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26/09/2017

Trump, neonazistas e Bolsonaro


Cada país tem as suas chagas semi-abertas que não podem assim permanecer. Tentar fechá-las, quando elas de fato podem doer mais do que o portador delas aguenta, é obrigação dos médicos locais. Afinal, somos animais geradores de auto-imunização.

Trabalhei nos Estados Unidos como pesquisador. Vivi na pequena Stillwater, no Estado de Oklahoma. Achava “folclórico” entrar na casa de pessoas – não as pessoas da universidade – e ver ali, no interior da residência, a bandeira confederada. Ir a um boteco tipicamente americano e se deparar no banheiro com fotos de generais sulistas, também me parecia uma bela “preservação histórica”. Que pitoresco! Assim eu pensava. Não era isso. Eu estava enganado. Eu estava com a visão do estrangeiro, aquele que vê a chaga do outro pelo cinema.

Aos poucos fui notando que a bandeira confederada e as fotos de generais sulistas em determinados lugares eram um modo de alguns avisarem, de modo não aberto, que participavam, segundo um American way of life, de ideias muito parecidas com aquelas dos nacionalistas anti-russos da Ucrânia. O ódio à russificação do país, que se confundiu com o comunismo, tem muito de um tipo de sabor não moderno. Nacionalistas da Ucrânia: tudo que se quer é viver a vida antiga, da comunidade pré-soviética, antes da vinda da indústria. Supremacia Branca nos Estados Unidos: tudo que se quer é olhar pela janela e ver os escravos negros colhendo o algodão.  Há saudades de um passado não vivido. Um passado idealizado, cheio de hierarquias, onde “cada um tinha o seu lugar”.

O culto dos confederados nos Estados Unidos é, ao modo americano, o fomento do neonazismo. Trata-se de cultivar não o heroísmo do Sul, mas sim a mágoa da perda do direito de ter escravos e de poder considerar o negro um inferior. Trata-se de repor a ordem das hierarquias e refazer a vida que os modernos vieram a chamar de opressiva.

Quando um monumento de um general confederado é questionado, como está ocorrendo agora em alguns estados americanos, então os derrotados da guerra civil saem da casinha, mostram a cara, perdem a vergonha de serem da KKK. Aí mora o perigo.

De coração, Trump quer condenar a esquerda e até mesmo qualquer liberal, mas não pode. A democracia americana, que é o envólucro do capitalismo mais desenvolvido da Terra, é maior que o homem da peruca. Então, ele fica oscilando. Essa oscilação faz logo a imprensa investigar e, então, vem a bomba: seu pai foi da KKK. Participou de atos hostis da KKK nos anos vinte.

O que vai acontecer é que em diversos estados americanos, até mesmo onde há governadores republicanos, o que vai se querer é logo tirar das praças as estátuas de confederados, antes que elas virem mecas ou lugares de protestos, e antes que as coisas se compliquem mais. O que significa maior complicação? Ora, que cada empresa comece a ter problemas no mercado por estar comprometida em ter em seus quadros gente da Supremacia Branca. Pois o capitalismo de mercado não tolera ideologia racial, isso não condiz com a paz necessária aos negócios, muito menos condiz com o capitalismo atual que se faz a partir do pós-fordismo, ou seja, a época da sociedade de massas e da sociedade de consumo. Qualquer boicote de agentes democráticos contra uma empresa que tem racistas pode levá-la ao desaparecimento.

Para o brasileiro entender: nenhum comerciante quer ter perto um Bolsonaro, com o seu ideário sexista, homofóbico, racista e neofascista. Um empresário que adere ao bolsonarismo é arrastado para o gueto, cai para o mundo sustentado apenas por uma parcela de consumo muito pequeno. Há uma certa “missão civilizadora do capital” na montagem da modernidade. Ontem, essa missão veio com a Inglaterra policiando os mares, cercando navios negreiros. Hoje, essa missão surge pelas mãos dos empresários que querem que todos gostem de sua empresa, pois a identificação entre consumidor e marca é algo fundamental no capitalismo atual.

Neonazistas ucranianos, gente da Supremacia Branca nos Estados Unidos e, enfim, bolsonaristas-olavetes no Brasil, são tudo aquilo que o capitalismo não tolera, pois são pedras que emperram a sociedade de consumo. São peças anacrônicas, de favorecimento do que é conhecido como “ignorância”. É coisa de gueto, de gente revoltada consigo mesma, de perdedores. Essa gente não precisa ser derrotada pela militância de esquerda, pois já está derrotada pelo modo de vida do capitalismo em seu estágio de sociedade de massas e de consumo.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 16/08/2017

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7 Responses “Trump, neonazistas e Bolsonaro”

  1. Djaman Barbosa
    27/08/2017 at 19:36

    Será mesmo que o empresário teme ser associado aos supremacistas e a Bolsonaro?

    O próprio autor começa o texto falando que encontrava bandeiras confederadas em estabelecimentos comerciais. Se essa associação pudesse derrotar grandes empresas, imagine o que faria com as pequenas.

    Enquanto isso, no Brasil:

    http://m.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1867943-roteiro-de-eventos-de-bolsonaro-tem-empresarios-e-apresentadores-de-tv.shtml

    http://hojeemdia.com.br/opinião/colunas/amália-goulart-1.334768/jair-bolsonaro-reúne-empresários-em-belo-horizonte-1.536312

    http://m.zerohora.com.br/284/noticias/9828656/palestrante-em-evento-em-porto-alegre-bolsonaro-aposta-em-discurso-sobre-seguranca

    • 27/08/2017 at 20:43

      Barbosa acho que você não conseguiu entender a coisa, aliás, não conseguiu entender o capitalismo. O ensino médio ensina. Todo mundo que faz cursinho lembra que para para o tráfico negreiro, a Inglaterra punha seus navios para policiar o mar. Mas, como ela policiava? Salvando negros? Não raro, afundava o o navio. O capitalismo tem um força civilizadora, e nenhum lugar eu escrevi que ele, fazendo isso, é bonzinho. Acorda!

  2. Bruno
    17/08/2017 at 23:01

    Paulo, estou planejando fazer um pequeno documentário a respeito das manifestações de Junho de 2013 e das suas consequências em termos de perda da liberdade de se manifestar, como a criação e aprovação da Lei da Copa, dentre outras. Se eu chamasse o senhor para fazer uma entrevista para ser filmada para esse documentário, o senhor aceitaria?

    • 18/08/2017 at 10:35

      Claro, acho que fizemos um Hora da Coruja na época.

  3. Guilherme Picolo
    16/08/2017 at 13:56

    Eu também presenciei esse ufanismo Confederado lá nos EUA, mas bobo que sou, na época achei que se tratava apenas de uma homenagem histórica às raízes e ao espírito de luta, etc…

  4. LMC
    16/08/2017 at 10:59

    Aqueles nacionalistas da Ucrânia
    não são anti-Rússia.São anti-Putin,
    aquele Maduro que bebe vodca.
    E a nossa esquerda bate palmas
    pra esse ditador russo.

    • 16/08/2017 at 11:10

      LMC, não mesmo. As relações belicosas das regiões do império soviético com a Rússia são de hostilidade que vem de milhares de anos. Lênin e Stalin sabiam disso. Usaram mão de ferro para unificar a coisa. Não conseguiram. Putin é um Zé Ninguém nessa história.

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