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26/09/2017

O eterno tropeço da tropa de elite


A igualdade perante a lei fica ferida se há cota para negros em determinadas ocupações. Essa é uma interpretação liberal, mas de um liberalismo de Locke, não de um liberalismo atual, de John Dewey ou de Rawls. O liberalismo percebeu que precisava sair do século em que foi criado e se tornar um pouco mais historicista, isto é, capaz de entender que as leis liberais funcionam não em contexto lógico, mas em contexto histórico. No âmbito histórico as pessoas são desiguais, e para que a “igualdade perante a lei” tenha algum sentido é necessário mecanismos sociais capazes de colocá-las diante das leis em condições de serem tratadas como iguais. As políticas de benefícios sociais, desde a educação pública para todos até chegar nas políticas das ações afirmativas, têm o mesmo escopo: diminuir a distância social (inclusive no sentido de quebrar preconceitos) entre os muitos diferentes, promover um igualitarismo mais efetivo.

Os mesmos liberais que fazem a interpretação conservadora, que se mantém aferrados a Locke, o pensador liberal que admitia até a escravidão (como fez quando ajudou a redigir a Constituição das Carolinas, na América), acabam mudando de opinião quando se trata de avaliar como a lei tem a sua entrada na periferia e nos bairros ricos. Nesse caso, invocam situações concretas, ou seja, a história, mas aí para se traírem: querem desobedecer francamente o princípio formal da igualdade perante a lei. Digo isso diante da reação de pessoas, que eu imaginava que eram liberais menos reacionários, ao escutarem a entrevista do tenente-coronel Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, de 46 anos, e que é o novo comandante da Rota, a tropa de elite da PM (Polícia Militar) de São Paulo. O que ele diz é chocante: “Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia], da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins [região nobre de São Paulo], ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado…”  (Entrevista, UOL, 25/08/2017). Qualquer liberal, inclusive o mais conservador, deveria se espantar com essa frase. Mas, infelizmente, não é o que ocorre. Vi muitos liberais flertando com uma direita execrável diante disso tudo.

Essa frase do tenente-coronel é puro preconceito. Acreditar que um morador de uma periferia, de um bairro pobre, deve ser abordado de uma forma mais dura (e é isso que a entrevista dele, no desenrolar, afirma), simplesmente pelo fato desse morador estar na periferia, é desconhecer a regra mínima do liberalismo velho, o de Locke. A lei tem que chegar igual, nesses casos ao menos, para todo e cada cidadão. E igual na sua melhor e mais civilizada forma.

Por esses dias, vi na TV um soldado atirando e esbravejando contra mulheres na periferia. Uma delas, negra, descalça, revidou: “vai atirar em mim, vai me agredir? depois fica reclamando quando um de vocês morre aqui”. O policial ficou furioso, achou aquilo uma ameaça. Não era. Era uma mulher negra, pobre, cansada de ser tratada de uma maneira diferente daquela usada pelo policial nos Jardins ou bairros semelhantes em qualquer cidade brasileira. É uma mulher que não pode ver a polícia como estando do seu lado, nunca, pois a polícia, quando se aproxima, tem essa maldita “abordagem diferente”. Em outras palavras: na periferia a coisa é sempre na base do “chute, porrada e bomba”. Casas são invadidas, pessoas são estapeadas, cidadãos negros são chamados de vagabundos até pelo mais doce policial. Tudo é feito na base da doutrina do esteriótipo, a única que a polícia realmente aprende.

O resultado dessa ação da polícia, sem critérios de civilidade e sem obedecer Locke, é que aos poucos toda a cidade vai ficando sua inimiga, não só os pobres. Pois o rico despreza e sempre desprezará a polícia: por mais que o policial puxe seu saco, o rico sempre vai vê-lo como um funcionário público emburrecido pela farda e pela disciplina militar. Ou então nem mesmo como funcionário público o rico vê o policial, mas sim com um seu empregadinho pessoal, um capacho. Nenhum rico quer essa vida para seus filhos. O pobre, por sua vez, que mora nos lugares de onde saem os próprios policiais, acaba então, por razões óbvias e já ditas acima, se voltando contra o policial que, enfim, é visto por ele como traidor do bairro.

A doutrina da Rota em São Paulo está errada. Sempre esteve, e volta agora a piorar. Esse tipo de militarismo burro está errado. O que uma pessoa com essa cabeça, a cabeça do Coronel mostrado na entrevista, vai conseguir como resultado, é o seu isolamento, mesmo que aparentemente uma parte conservadora da sociedade diga, da boca para fora, que o apoia. O Coronel não vai ler esse meu artigo. Nunca vai refletir sobre isso. Os preconceitos estão tão arraigados nele que o caminho do seu infortúnio pessoal e da tropa já está traçado. Um pena mesmo que desde a redemocratização, no tempo de Montoro como governador, até hoje, não tenhamos conseguido fazer a polícia entender sua função e melhorado a cabeça dos liberais conservadores que a apoiam.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 25/08/2017

A foto acima não diz respeito à Rota. É uma foto da violência policial com o gari, bem noticiada. Fotos da violência da Rota são desnecessárias.

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8 Responses “O eterno tropeço da tropa de elite”

  1. Ranieri
    25/08/2017 at 17:02

    Concordo plenamente que nosso ideal de sociedade deve ser de respeito às leis e aos cidadãos indiscriminadamente, mas sem dúvidas, a lei fria não é o suficiente para garantir isso. Da mesma forma que é impensável exigir do morador da periferia que seja sempre um cidadão exemplar, por conta do descaso, falta de oportunidades, educação e etc não podemos pensar que o fato de que o policial representa o estado e com isso deve antes de tudo servir o cidadão e ainda ter seus excessos punidos em nome dos, necessários, direitos humanos, fará com que a guerra que trava com os criminosos, geralmente traficantes, deixe de ocorrer.
    Os policiais não possuem meios de diferenciar, em todos os casos, cidadãos criminos de outros e, assim, agem antecipadamente com violência para surpreender, antes de qualquer coisa, minimizando o risco de serem mortos por bandidos que, em certas ocasiões, possuem armamento militar. Ser surpreendido pode ser a morte. A intimidação seve para mandar o recado de que não há fraqueza, coisa talvez menos presente em contexto de menor violência.
    Só quando for realmente efetiva a inclusão dessa população em um contexto de cidadania e, principalmente, quando empregos puderem ser ofertados é que poderá haver condições de melhora para toda a população.

    • 25/08/2017 at 20:47

      Ranieri, o que você está falando é um absurdo do policial não ter como diferenciar ladrão e não ladrão. Tem dó. Abordagem policial é algo aprendido, no mundo todo. Putz! Aqui não!

  2. Abel Paiva Dias
    25/08/2017 at 14:49

    Muito bem dito, professor! A lei DEVERIA ser igual para todos. Mas, em um País onde o próprio mandatário da república está sendo denunciado por corrupção e outros crimes, e apoiado por um grupo de facinoras, a LEI que lhes concedem privilégios em detrimento de outros brasileiros, não sustenta o conceito liberal de que a lei é igual para todos! E assim, as revoluções americana e francesa, erraram ao instituir o conceito de igualdade entre os indivíduos! Cada pessoa tem suas particularidades, porém, a lei deverá ser igual no julgamentos desses indivíduos! Desde Sócrates, os julgamentos sempre são tendenciosos! Temos muitos exemplos na história mundial. Agora, em um pais de privilégios, que mantém uma educação pública, corrompida, e uma educação privada, elitizada, não há como falarmos de igualdade! O sistema de cotas não deveria existir se tivéssemos uma equidade no nosso País! Contudo, e como sempre ocorreu, todas as vagas nos cursos de destaque das universidades públicas, ficavam de posse dos mais abastados e elitizados. O sistema veio atenuar essa desigualdade pelo lado negro. Ou seja, ao invés de transformar a educação toda pública e eficiente, preferiram o paliativo. Considerei necessário, mas deveriam ter realizado uma reforma profunda no sistema educacional brasileiro. O PT poderia tê-lo feito, mas se perdeu pela boca e o bolso!

    • 25/08/2017 at 20:48

      Abel é isso: o PT se perdeu pela boca e pelo bolso.

    • LMC
      26/08/2017 at 11:17

      O PSDB também se perdeu.Estão
      há mais de 20 anos e a educação
      pública em SP é um lixo.Deixar
      as escolas públicas e a polícia
      na mão de governadores deu
      no que deu.

  3. Gustavo
    25/08/2017 at 11:38

    Tem Lugares que apenas duas leis funcionam uma é a da gravidade e a outra do mais forte, simples assim. Enquanto no Jardins você é multado por não usar o cinto de segurança no seu veículo, já em periferias não usam nem capacete, 4 pessoas na mesma moto, isso quando tem CNH. Quero dizer que comparar coisas tão distintas, apesar de tão próximas, é achar que lagartixa e jacaré devem seguir a mesma regra.

    • 25/08/2017 at 11:52

      Gustavo, lei meu artigo dez vezes, talvez você possa entender. Duvido. Mas tente.

  4. Rafael Costa
    25/08/2017 at 11:37

    Outro dia ao esperar um ônibus em uma rodoviária aqui da minha região, ouvi dois guardas municipais se refestelarem por terem cometido uma agressão contra um morador de rua, que bêbado estaria atrapalhando as pessoas daquele local.

    Ao falar sobre o final do espancamento, riram-se todos por terem dito ao bêbado: “Não vamos te matar porque você não merece nem isso”.(Lembra outra frase dita por um certo deputado, né)

    O mais impressionante de toda esta história é que um vendedor ambulante, que tem um perfil com alta probabilidade de ser vítima desta violência, estava rindo de todo aquele show de horror e ainda dizia rindo “Ele saiu daqui sem nem conseguir andar direito”.

    Nossa segurança estão nas mãos destes crápulas. Revoltante.

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