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18/11/2017

A Supremacia Branca toma uns tapas


“Supremacia Branca” não tem a ver com a cor da pele, ainda que esta seja o mote. “Supremacia Branca” e neonazismo ou qualquer coisa vinda da direita tem a ver com a ideia de que há hierarquias no universo que devem não só se impor por si só, mas que são sagradas e consagradas.

Todos os antigos sabiam dessa hierarquia. “Tudo está cheio de deuses”, disse Tales de Mileto no começo da filosofia. O mundo encantado sempre foi um mundo de hierarquia, afinal, deuses e mortais diferem, e os primeiros têm supremacia sobre os segundos. São mais perfeitos, senão em tudo, ao menos em uma sua principal característica. O desprestígio da hierarquia sagrada e consagrada só começou, mesmo, quando Newton falou que o universo era regido pela equação que poderia contar a história tanto da volta da Lula em torno da Terra quanto também a história da maçã que caiu na cabeça do cientista. F = G. Mm/rr é o nome matemático da Força Gravitacional, e esta, ao contrário do que os repetentes escolares pensam, iguala o comportamento de tudo no espaço do ponto de vista macro. Assim, a hegemonia do pensamento de Tales só foi de fato arranhada quando os homens usaram peruca de cabelos enrolados. Época de Newton! Época em que o igualitarismo de condições da natureza também deu vazão às ideias de lei natural no caso de lei dos homens. Nietzsche soube ver bem essa analogia e como as ciências da natureza influenciaram a visão democrática que emergiu na constituição das ciências sociais e históricas. Nietzschianamente podemos bem dizer que os criadores da democracia liberal moderna, que prima pela igualdade e condiciona a liberdade e a fraternidade, foram os físicos.

O movimento de “Supremacia Branca” é, portanto, um fruto moderno de rosto  e gosto anti-modernos. Não entende o capitalismo; não vê que, neste, a hierarquia é algo para poder fazer funcionar uma empresa, e não algo que deve ser posto como a ordem do universo. Apesar de Tales ter sido um filósofo que venceu no mundo dos negócios, plantando oliveiras, ele jamais poderia imaginar a empresa capitalista como dando um estilo hegemônico a tudo. Hoje, ele teria de dizer: tudo está cheio de funcionários. Dizer que alguém é superior a outro, no mundo de empresas, ou seja, no mundo moderno capitalista, é dizer que alguém tem uma performance setorial e determinada superior ao seu imediato concorrente. Não posso fazer um curso de medicina e, em termos de saber lidar com a saúde e com a doença, ser pior que aquele que fez o curso de direito. Ou seja, numa situação em que é necessário um médico, que não chamemos um advogado. Quando quero um médico eu quero um médico, não seu moleque de recados, disse Marx. O médico na sua performance de médico é melhor que o advogado numa situação em que precisamos de um médico, ou seja, no caso de alguém passar mal. Assim, a hierarquia no mundo moderno foi para o campo da performance setorial, e deixou de pertencer à ordem cósmica que, por sua vez, adotou o igualitarismo vindo da noção moderna de natureza. Desse modo, gerou-se a ideia democrático liberal de igualdade perante a lei.

Essa ideia moderna se tornou tão forte nas democracias, tão hegemônica, que até mesmo um Trump, nos Estados Unidos, teve de voltar a público para condenar o neonazismo, após ter feito uma fala amena logo após os episódios bestificadores de Charlottesville. Não temos que lamentar que Trump fez isso de modo tardio. É alvissareiro para nós, os modernos, que uma figura completamente arcaica como Trump não possa, mesmo sendo presidente dos Estados Unidos, desobedecer a hegemonia da ideia moderna. Ele teve de a público e condenar uma parte da sua militância política. Sabemos bem que Trump tem apoio da KKK, e o fato dele ter tido de chamar os seus eleitores de criminosos, mostra que a modernidade tem mão pesada. Tão pesada que atingiu até mesmo o homem mais poderoso do mundo. Uma mão pesada com dedo indicador bem esperto. Pois agora, pelo twitter, os anti-racistas estão identificando as pessoas que participaram dos protestos organizados pela Supremacia Branca, KKK e neonazistas, e essas pessoas estão sendo demitidas de seus empregos, especialmente na iniciativa privada. O capitalismo é amigo de Newton.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 15/08/2017

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5 Responses “A Supremacia Branca toma uns tapas”

  1. Daniel
    16/08/2017 at 01:50

    O antiracismo não é algo perfeitamente moderno como um todo, e sim americano. A hegemonia americana no capitalismo do século XX e principalmente depois das experiências racistas das guerras mundiais é que fazem Trump um cara atrasado e obriga a Inglaterra e França a não pensar mais por raça. No texto você diz nós os modernos e Trump o anti moderno. Mas isso só aparece com força depois da segunda mundial. O racismo é um fruto da modernidade, um fruto que se provou ruim e que favorece grupos de ressentimentos históricos, destruídos pela retirada de hierarquia. Assim aconteceu antes e depois de newton com o estabelecimento dos Estados nacionais e seus anseios pela identidade de um povo através de raça. Trump parece estar envolvido por essa ideia que foi mais empobrecida ainda pela KKK. Por isso penso que Trump é adepto de um dos frutos ruins da modernidade, o racismo. Inexistente antes desta.

    • 16/08/2017 at 10:38

      Daniel você confundiu o racismo com hierarquia. Eu disse que a hierarquia sagrada e consagrada (e que pode permitir o racismo, nos termos que o conhecemos), é que é o anti-moderno. Agora, sobre a II Guerra, sim, o Holocausto fez surgir um novo conceito de Direitos Humanos e de minorias protegidas pela democracia etc. O que Trump tem nas mãos é o problema correlato dos Direitos Civis. Agora, sobre a inexistência do racismo antes da Guerra, é claro que não é bem isso. O que Hitler e seus amigos trouxeram não foi novidade. A novidade dele foi o genocídio em massa.

    • Daniel
      16/08/2017 at 17:36

      Entendi. Eu quis dizer que não existia o racismo antes da modernidade. A questão de diferença entre os povos é outra. O racismo contra os africanos e os povos da Oceania é produto principalmente da Inglaterra capitalista. Mas com o tempo a Inglaterra viu que o trabalho na indústria não permite o escravismo. A hierarquia do racismo europeu (primeiro mundo, segundo mundo e terceiro mundo) existiu mas não foi consagrada mas ainda persiste até em nossos livros didáticos para a escola pública quando dizem que o povo brasileiro é inferior ao povo europeu através de imagens que possamos nos enxergar assim.

  2. Daniel
    15/08/2017 at 22:26

    Professor, você disse que os fundamentos das ciências sociais e históricas são a física e seus métodos de investigação que visaram a igualdade na natureza. Mas vejo que esses fundamentos acabaram por produzir no século XIX, o começo da Antropologia, História e Geografia como eurocêntricas com forte vertentes racistas em seus mapeamentos tanto territorial quanto de povos, o que acabou por influenciar o começo do século XX na busca do povo ideal tanto no Fascismo quanto no Nazismo e nos Soviéticos. Trump parece corroborar com algo moderno e não antimoderno, que durou por pouco tempo historicamente falando, que é o racismo, mas não pela questão meramente da cor, e sim pela questão de superioridade colocada nas pesquisas racistas pelas ciências sociais e históricas que colonizaram a África, explorada pelo capitalismo inglês. Por isso penso que a hierarquia moderna (não cosmológica), a de raças, criada no final do século XVIII e por todo século XIX principalmente pelo Capitalismo Inglês, por mais que as constituições dos Estados Unidos e da França falava na época que as pessoas eram iguais perante a lei, é a que Trump está envolvido. A KKK parece não estar colaborando com a ideia de Tales, do universo hierárquico, mas sim da raça hierárquica, do ser humano hierárquico. A Hierarquia de Trump, Bolsonaro e KKK é muito inferior a de Tales,é um tipo de hierarquia criada pelos modernos mas que a experiência principalmente da Segunda Guerra mundial a revela nociva para o Capital.

    • 16/08/2017 at 00:18

      Daniel, acho que você está devendo algo para você mesmo. Não creio que pegou o texto. Será que não é hora de disciplinar melhor seu pensamento por meio de uma escolarização mais poderosa?

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