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21/08/2017

Radiografia do estupro


Cada estupro é um estupro. Diretores de cinema sabem mais disso que as mulheres estupradas. Médicos de prática de autópsia, então, nem se fale! As narrativas variadas apontam motivos e fases numeráveis e identificáveis. E nisso há alguma semelhança.

O estupro caseiro, aquele que está fora do campo do “maníaco do parque” ou coisas assim, é o mais comum no Brasil. Talvez no mundo. Quem executa? Trata-se do marido, namorado, parente ou conhecido que, por algum motivo, sente-se proprietário da mulher, imagina que ela tem uma dívida para com ele, e que deveria se deixar dominar. Às vezes o desejo sexual está presente, na maioria dos casos o desejo sexual se deixa mostrar pelo desejo de poder, de controle, e isso de um modo tão exacerbado que nem dá a entender que poder e sexo estão ligados. Ele, o que será o estuprador, aborda a mulher sem violência, mas na recusa dela usa a força. A intenção desse tipo de homem nunca é a violência, mas esta se desencadeia no contexto da tentativa de submeter a mulher. Há casos que o embate leva à morte da mulher. Na maioria dos casos não, nem mesmo marcas roxas ficam para contar uma história de fácil incriminação.

O estupro se dá, portanto, em etapas. Há abordagem inicial, amistosa. Há a solicitação de sexo seguida de negativa. Há então uma primeira abordagem física um pouco mais violenta por parte do homem, que nesse momento acredita que a mulher pode querê-lo, que o está querendo, que é uma questão apenas de submetê-la, que “aí sim ela vai gostar”. Na reação forte da mulher vem o contragolpe do homem e a imobilização da vítima, ou com o corpo ou com arma branca. Quando a mulher não cessa de reagir o estupro pode ser com as mãos ou mesmo a arma. Quando a mulher é vencida rapidamente o estupro é com o órgão sexual.

As variações desse tipo de coisa ocorrem quando se trata de maníacos ou de assaltos ou de planos adrede preparados por gangs. Aí sim a violência é dobrada e a morte da mulher está no horizonte desde o início. Nesses casos ocorre da mulher ser amarrada e o agressor poder se preparar para o que ele nomeia (com alguma razão) de ato sexual. Nem todo agressor consegue ter ereção em uma situação de resistência ou mesmo em uma situação tranquila, quando a mulher está amarrada. Mas as drogas ingeridas, que acompanham tais façanhas, permitem a perversão.

É um pouco ridículo acreditar que, sempre, esse tipo de agressão difere de outras agressões que envolvem domínio físico duro sobre a vítima. Quando se é submetido fisicamente, tudo se perde. Quando se é submetido fisicamente e há dor, pior ainda. Os homens assaltados e espancados são treinados socialmente para não apresentar sequelas psicológicas, mas o comportamento deles, depois de sofrerem violência, não é tão diferente de mulheres assaltadas e submetidas a algum abuso sexual. A humilhação, a raiva, a sensação de injustiça, o desejo de vingança e o medo surgem da mesma maneira.  O que efetivamente prejudica a mulher é a última fase, da qual o homem tende a escapar, que é a de ter de ficar quieto. O homem denuncia um assalto e um espancamento. A mulher não. E se denuncia tudo pode piorar. Não raro o itinerário que tem de seguir é uma desgraça. A pior coisa da violência ou de uma doença é ter de explica-la para médicos ou delegados etc. Mulheres ouvindo mulheres, delegacias da mulher, grupos de apoio particulares ou estatais, tudo isso ajuda. Mas não resolve. Em certos casos, a mulher quer ficar em silêncio, quer esquecer, e tem o direito de assim agir.

Por outro lado, há uma indústria de denúncia de estupro, especialmente contra gente que tem dinheiro e tem o que perder. Há inclusive a denúncia vingativa. A palavra “estupro” é como a palavra “pedófilo”, tem vários usos e, na mão de grupos perversos, é lançada no ar para colocar pessoas inocentes na parede. A reação popular contra o pretenso “estuprador” ou aquele que é acusado de abusar de crianças (erradamente chamado de “pedófilo” pelos que desconhecem a lei) às vezes faz estragos maiores que o próprio crime denunciado.

O estupro é um crime. A indústria que vive de sua denúncia também pratica um crime. Mas não é um crime cultivar a falta de informação sobre tudo isso. Aliás, é uma prática nossa não deixar as informações sobre essas coisas disponíveis. Fala-se muito de estupro, explica-se pouco porque a cada duas palavras a terceira é valorativa, com bravatas religiosas no meio.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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3 Responses “Radiografia do estupro”

  1. Carlos
    25/03/2015 at 19:57

    A definição de estupro não requer essas “etapas” ou um procedimento com uso de força física, a vítima não precisa resistir para que haja estupro, basta que o “sexo’ seja contra sua vontade, ou mesmo que proceda contra sua vontade apesar de um início consensual. O consentimento inicial não é incondicional, para tudo que a outra pessoa pretendesse fazer.

    (Também não se dá somente em relações heterossexuais de homem para mulher, ou contra a mulher)

    • 25/03/2015 at 22:04

      Carlos sei que você foi estuprado e por isso conhece a coisa. Mas eu apenas transcrevi os relatos de outros, nas pesquisas de investigadores brasileiros (sociólogos, psicólogos e policiais) e lhes dei uma forma. Fica frio. Conta a sua experiência.

    • The Crow
      31/10/2015 at 22:46

      Paulo… vc é mau… seu coração é frio…. e vc vai para o inferno.
      CERTEZA!!!!

      KKKKKKKKKKKM

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