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24/11/2017

A proteção dos animais é aristotélica


Não protegemos todos os animais do mesmo modo que nunca protegemos todos os humanos. Nosso sistema de inclusão é milenarmente paulatino, seletivo, e só abrimos a chave “ele é um de nós” à medida que o “ele” se torna um “eu”.

Esse segredo foi revelado por Aristóteles. Platão olhava os deuses, Aristóteles voltou-se para os elementos terrenos. Platão era vertical. Aristóteles  começou a pensar horizontalmente. Então, lançou o célebre enunciado sobre a amizade: “o amigo é um outro eu”, reverberado em vários lugares e também na Ética a Nicômaco. Sócrates e Platão jamais pensaram a amizade assim. Falaram em philia para medi-la no confronto com eros. Mas Aristóteles saiu desse plano vertical e colocou as coisas em termos do ombreamento e da observação, a reciprocidade. Se sou um “eu”, tenho que ver como um “eu” se satisfaz, e então, vendo o amigo como um “eu”, um outro “eu”, saberei o que fazer para ele ser satisfeito. Essa maneira de Aristóteles pensar, ainda que ele não tivesse como abdicar da defesa da escravidão, lançou as bases posteriores para o pensamento da inclusão. Assim fizemos e fazemos. O que consideramos algo semelhante por agir como nós, tendemos a incorporar com a amizade e depois com a esfera da família e/ou da nação etc.

É assim que incorporamos a criança à infância e lhe demos direitos. Fizemos isso com a mulher, o negro e estamos fazendo isso com certos animais. O Ocidente tem essa história. Claro que, quanto aos animais, o cão vem em primeiro lugar. Recentemente descobrimos que ele é o único animal que faz, com o olhar, que nosso organismo comece a produzir hormônios que despertam o sentimento de maternidade. Talvez o cão tenha vivido conosco antes de nós sermos homo sapiens e ele ser o cão. Só depois, muito depois, o reencontramos e o domesticamos. Então, por tudo isso, ele tem mais chance de ser “um de nós”. Mas vamos acabar fazendo isso com outros animais e, depois, com nossos robôs. Não faremos tal coisa, com facilidade, com cenouras e com baratas.

Assim, todas as vezes que Pondé fala que protetores de animais não protegem baratas, para ridicularizar movimentos que pedem o fim da crueldade com cães e outros animais, quem sai ridicularizado é ele mesmo. O mesmo ocorre com Karnal, ao atacar veganos e vegetarianos que não querem a morte de animais, usando o enunciado de que não protegemos seres vivos como as cenouras.

Nenhum dos protetores de animais ou de humanos quer proteger qualquer tipo de animal ou humano. Nossa tendência histórica é proteger sempre o que mais se aproxima do nosso grupo, o grupo hegemônico, acolhedor. O processo é de empatia que demanda reconhecer nos traços do outro o que somos. Ver o outro como outro eu. O segredo de Aristóteles que passou a funcionar na vida prática, e que nos ajuda ainda hoje a compreender antropologicamente nossas decisões a respeito de aproximação grupal.

Karnal e Pondé posam de professores, mas são incultos. Desconhecem Aristóteles. Não sabem como Richard Rorty já havia mostrado como que ampliamos nossos círculos de lealdade. Essa ampliação é nossa regra para amarmos O Outro. Não temos imperativos éticos para tal, temos é nossa aproximação, nosso experimento, nossa vida comum. Vamos nos tornando paulatinamente menos cruéis. Os midiagogos do momento não podem mesmo entender isso. São superficiais.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 21/11/2016

Ver sobre o assunto de como a ampliação da lealdade é origem da justiça: Rorty, R. Pragmatismo e política. São Paulo: Martins Fontes, 2005. (traduzi e fiz uma introdução, confiram).

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5 Responses “A proteção dos animais é aristotélica”

  1. 22/11/2016 at 17:06

    KKK, massa!

  2. 21/11/2016 at 16:26

    Professor Paulo, o dicionário de oxford, divulgou por esses dias a informação sobre qual a palavra que representou o ano de 2016. E foi justamente a tal da pós-verdade. Pois bem, o que é pós-verdade? qual o seu tratamento nas redes sociais? enfim, achei que esse tema daria um belo texto para um filosofo que, como voce, foi treinado na escola de Rorty e dos pragmatistas americanos. Eu gostaria de ler uma reflexão sua sobre esse tão decisivo tema e que talvez anuncie o inicio da pós-modernidade.

    • 21/11/2016 at 18:10

      Sérgio, tratamos disso nos anos 90, para nós isso é pós passado.

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