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23/03/2017

O ressentimento atual e o perfil do cidadão de direita: a saída da Grã Bretanha da CE


O ressentimento mora no peito de muitos. O ressentimento corrói gente que não esperávamos que poderia ser ressentida.

Quando olhamos para a filosofia da história de Nietzsche ou, se quiser, sua cosmologia, o que vemos de impressionante é a sua descrição do homem moderno como o “homem do ressentimento”. O mundo hoje possui recursos e bens para todos e uma riqueza inaudita (Galbraith não errou nisso). Mas a descrição que o homem faz do mundo ainda se deve à ideia de escassez, pobreza, e a imagem que o homem tem de si, não raro, é o de um miserável que só poderá existir se derrotar o outro, dado que tudo falta nesse mundo. Esse imagem é falsa. Nossa sociedade é a sociedade da abundância. Todos os indicadores mostram isso quando tomamos as coisas pela ótica da macro história. Mas a imagem que fazemos é pelo olhar pequeno sobre o mundo e sobre nós mesmos, e então cultivamos um enorme ressentimento – justamente o que Nietzsche não queria mais que continuássemos a fazer.

O fascismo foi um movimento calçado no ressentimento e, temos de admitir, também boa parte das esquerda acabou se nutrindo disso. O comunismo bolchevista soube usar do ódio e do ressentimento. Todavia, temos de lembrar que o ressentimento – apesar do estalinismo querer sempre nos desmentir – foi algo vindo do exterior para o interior do comunismo, enquanto que no fascismo ele se fez como o seu elemento declaradamente inerente e substancial. A direita é, até hoje, o grande banco de ressentimento. Por isso mesmo, não raro algumas pessoas de direita, que inicialmente fazem a defesa de posições puramente liberais, como a doutrina do mérito, escorregam fácil para posições onde o mérito é o primeiro elemento a desaparecer da narrativa reivindicatória.

Na votação britânica sobre a permanência ou não da Inglaterra na Comunidade Europeia, a direita dirige-se por um nacionalismo perigoso, e extingue a doutrina do mérito rapidamente, pois trabalha com o medo da concorrência do não britânico, ou seja, do imigrante. Assim, entra aí uma contradição no pensamento e sentimento de cada nacionalista britânico. Ele quer posar de orgulhoso, de melhor que o estrangeiro, de alguém que é mais merecedor que o que vem de fora e, no entanto, o que o empurra para o voto a favor da saída da Comunidade Europeia, declaradamente, é a covardia diante do estrangeiro. Ou seja, ele não se sente envergonhado em dizer que o estrangeiro rouba seu lugar no trabalho e, pior ainda, rouba benefícios sociais. A direita faz desdém de direitos sociais conquistados pela social democracia e, nessa hora, esbraveja por ver seus direitos sociais, por mérito, cair para as mãos de outros. Mãos tidas, até então, como não aptas!

Essa situação se apresenta em todo os corações das pessoas da direita, no mundo todo. Dá até para dizer que é uma característica marcante do neofascista. Ele, o cidadão de direita,  quer um mundo em que vigore o “cada um para si e a nação para todos (os de dentro)”, mas é também o primeiro a querer que o estado proíba que o cada-um-para-si comece a valer de fato. O imigrante é desprezado por ser pior, por ser estrangeiro, e, então, deveria ser desprezado como trabalhador. Mas não é realmente desprezado, ao contrário, é temido. Sabe-se lá por qual razão, mas ele tem a sua competência, e rouba o emprego do britânico – assim reclama a direita nacionalista. Do Brasil aos Estados Unidos passando pela Ucrânia, a questão da direita é sempre essa: o cidadão de direita começa com discurso altivo, do self made man, no melhor estilo de John Wayne, e rapidamente termina como um chorão lambe-botas, que reclama de patrões e do estado por ter sido preterido na competição por emprego e benefícios ( o filme History American X diz tudo, lembram?).

A esquerda pode ser capaz de ser tão ressentida quanto a direita. Aprendemos isso no século XX. Mas o ressentimento da direita traz consigo uma contradição e uma extrema covardia que faz, não raro, deixarmos o ressentimento da esquerda em segundo plano. O xenofobismo é sem dúvida uma ideologia ressentida e covarde.

No Brasil, não é difícil notar, os que mais reclamam de cotas, bolsas, direitos sociais e proteção dos mais fracos, são justamente os primeiros a quererem esses benefícios só para eles, pois, no geral, são os mais fracassados e, por isso mesmo, os mais ressentidos. São pessoas nitidamente de direita. Ficam revoltados se haitianos (e outras minorias quer eles sabem que são brasileiros, mas que tratam como se nem gente fosse, como negros, mulheres, gays, índios, velhos etc.) ganham alguma atenção do estado brasileiro. Essa reclamação vem de gente de todo tipo na hierarquia econômica. Há neofascista pobre e rico, que cai nessa ideologia pelo anzol da xenobofia. Aliás, é muito interessante ver no Brasil o rico ressentido, o rico que se sente fracassado e, de certo modo, é tão fracassado quanto o direitista pobre que lhe puxa o saco e adere às falas dos políticos da extrema direita, como homens superiores que o salvarão.

Temos de compreender isso. Nossa sociologia e nossa filosofia social precisam compreender isso.  Notar isso poderá nos fazer compreender melhor a mentalidade ocidental, em especial a do brasileiro atual. Só assim será possível começarmos a lançar sementes, aqui e acolá, de políticas públicas ou de ações para a melhoria de nossa sociedade. Não é isolando o cidadão xenófobo e ultra-conservador e lhe dando combate agressivo que se deve agir, mas entendendo o seu ressentimento, suas contradições e, enfim, sua ideologia do medo, da covardia, da agressividade que vem da paúra de ser um perdedor que, não raro, já é mesmo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Foto: Jo Cox, deputada britânica morta por direitista, contrário à posição da moça a favor da manutenção da Inglaterra na Comunidade Européia.

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17 Responses “O ressentimento atual e o perfil do cidadão de direita: a saída da Grã Bretanha da CE”

  1. Claudio Dionisi
    11/07/2016 at 13:57

    Maravilha, esse texto! Nos dois últimos parágrafos o professor descreveu a relação da direita brasileira com o social exatamente na forma como eu a vejo. Quando o professor criticou a esquerda brasileira na atualidade, em outros artigos recentes, demorou para eu assimilar. É mais simples identificar a direita hoje porque ela parece ser mais radical. É difícil encontrar pessoas de direita que se importam com minorias, apesar desta característica ter vindo da direita.

    Obrigado professor.

  2. Jordan Bruno
    28/06/2016 at 06:54

    pois é professor… parece que observar o ressentimento é querer encarar a complexidade das coisas … tentei explicar para o meu professor de iniciação a filosofia que Trump, o Brexit, o antipetismo no Brasil são anos e anos de construção de um ressentimento, mas as pessoas querem explicar as coisas por meio de uma palavra (é GOLPE!) – no caso do trump e do brexit é a ECONOMIA … ora, o mensalão é de 2005, e o PT permaneceu no poder até alguns meses atrás… é um sentimento que pode levar anos e anos para se formar e a gente não sabe que consequencias vão acontecer, inclusive é possível que não aconteça nada, que pode ser o caso do Trump… mas isso é complexo demais pra quem quer analisar as coisas apenas por meio de uma palavra…

  3. Gustavo
    25/06/2016 at 18:56

    Caro Paulo, às vezes me pergunto se não vivemos em um mundo em constante anacronismo. No Brasil há um clima de volta aos anos 60 do século passado, já na Inglaterra parece que há um movimento querendo voltar aos anos 30 (população economicamente reprimida + uma direita oportunista e xenófoba exaltando a necessidade de “purificar” o país… já viu onde isso vai parar!).
    Que a história se repete, isso já me parece algo bastante claro, só fico um tanto abismado em pensar que os ciclos são assim tão curtos.
    Gostei especialmente do final de seu texto, onde você diz que não devemos reprimir os frustrados com combate agressivo, mas devemos tentar entendê-los para responder a eles de modo que nossos argumentos façam sentido na lógica deles.

    Valeu.
    Inté.

    • 25/06/2016 at 19:44

      Gustavo, no se preocupe muito. Até a direita já se arrependeu. Há dois anos para a mudança, e creio que os britânicos não sairão da CE, a não ser que ela se deteriore como um todo.

  4. LMC
    25/06/2016 at 12:33

    Tudo o que penso sobre isso,o Mestre
    PG escreveu no meu lugar.Dizer Muito
    Obrigado é pouco,né?

    • 25/06/2016 at 13:47

      Concordamos em algo! Mas fique tranquilo, em dois anos o quadro muda. A Inglaterra não vai sair.

  5. Pedro
    25/06/2016 at 11:07

    O ressentimento venceu o capitalismo?

    • 25/06/2016 at 11:17

      Parece que até os da direita já se arrependeram na manhã seguinte, talvez a coisa se inverta em dois anos.

  6. Isaias Bispo
    24/06/2016 at 22:09

    O assassino da Parlamentar é feio, vive numa casa ofertada pelo governo e não tem um emprego decente (esse cara, jardineiro?nunca!). Ele é cara e ânus da direita ressentida.

  7. Eduardo
    24/06/2016 at 21:49

    Paulo, você viu o vídeo de Pondé em que ele elogia o Olavo de Carvalho? Não pude acreditar quando vi. E pensar que ele esteve aí com você no hora da coruja. Elogiou os livros dele, falou da importância dele no combate à esquerda, etc. Não sou petista e tenho aprendido muito, aqui, com seus textos, a evitar posições reducionistas a partir de ideologias. E que merda é ver um cara como o Pondé, com a formação dele prestar um verdadeiro desserviço à Filosofia. Agora ele tá cheio de leitores olavetes, afinal, ele se nivelou ao astrólogo da Virginia.

    • 25/06/2016 at 09:39

      Eduardo, ele iria terminar assim. E finalmente terminou. Melhor assim, sai de vez da academia.

  8. Eduardo Rocha
    24/06/2016 at 19:09

    Excelente. Desde semana passada estava pensando: será que Paulo vai escrever alguma coisa sobre o que está acontecendo no Reino Unido? Seu texto me lembrou outro um texto sobre “quando começa fascismo de esquerda e direita” e “o fascismo venceu”.

  9. Rodrigo Guedes
    24/06/2016 at 13:42

    Concordo com o Texto. Iluminou o caminho Paulo !

  10. Ademir
    24/06/2016 at 12:59

    Paulo você sabe se já existe a tradução as esferas do sloterdijk em português?

    Att.

    • 24/06/2016 at 13:41

      Ainda não, mas já há os três volumes em inglês, espanhol, francês etc.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo