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17/08/2017

Um topos para a maconha


AS DROGAS ENTRARAM de modo decisivo para a sociedade humana pela prática cultural religiosa. Confunde-se com a transição da pré-história para a história. E desse tempo até hoje, não saiu mais. Não há registro de uma sociedade sem drogas, calmantes ou estimulantes.

Havia um lugar para as drogas na sociedade primitiva e antiga. Mesmo nos tempos medievais, teve existência garantida. Aliás, algumas drogas se tornaram nobres: o vinho ganhou status religioso, o incenso foi requalificado. Na modernidade, como os deuses se foram (explicado pelo belo conceito de “desencantamento do mundo, de Weber), as drogas perderam o lugar. Numa sociedade do trabalho e da racionalidade elas caíram para a topologia semântica da “vagabundagem”, “não-produtividade” e “misticismo”. Depois, com o higienismo moderno e a preocupação com os gastos do dinheiro estatal em saúde pública (a entrada foucaultiana da biopolítica), até o alcoól e o tabaco tiveram de ser regrados. Claro que isso ocorreu exatamente na medida que as drogas foram para o campo do vício, uma vez que os rituais religiosos que as faziam integradas e possíveis no mundo antigo e medieval foram alteradas profundamente. Tudo que há de ruim na modernidade, nesse quadro semântico, passou também a entrar para o DNA das drogas. Mas dois principais elementos podem mudar isso. Aliás, já estão mudando! A pré-história do novo santuário das drogas começou com a expressão, agora já antiga: “bebo, mas bebo socialmente”.

Esses elementos que estão fazendo a droga ganhar novo lugar são: 1) a ampliação da nova ludicidade em sociedades que cada vez mais estão maquinizadas e exigem do homem (em geral) menos concentração e vida útil por menos tempo; 2) a perda da guerra contra o tráfico. Agora, como a guerra contra o tráfico nos moldes atuais é completamente inviável, e urge tornarmos algumas drogas legais para enfraquecer o tráfico, busca-se encontrar um lugar legítimo, novamente, ao menos para certas drogas na modernidade. Aparece o conceito de “uso recreativo” da maconha, como já ocorreu com a bebida alcoólica.

Essa noção será melhor elaborada. Claro que não irá fazer a maconha tornar a vida dos jovens melhor pois, como a bebida, não é coisa boa – provoca certas deteriorações cerebrais, por mais que os “doutores sem doutorado” (cuja conversa sobre a maconha é pior do que pregação evanjegues) queiram se convencer que não. Mas a noção de “uso recreativo” vai pegar. Será o novo santuário da droga. E será um campo tão regrado como o da bebida e dos cigarros. A maconha entrará primeiro para esse santuário. Duvido que não entre, depois de um tempo, a cocaína. O crack não, é muito devastador já de início. O ludicidade do crack é auto-anulável. 

Não temos mais um topos imediato que os antigos tiveram para as drogas, que era o colo dos deuses, mas estamos no caminho de encontrarmos um novo, que será bem mais dinâmico que o anterior e exigirá contínuas readaptações e expansões. Esse é um caminho inevitável, já aprendido por nós quando da época da Lei Seca americana. A experiência do Uruguai está sendo observada, e já surge nela o debate sobre o controle, sobre se a maconha deve ser de distribuição privada ou estatal etc. Como nos conta Lipovetsky e Sloterdijk, a moral dos direitos vence a moral do dever, mais Mill e menos Kant, talvez mais Dewey e Rorty, no novo santuário.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 30/07/2017

PS1: para uma reflexão mais profunda sobre o assunto, baseada em Sloterdijk, veja o artigo: Vício e droga: para além das “fraquezas psicológicas” e “más companhias”.

PS2: comida vegana, proteção animal, crescente preocupação com emissão de gases e mudança do paradigma energético, ampliação da desoneração (do trabalho, da religião, da moral e do corpo) em todos os sentidos, com reonerações criadas pela leveza e, enfim, paulina liberação das drogas farão parte do mundo do século XXI. Tenho desenvolvido esses temas. O meu livro mais recente fala disso: Para ler Sloterdijk (Via Verita). O texto do curso sobre “As narrativas críticas da modernidade“, também vale.

PS3: a discussão sobre privatização ou estatização do consumo de maconha, do santuário das férias, domingos e quintas ou sábados que irão brindar-nos com a possibilidade do topos de “uso recreativo”, clama ainda por mais um enfoque: o da questão de integração da maconha na cadeia de consumo regular, no âmbito da sociedade de consumo que, segundo Lipovetsky, passa da sua segunda fase, a analisada por Veblen, que é a da inveja e ostentação, para a da atualidade, que é a do consumo íntimo do próprio corpo e dos momentos consigo mesmo – o supra sumo do mimo como parte das antropotécnicas de Sloterdijk Falo um pouco disso no texto “As bonecas do amor do Japão” e também e principalmente no texto (com vídeos) “A sociedade masturbatória“. Neste, há uma análise das propagandas como elemento para entendermos a sociedade contemporânea.

 

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One Response “Um topos para a maconha”

  1. Hilquias Honório
    30/07/2017 at 08:37

    Começando o domingo aqui. Para cada questão, a filosofia tem uma nova abordagem.

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