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20/07/2017

O poder do lugar e o lugar sem poder


O século XVIII foi o da razão, o século XIX foi o da história, o XX premiou a linguagem e, enfim, o século XXI será o do espaço. A geografia e não a história deve dar o tom para o século XXI. O tempo continuará a nos dar subsídio, mas o nosso século será o do espaço. Para tudo, falaremos em lugar antes que em dias ou anos. Já podemos notar isso ao ver as grandes migrações provocadas pelas guerras nesse começo de século, e pela quantidade de refugiados que temos no mundo. Também o desmatamento da Amazônia e outros problemas ecológicos gravíssimos, todos problemas espaciais, darão o tom para a vida. Não poderemos falar de “aquela época”, e sim teremos de dizer: vejam como o espaço no qual ocorreu o desastre de Chernobil é um lugar fantasma. O tempo dará marco, o espaço dará conteúdo.

Também os discursos ganharão aspectos nos quais, para analisá-los, teremos de antes notar em que palcos estão sendo proferidos. O tempo será relativamente dispensado, uma vez que marcará apenas a repetição do mesmo fenômeno. O poder não virá de dinastias, de sangue ou de dinheiro, mas simplesmente da geografia política. Estamos nisso, é claro, mas a notoriedade desse fenômeno é o que temos de crescente.

Foucault já havia dito isso que eu chamo de geografização da história do poder. O filósofo francês nos ensinou que o poder tem poder não pelas ações que desenvolve, mas pelo lugar do discurso emitido. Isso vale inclusive para o poder que vem do entendimento intelectual de um discurso. As falas dos políticos são bons exemplos: são a expressão da verdade e são tomadas como inteligentes, inclusive por nós intelectuais, quando são emitidas por lugares de poder, mas quando o lugar é esvaziado de poder, rapidamente começamos a notar que discursos proferidos dali nos parecem tolos – são efetivamente tolos. Mas já não eram?

Espaços de poder são espaço de legitimidade e ações legítimas.

O lugar da presidência não é um lugar em Brasília. O lugar da presidência é um lugar discursivo. A geografia do poder implica em efetivo poder se essa geografia segura a legitimidade do lugar. Aí sim o lugar é um lugar – um espaço de poder. Mas se a legitimidade vai embora e o local se mostra vazio a ponto de ali só existirem gravata colorida e blazer feminino de escritório paulistano, os discursos ali proferidos começam a aparecer como tolos, mesmo que pronunciados pela mesma boca de sempre. Vimos isso com Figueiredo, Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e, agora, com Temer.  Bastou Brasília se tornar o lugar esvaziado, e todos esses presidentes começaram a ser notados por frases imbecis, por disparates, por gafes e coisas do tipo. Há um anedotário político desse tipo de gente que vai do “cheiro do cavalo é melhor que o cheiro do povo”, de Figueiredo, até o cumprimento de Temer ao rei da Suécia estando diante do rei da Bélgica. Os livros de FHC ficaram em segundo plano diante da frase dele “os aposentados são vagabundos”. E Collor pronunciando o seu “duela a quem duela”, no Uruguai, não foi um show? Sarney então … Meu Deus, não? Lembram dele nos últimos dias de governo, com as frases em que buscava candidatura a senador no Amapá? Dilma brindou-nos com a criança que vem atrás de uma bola com o cachorro e, depois, com aquela famosa tese do estoque de ar. O mesmo Lula que dizia que pobre tinha de poder ter mais chances, algo incontestável, acabou dizendo que ele, Lula, era o homem mais honesto do Brasil. Depois, no conjunto de mentiras que proferiu, nos deu aquela frase na TV, recente, de que “a mentira tem perna curta”.

Os inimigos políticos dessas pessoas dirão que elas sempre falaram bobagens, mas isso não é verdade. Quando o lugar em que estão é esvaziado de legitimidade, por fatores ligados a elas diretamente, como a corrupção, ou fatores ligados a elas indiretamente, como uma crise econômica, os discursos dos presidentes revelam uma imbecilidade não apenas perene, mas também um aumento real da imbecilidade. Não se trata apenas de uma questão de percepção da bobagem por parte do público ou da imprensa, mas efetivamente da produção de um maior número de frases tolas. O lugar esvaziado de legitimidade não só revela a burrice, mas ele realmente produz mais burrice. As gafes surgem como brinde dessa estupidez inerente ao lugar em vácuo de prestígio. O poder do lugar de poder que perde poder é sinalizado pela gafe. O bobo da Corte sai de frente do trono para nele sentar.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 08/07/2017

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3 Responses “O poder do lugar e o lugar sem poder”

  1. Eduardo Rocha
    12/07/2017 at 16:15

    Qual obras você indica de Foucault? Conheço pouco. Tenho apenas Michael Foucault: Filosofia e Biopolítica de Guilherme Castelo Branco e A ordem do discurso.

  2. Anderson Luiz da Silva
    11/07/2017 at 19:08

    Ao invés de geografização da história do poder, por que não territorialização?…..

    “A desterritorialização do poder e a gênese do bobo da Corte” (esse vai ser meu… kkkk)

    • 11/07/2017 at 19:15

      O termo vale, mas não para o meu background, que vem de uma tradição de história da filosofia onde vale mais o termo que escolhi, daí o início do texto, remetendo aos séculos.

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