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19/09/2019

Os pesquisadores de Black Blocs e do nada


É só o movimento dos Black Blocs apontar a cabeça e dois fenômenos surgem em nossas capitais, especialmente São Paulo. De um lado, os Ronaldos gorduchos que se tem por aí gritam para “baixar o cacete” nos manifestantes do “Não vai ter Copa” e coisas assim. De outro, professores universitários que se dizem pesquisadores dos Black Blocs e da violência urbana iniciam mesas redondas em faculdades, livrarias e outros espaços.

O caso dos Ronaldos da vida não há mais o que comentar. Pode-se dizer, apenas, que Ronaldo fala o que outros que manejam a digitação, e que são alfabetizados, falam também. Colunistas e jornalistas não dizem nada diferente de Ronaldo, mesmo se achando muito mais cultos! Quando se trata de guardar a tal “ordem”, o grunhido da repressão imbecilizada é uníssono. Até os que falam na TV de modo suave começam a ter chiliques.

Mas, quanto aos professores universitários estudiosos do assunto Black Blocs, aí sim há o que dizer. Já faz um ano que os professores universitários que falam aqui e ali de Black Blocs e violência urbana, principalmente os jovens, dizem estar “pesquisando tal movimento”. Todavia, é ouvi-los e não conseguir obter nenhuma informação a mais que a frase “é necessário entender os movimentos, e não criminaliza-los”. Só. Isso me espanta.  Pesquisa de um ano! Um ano para dizer isso? Dizer sempre a mesma coisa?

Era necessário dizer isso a partir de junho de 2013, mas continuar só dizendo isso agora, em junho de 2014, é sinal de que a pesquisa não andou ou que a incompetência para a pesquisa é o que reina na sociologia universitária. Talvez esses professores estejam mais preocupados em militância ideológica que em atividade efetivamente séria de pesquisa. Ou então confundindo as coisas, tentando empurrar a universidade para o lugar de uma suposta vanguarda que, enfim, é negada pelos Black Blocs como necessária ou mesmo útil. Não sei até que ponto os pesquisadores não estão já carregados de ideologia, acriticamente, a ponto de virem com o papo de que é “positivismo” tentar produzir conhecimento, não ideologia. Pode sim estar ocorrendo isso, afinal, jovens pesquisadores possuem a prerrogativa natural de poderem fazer toda a besteira do mundo.

O resultado disso tudo que estamos vendo é, de um lado, a direita idiotizada tendo elementos na mão para dizer que a universidade está “infestada de marxistas” que apenas querem doutrinar jovens. É tonto isso. E tontos da direita dizem isso. Mas até acabam dizendo algo de plausível se levamos em conta que, de outro lado, há o gasto de dinheiro público em pesquisas que não acontecem efetivamente, pois o que a universidade tem fornecido de conhecimento a respeito dos Black Blocs não é maior, por enquanto, do que qualquer jornalista que vem acompanhando o movimento não saiba ou já não falou de forma até melhor.

Alguns podem querer me contestar despejando uma boa quantidade de artigos produzidos nos últimos meses sobre Black Blocs, violência urbana e “Não vai ter Copa”. Sim, existe uma historiografia recentíssima. Mas é bobagem acreditar que tal pacote diz algo que o mero acompanhante leigo não tenha dito. Não diz. Aliás, parte substancial dos artigos apenas afirma o que os jornalistas mesmo pesquisaram e colocaram nos jornais, não raro, sem qualquer ajuda dos professores universitários que se dizem envolvidos no caso.

A sociologia vem de crise em crise já faz tempo. E a filosofia bateu em retirada, já faz algum tempo, do campo social vivo. Os historiadores? Pode ser … Mas a verdade é que a bibliografia produzida até o momento, publicada oficialmente ou distribuída por mecanismos outros, é pobre em termos qualitativos. Podemos lê-la, mas o que arrancamos dela não ultrapassa as informações parcas dos jornais.

Triste isso!

“Não vai ter Copa” é uma frase simbólica, e talvez agora diga também, no seu interior, “não vai ter conhecimento”, e isso de modo literal.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (São Paulo: Cortez, 2014)

3 Responses “Os pesquisadores de Black Blocs e do nada”

  1. MARCELO CIOTI
    05/06/2014 at 13:15

    O pior é gente que defende os
    black blocs(não é seu caso,PG)
    que são contra a Copa porque
    o futebol é alienação pra distrair
    as massas,blá,blá,blá….
    Mas que vai ter Copa,vai,
    infelizmente.

  2. Cesar Marques - RJ
    04/06/2014 at 23:48

    Aqui vai um link que não tem a ver com o texto, mas sim com educação, e mais especificamente com a USP, que agora certos setores da imprensa querem que cobre mensalidades: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/laura-capriglione/usp-o-ranking-os-super-sal%C3%A1rios-e-inclus%C3%A3o-050345608.html

  3. Valdério
    04/06/2014 at 15:30

    Paulo,

    Na penúltima linha do terceiro parágrafo há um pequeno erro de digitação “Isso (mês) espanta”.

    Como sempre, belo texto.

    Abç

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