quanto a um jovem, eu seria mais rigoroso. Em todo o caso, o racismo passou a ser crime na nossa modernidade brasileira, sem distinções de idade quanto a quem o pratica.  E isso é correto.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 12/10/2016

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8 Responses “A vaquejada deve continuar, mas com a mãe do vaqueiro!”

  1. MARIA LUIZA DO NASCIMENTO GUIMARÃES
    25/10/2016 at 20:59

    Tem que acabar, não tem que colocar uma bonitinha que sé quer sucesso e totalmente sem coração montada em um animal prestes a ser torturado. Gente primitiva e se caridade no coração.

  2. Ícaro
    13/10/2016 at 18:33

    Ótimo texto,sr. Paulo. Sou do nordeste onde essa prática é latente e vejo colegas irem contra a criminalização de tal pelo fato de ser uma tradição cultural. Não percebem a mutabilidade que o sentimento de crueldade da sociedade atravessa. A tradição de hoje é a história de amanhã.

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    13/10/2016 at 10:44

    Prof. PAULO
    Qualquer demonstração de crueldade contra humanos e animais ditos irracionais, ainda que hipocritamente defendidas como “tradição cultural”, apenas caracterizam nosso atraso civilizatório. Louvo o exemplo da decisão dos cidadãos de Barcelona que desativaram sua “plaza de toros” e a transformaram em pavilhão de exposição dos trabalhos dos admiráveis artistas catalães, entre os quais o genial Antônio Gaudí , criador da maravilhosa e extasiante igreja da Sagrada Família.

  4. bony
    12/10/2016 at 12:46

    Oi Paulo, o que acha das lutas de mma? os caras lutam de luvas (que mesmo finas dao aquela amortecida, as lutas seriam mais curtas sem luva), com regras que permitem o combate ser o mais longo possivel, mesmo com limite de tempo. tem gente que acha uma barbarie, tem gente que gosta de assistir. essa coisa de combate como entretenimento parece ser bastante antiga. essa cultura do combate tem algo a ver com o ascetismo discutido na obra do sloterdjik?

    • 12/10/2016 at 15:14

      Bony todo elemento de auto-superação está implícito na noção de sujeito de Sloterdijk. Desporto sem dúvida. Seria interessante ver nessas lutas o elemento de feminilização.

    • LMC
      13/10/2016 at 13:49

      Ih,Bony.Essas lutas de MMA são
      iguais as vaquejadas,a diferença
      é que as lutas passam na Globo,
      sábado a noite.No dia seguinte
      de manhã,a Globo passa a
      Santa Missa do Padre Marcelo,
      pregando contra a violência
      e a favor da paz.kkkkkkkkkkk

    • bony
      13/10/2016 at 22:48

      LMC, eu acho que as lutas de mma nao sao como a vaquejada, no sentido de que os lutadores estao ali de comum acordo. dependendo do contrato, o lutador pode sair da gaiola com bastante dinheiro no bolso. a violencia do combate tem uma dimensao muito diferente pra quem participa dele. aquilo parece extremamente violento mas na verdade nao eh. se fosse, os combates nao poderiam se tornar espetaculo. o mma eh uma demonstracao de capacidade atletica, nao eh como uma briga de rua. ja a vaquejada eh um evento diferente, ja que a vaca nao assinou contrato nem treinou todo dia pra estar ali.

    • LMC
      14/10/2016 at 11:07

      Ué,as vaquejadas assim como o
      MMA dão bastante dinheiro no
      bolso de quem organiza essa
      porcaria.Ambas são pra lá
      de desumanas.

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