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29/03/2017

Os bichos chegaram


Em 1985 nasceu minha filha. Em 1986 apareceu a doença da vaca louca. O primeiro boato era o de que se alguém comece a carne da vaca louca, principalmente crianças, ficava com os sintomas destrambelhados da vaca. A Inglaterra parecia ser o local da coisa. Mas logo vimos o Canadá não querer comprar nossa carne, dizendo que nossas vacas usavam camisa de força, de tão loucas que estavam. Mães ficaram apavoradas, com medo de ver suas crianças loucas, num tempo que não havia Ritalina. Aliás, ainda se estava bem distante do tempo em que José Serra iria dizer que gripe suína se pega pelo espirro do porquinho no rosto das crianças.

Foi só então, na época da vaca louca, que começamos a pensar seriamente no consumo de carne e outras coisas. De lá para cá, ficamos mais atentos com a alimentação. O mundo todo etiquetou alimentos, dizendo algo sobre suas qualidades e efeitos etc. Mas, ao mesmo tempo, o movimento vegetariano, vegano e o de Direitos dos Animais começou a ganhar força. Pois a vaca louca fez como a filosofia faz, desbanalizou o banal. Ou seja, ficamos sabendo o que já sabíamos, mas tínhamos escondido a partir da entrada da modernidade e a partir, principalmente, da invenção da geladeira: comemos defuntos.

Muitos começaram a se perguntar, para além do Partido Verde que então surgia como uma espécie de alternativa ao mundo versado em direita e esquerda, se tínhamos de fato de sermos comedores de defunto. Começamos a deixar Engels de lado, com sua ideia, baseada em antropólogos carnívoros, de que ou se come carne ou não se evolui, o que nos fez achar que sem proteína animal nosso cérebro perderia alguma coisa. Em um prazo de trinta anos o mundo mudou a ponto da indústria de carne no Brasil chamar o Tony Ramos, subornar e perverter Roberto Carlos e, enfim, no desespero, colocar Fátima Bernades em um segundo plano diante de Robert De Niro. O número de restaurantes vegetarianos e veganos começa a crescer assustadoramente. Uma parte boa da classe média mudou seus hábitos. Outra parte não fez nada disso por conta de regime, mas por realmente estar a fim de parar com o “holocausto animal”. O ciclo da vaca louca deixou todo mundo louco. Louco por parar uma matança que se tornou para muitos repugnante. Em trinta anos nossa sensibilidade para com nossos parceiros de nave espacial  – a Terra – se alterou.

Um caçador de humanos é mais tolerado que um caçador de elefantes ou leões ou alguém que, lá na China, coma cães. Ficamos intolerantes à dor animal. Boa parte dessa classe média escolarizada, que mudou sua sensibilidade diante dos animais, nada fez senão o movimento já esperado por Marx e Foucault, quando olharam o capitalismo com perspectivas de águia em voo alto. O capitalismo suaviza relações, mesmo quando causa guerras. Suavizou relações também entre nós e outros parceiros da nave, os animais. Eles passaram a se fazer mais presentes, mesmo que alguns deles tenham já sido extintos. Em um curto prazo de dez anos percebemos que a visão do ecochato não tinha mais nada a ver, e que entender nossa história como história da biosfera e atmosfera, nosso trabalho de condicionar o ar, era algo bem longe da caridade, mas uma atividade normal de mantenedores da nave. Ver os animais conosco, sem matança, tornou-se parte do nosso dia a dia na nave. Alguns deles ganharam status de pet para em seguida virarem filhos, outros ganharam status de “preservados”. O fato é que não se trata mais de “nós” e “eles”, mas de todos os que estão na mesma nave e que possuem funções claras no aparelho que segue o espaço sideral.

O entendimento dessa nossa visão e sensibilidade irá determinar boa parte de nossa vida cotidiana e de nossa vida política. E no prazo de menos de duzentos anos, como todos os cálculos dizem, a Humanidade será quase toda ela vegetariana. Só então os que reclamam pelas cenouras terão vez. Por enquanto, o problema é o do Holocausto animal. E é sério.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 23/11/2016

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15 Responses “Os bichos chegaram”

  1. LMC
    24/11/2016 at 14:34

    Pondé xinga vegetarianos pra
    vender jornal e o PG xinga ateus
    pra ter muitas curtidas no Facebook
    dele.O Brasil virou um circo sem
    lona,mesmo.

    • 24/11/2016 at 14:36

      LMC acho que você tá com graves problemas mentais, graves mesmo, ao dizer que procuro curtidas no facebook por conta de ateus, acho que você não tem visto o que é ateísmo de facebook. Bem, tenho de considerar que em geral você escrever meio que sem ler, e muitas vezes com baixa reflexão. Mas se quiser pensar, tente. Quem sabe não consegue?

    • 24/11/2016 at 14:40

      LMC não tenho interesse em ter leitores em quantidade, mas em qualidade, não escrevo para formar energúmeno. Quero aqui só quem consegue pensar.

    • LMC
      24/11/2016 at 19:37

      Aquele Karnal que diz saber de tudo,disse
      que Hillary e Trump são a mesma coisa,PG.
      No Brasil,nem os ateus se salvam.kkkkkkkk

  2. Gizeli da Cruz
    23/11/2016 at 19:27

    Gostei do texto. Me senti na situação de Sherlock Holmes que simplesmente ignorava o movimento circunsolar da Terra… Nem imaginava que o tal “mal da vaca louca” tivesse aparecido pela primeira vez quando eu só tinha 7 anos. Nesta época minhas preocupações se limitavam a brincar, fazer bagunça em casa e assistir a “babá eletrônica”. Como muitos brasileiros na época, a preocupação básica da família não era a “origem” da carne, mas ter carne na mesa, já que a escassez de alimentos crassava no Brasil daqueles tempos. Minha avó materna não se preocupava com isso: como era negra da roça, entendida nas artes da terra e criadoras de seus próprios alimentos; a vi mais de uma vez sacrificar bichinhos (claro que fazia isso longe da vista das crianças, mas sabíamos da morte do bicho pelos seus urros). Ela tinha um método interessante, diferente do que aparece nos filmes em que um rosto sádico encara o animalzinho indefeso e age com masoquismo e pervesidade, minha avó, interada nas artes antigas do índios e africanos, fazia uma espécie de oração e matava o bichinho num golpe seco e rápido; dizia ela: “Não se deve fazer bicho sofrer”. Ela cuidava de todo o tipo de bichinho, incluindo os girinos que cismávamos de adotar como se fossem peixinhos ornamentais, quando pegávamos peixinhos de verdade, ela devolvia ao rio, pois “era maldade prender bichinho novo”. Deixava o quintal cheio de frutas para nós, os pássaros e os insetos; destruía as armadilhas de passarinho que encontrasse ao redor ou perto dos lugares onde ia e ralhava com o dono dizendo: “Deixa de ser ruim! A gente come bicho porque precisa, prender bicho é ruindade!”

    Nunca questionei a ética da minha avó materna. Mesmo hoje, com ensino superior, vivência com a classe média e um monte de amigos veganos e vegetarianos; considero que minha avó tivesse uma forma muito mais consequente e sensata com a vida neste planeta. Ela entendia que as razões pelas quais a cadeia alimentar se organizou não eram levianas. Ela nos servia legumes e frutas e todo o tipo que a terra podia produzir naquela região. Aprendi a gosta de jiló, chuchu, batata-doce, inhame, cará e a conhecer ervas para usos medicinais, conforme os ancentrais dela, e a própria experiência lhe ensinaram. Os veganos e vegetarianos de hoje me parecem como aqueles descritos por James Joyce no seu “Ulisses”: meros comedores de bife de soja com soda. Pura perfumaria. Gastam horas de discursos pseudo-científicos para tentar justificar uma “moda” ou melhor uma imposição!

    Certo mesmo estava certo judeu quando disse: “O que faz mal não é o que entra pela boca, mas o que sai dela. Preocupem-se mais com o que há seus corações do que com suas barrigas”.

    (a frase não é precisa, eu sei…)

    Se não houver cenouras, que comam beterrabas!

    • 23/11/2016 at 22:25

      Gizeli a Vaca é um exemplo, existiram dezenas da outras redes da história do “parlamento das coisas”, essa história holística e na base da fortuna, que não é mais a história dos homens, de classes e luta de classes, de economia ou sociologia. Nessa história nossa, que nós filósofos de hoje nos enredamos, e que talvez seja um momento de virada em favor de uma neo-ontologia, vamos ter de tratar de algo que vá da nossa geladeira ao urso polar passando por fast food, Putim, Madona e o Zika Virus.

    • Orquidéia
      26/11/2016 at 07:35

      Uai, Gizeli.
      Sou vegetariana há uma década,não como soja [ indigesta] e não faço discurso.
      Vegetarianismo não serve para todo mundo,muitos não tem saúde para isso.

    • 26/11/2016 at 07:36

      Pois é, Orquídea, tem gente que gosta de discurso, faz e recebe, e geme.

  3. Joao Pedro Dorigan
    23/11/2016 at 17:55

    Falar em moral dos animais como propõe Mark Rowlands até dá para engolir, mas isso é demais.

  4. Joao Pedro Dorigan
    23/11/2016 at 16:21

    E vamos ter quimeras quando cruzarmos nosso DNA com os dos bichos…

    Na boa, o fato do ser humano não compreender a sua existência na terra não o legitima a alçar animais na qualidade de humano, só se todos já aceitaram sua condição de burro atemporal.

    Esses textos são sérios mesmo? Como você vai nos chamar de burro agora? Vai humilhar seu outro eu? Cuidado com as unhas…

    • 23/11/2016 at 18:09

      Dorigan já cruzamos com os animais, vê sua mãe, ela o teve aos 11 meses.

  5. Franklin Mariano
    23/11/2016 at 15:56

    Paulo, Voçê viu este artigo interessante a respeito de Rorty e seu vislumbre da América de Trump hoje na BBC : http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37991064

    • João Ribeiro
      24/11/2016 at 12:51

      É mesmo professor! Seria muito interessante uma análise sua sobre os dizeres de Rorty acerca dos Estados Unidos. Parecem se realizar agora.

    • 24/11/2016 at 12:52

      Rorty achava que a coisa ia acontecer antes, mas de errado, Obama apareceu. Trump é apenas uma coisa de passagem. A essa altura, Rorty teria menos pessimismo.

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Filósofo