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29/05/2017

Políticas de identidade jogam fora o patrimônio liberal


Richard Rorty alertou há vinte anos ou mais para o problema das políticas de identidade na universidade. Necessárias, sim, mas não como uma espécie de oficialismo. Na época eu disse: sim para a identidade; sim para disciplina feminismo ou estudos de gênero, mas que não se tornem um tipo da nossa hoje defunta “Educação Moral e Cívica”. Rorty dizia, naquele tempo, que não mais que 2% dos estudantes eram de esquerda com preocupações mais radicais. E completava: são meus alunos mais inteligentes, mas caso se esqueçam de que são antes americanos que negros ou mulheres ou gays, irão botar tudo a perder. Chegamos nisso hoje?

Rorty faleceu triste, lamentando sua América ter se tornado o lugar da mentira de Bush. Não viu a fantástica recuperação do país, em todos os sentidos, com oito anos de Obama. Mas sua mensagem estava correta. O monstrengo da “política universitária” de esquerda (ou seja, liberal), pode ainda colocar tudo a perder – essa sua observação está viva.  Em parte, ela é responsável pela vitória de Trump, pela desarticulação do eixo central do Partido Democrata que se tornou refém da política de minorias, deixando de lado sua tradicional absorção dos ideias gerais do “trabalhador americano”. O professor de Humanidades da Universidade de Colúmbia, Mark Lilla, diz bem sobre isso, ao focalizar a face universitária desse movimento todo:

Tem havido uma radicalização das demandas de estudantes e também uma perda de senso de proporção. Nossos câmpus (ou campi) não são Aleppo. E ao testemunhar a fúria em torno de algumas dessas questões – quando é o caso de nomeação de prédios, o banheiro transgênero, ou a questão de ser chamado pelo nome escolhido – nós somos um país evangélico, e tendemos a nos dirigir para algum fanatismo ao tentarmos reformar a nós mesmos. Infelizmente vemos que a universidade se tornou um lugar onde esse tipo de histeria auto-induzida está afundando os estudantes que deveriam estar pensando mais para fora de si mesmos. Os administradores dos Colleges ficaram paralisados e não resistiram fortemente a isso. Criou-se um espetáculo que é bem destrutivo – e aqui eu falo como um liberal – para a causa liberal. Um fato de nossa vida política como liberais é que tudo que fazemos e dizemos é filtrada por uma mídia conservadora” (Entrevista para The Chronicle for Higher Education, 15/12/2016).

Seria tolice não ver que essa situação se repete no Brasil, inclusive nos detalhes. Por esses dias, em rede social, um professor de uma universidade pública (paulista?) teve um chilique de euforia ao ver um colega seu (de Goiás?) tomar posse na presidência da Associação de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF) não por conta de ser bom pesquisador ou filósofo – ao menos não foi por aí seu elogio -, mas por ser alguém com cara popular (negro?), um “não-engravatado” ou coisa do tipo. O esteriótipo criticado se transformou no tipo desejável! Eis que a política de identidade assume então sua face caricaturesca: o que era para ser superado virou o padrão, sai o que ele, professor eufórico entendia como “engravatado”, para abrir espaço para o que ele avalia, como deixou claro, alguém com um “rosto brasileiro” – rosto negro, pobre, do que se trata? Do que ele fala? Não deveria ele avaliar e, se é o caso na conta dele, aplaudir o colega eleito por ser bom filósofo? Isso já não seria o suficiente? Não! Ele nem tocou nos dotes acadêmicos do novo presidente. Uma lástima.

Mas a segunda parte do pensamento de Mark Lilla, posto no destaque acima, também se verifica no Brasil: não somos um país evangélico, mas estamos com fanatismo parecidos com os de grupos de americanos. Os ativistas de política de identidade, entre nós, deixaram para trás qualquer forma de liberalismo (ou seja, de não conservadorismo) para evocar um fatiamento social de cunho próximo ao que se teria em um tipo de fascismo brando. Tudo funciona como se a Constituinte de 1934 dirige a política, a Constituição de 1939 estivesse dirigindo a mentalidade individual, e não a Constituição de 1988 – aliás, diga-se de passagem, em geral tais pessoas são militantes em partidos de esquerda, como o PT, e este não foi signatário da Constituição de 1988. Não quis participar do “pacto burguês”, e ainda por cima, no decorrer dos anos, quis destruir essa Constituição por meio de corrupção! “Tudo que é burguês deve ser desmanchado não no ar, mas em terra, por meio de propina”.

Também a questão da mídia, aventada na fala de Lilla, ocorre no Brasil. A mídia é relativamente conservadora, e tem seus colunistas adrede preparados (quando não, chamam o Scruton) para utilizar de falas dos que militam pelas políticas de identidade, para realçar o que chamamo de caráter grupelhista, “bolchevique”, “comunista”, coisa da “turma dos Direitos Humanos”. Estes seriam, então, todos, gente que é a favor do “coitadismo” e da “defesa de bandidos”. No frigir dos ovos, então, o conservadorismo desses colunistas se aproveita do real fanatismo e visão estreita dos militantes não-conservadores para atacar não o que fazem somente, mas para manchar toda e qualquer plataforma liberal que, enfim, sustenta a liberdade que todos nós – conservadores e liberais – usufruímos nessa nossa democracia. Assim, o resultado desse tipo de embate entre esquerda e direita, acaba se voltando conta contra todos nós.

Ponho agora uma última carta, e esta exclusivamente minha: a maior erro dos movimentos de militantes, na direita e na esquerda, é o de cederem facilmente às Narrativas de Causa Única. Marxistas do passado, de cabeça pequena, fizeram isso: o diabo do mundo era o “capitalismo” ou o “imperialismo” etc. Feministas e professores do campo de “estudos de gênero” repetem o feito, readaptado:  o diabo do mundo é a “sociedade patriarcal” ou, de forma mais cliché ainda, mas não menos usada: a “sociedade patriarcal machista e capitalista”. O vírus da Narrativa de Causa Única pega com facilidade a raça dos militantes. Eles são geneticamente propensos a se deteriorarem mentalmente de modo a deixar agarrar na primeira oportunidade, quando da primeira crise de baixa resistência. No auto-design que criam – já que isso é o imperativo de nossa época, ou seja “você tem que mudar sua vida” – eles optam pelo que os recria de modo o menos inteligente possível. Isso é um prato cheio para que a revolução Trump encoste no plug do Leste, o populismo de direita de Putin.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 23/12/2016

 

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2 Responses “Políticas de identidade jogam fora o patrimônio liberal”

  1. Rafa
    23/12/2016 at 14:34

    Olá Paulo Ghiraldelli. É por textos assim que eu sou um leitor constante do seu blog!

    Curiosamente você utilizou uma pintura do Picasso que suscita uma longa discussão sobre o modernismo, liberalismo e a alteridade. O artista espanhol teve a ideia para pintar a Senhoritas de Avignon quando visitou o museu do Trocadéro em 1907, hoje Museu do Homem, em Paris e, diante de máscaras africanas – mas não apenas elas, também máscaras ibéricas “primitivas” (que naquele contexto eram chamada de Artes Negras ou Primitiva) – e percebeu que as formas “simplificadas”, os olhos como segmentos de circulos e o nariz em T, dessas máscaras tinham um grande apelo estético para o que eles entendiam como uma arte mais autêntica e mais próxima do inconsciente.

    Além dessas questões levantadas por você, da forma como tais movimentos estão despejando o bebê junto com a água suja da bacia, também há que se destacar de que forma o edifício desses movimentos identitários foi levantado por meio de alicerces podres. Explico: noções como “lugar da fala” (associadas a uma ideia de “vivência” que garante uma verdade por si só) e a questão da “apropriação cultural”, que reivindica uma noção de cultura simplista e mesmo burra ocupam espaço privilegiado nos projetos desses movimentos.

    Seria interessante (e isso tem chamado a atenção de jovens curiosos) se você escrevesse um pouco de como a ideia de “lugar da fala” e mesmo a “apropriação cultural” partem de concepções de Cultura essencialistas e estanques (o que não tem nada a haver com a ideia de cultura dos Estudos Culturais, por exemplo).

    Abraços cordiais

    • 23/12/2016 at 16:27

      É Rafa desde o início torci o nariz, embora na prática eu sempre tenha tentado ajudar as minorias. Mas virou algo chato. Claro, a teoria disso é pior.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo