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29/05/2017

O negro no Brasil, o negro nos Estados Unidos e o “negrinho do DEM”


A Universidade de Georgetown irá pedir desculpas aos descendentes de escravos e colocará as mesmas vantagens para eles que são concedidas aos filhos de ex-alunos (Folha 02/09/2016). Com isso, a valorosa e afamada instituição entende curvar-se, reconhecidamente, às declarações de Jefferson, um dos que fixaram as leis americanas com salvaguardas de uma terra de igualdade e, por isso, de oportunidade. 

A Universidade assim está fazendo porque se envolveu diretamente na instituição da escravidão. Uma comissão técnica sobre o assunto, nomeada pelo reitor no começo dos anos 2000, chegou agora ao final parcial dos trabalhos, e concluiu que de fato a Universidade esteve metida no negócio do tráfico e da própria escravidão. Resta agora criar uma política particular de restituição, resgate ou coisa parecida. Não se trata de um negócio que divida direita e esquerda acadêmicas. Pró-democratas e pró-republicanos concordam com isso, internamente. É uma questão tomada como justa, correta, de reconhecida culpa. Será feito. E assim mesmo a comissão técnica não irá parar de trabalhar investigando mais problemas dessa natureza. Haverá então vantagens para filhos de escravos ou qualquer filho de negro no sentido de favorecer seu ingresso em Georgetown. Serão vantagens já existentes para filhos de ex-alunos.

No Brasil o registro de escravos foi queimado por Rui Barbosa. Tudo. Não se sabe bem quem são os negros do Brasil quanto `a origem africana. Também não ocorreu de termos tido aqui instituições do porte de universidades na época da escravidão. Mas, se por um acaso algum brasileiro negro venha a morar nos Estados Unidos e tiver filhos lá (ou quiser se naturalizar) poderá também usufruir das vantagens oferecidas agora pela Universidade de Georgetown.

Fico imaginando que o menino negro brasileiro que quer por mágica ser branco (sim, aquele que os próprios conservadores brasileiros, e não eu, chamam de “negrinho do DEM”), viesse a morar uns tempos nos Estados Unidos, tivesse filho lá, ele certamente abriria mão de tais vantagens, não é verdade? Ele diria: “de modo algum vou deixar meu filho entrar em Georgetown, não quero bolsa lá, meu pimpolho é um autêntico self made man americano e não precisa de nenhuma esmola”. Ele não faria isso? Ah, faria sim, ele é altivo. Ele diria: “não e não, não deixo, você meu filho já é quase branco, é um brasileiro altivo, não vai receber nada de regalia aqui não, você vai ficar feliz em fazer uma faculdade municipal noturna”. Por ordem do pai, o filho não iria prestar exames na célebre Universidade de Georgetown. Não é verdade?

O Brasil não criou o sistema de cotas para pagar dívida aos negros. Muitos negros e gente de esquerda diz que sim, mas isso é interpretação errônea, vinda de quem comprou o discurso da política americana. A verdade é que no Brasil não há essa relação de dívida assumida entre o estado ou a sociedade e os indivíduos negros. Ninguém no Brasil, indivíduo ou instituição, sente culpa pela escravidão. Ela foi um “negócio geral”, foi a lei. Ninguém aqui assume ser neto de dono de escravo. Muitos aqui não assumem serem descendentes de escravos. Além disso, não houve aqui um Jefferson ou “pais fundadores” para dizer que as leis do país não poderiam permitir a escravidão. Aqui, a política de cotas é uma política que nada tem a ver com indivíduos ou resgate ou pagamento pela mancha da escravidão. Trata-se, aqui, de uma inteligente política (há outra? não!) de tornar o branco capaz de ter o privilégio de conviver com o negro em mais lugares do que ocorre agora. Com isso, a convivência tem por objetivo diminuir o preconceito. Vendo mais negros em mais lugares diferentes, até então não ocupados por eles, de forma mais rápida, pensa-se que em vinte anos o preconceito terá caído de maneira drástica. Isso já foi mostrado em outros lugares. Dará certo aqui também. Já está dando.

Assim, no Brasil, a questão de cotas não tem a ver com culpa, mas com promoção. Não promoção individual, mas aceleração de promoção a fim de realizar política étnica. Qualquer negro pode não querer utilizar o sistema de cota, ou pode querer utilizar. Continua livre para não usar. Portanto, não faz sentido ter algum branco ou algum negro reclamando das cotas. Ninguém está ofendendo individualmente alguém ao lhe oferecer uma entrada na universidade que, enfim, com as cotas, está dizendo: “queremos você aqui, não vá embora, venha e fique”. Isso não é desmerecimento, isso é carinho, bom tratamento, mas, antes de tudo, concordância com a ideia de que precisamos acelerar a entrada de negros em lugares em que eles não estão.

Há negros que não querem ser negros. Não querem ter orgulho de pertencerem à cultura negra. Querem ser brancos. Querem ter orgulho de repetir o discurso (ideológico, por sinal) do branco. Acham que se viverem sob as mesmas circunstâncias dos brancos, deixarão de serem chamados, pelos conservadores, de “negrinhos”. Ora, não deixarão. Não é por aí. A expressão “negrinho do DEM” poderá desaparecer da boca dos integrantes do DEM (que foi onde a escutei) se esse negro, que finge não escutá-la, favorecer a política de cotas, ajudar aumentar a presença de negros nos lugares mais rapidamente e diminuir o preconceito com tal política. Agora, querer pular essa etapa por meio da mágica, desconhecendo mecanismos sociológicos e antropológicos pelos quais se pode vencer o preconceito, aí sim isso é demonstração de uma certa deficiência cognitiva seletiva. Não há razão por optar por isso.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 02/09/2016

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13 Responses “O negro no Brasil, o negro nos Estados Unidos e o “negrinho do DEM””

  1. François
    07/09/2016 at 08:12

    Concordo parcialmente, pois o que chamamos de cotas, se não se configurar como um determinado pagamento de divida, não haverá uma verdadeira conciliação entre as partes. Isso é um entendimento jurídico. Agora, se entramos em fundamentação filosófica, acredito que parte do discurso do texto será até compreensível pra alguns. Eu pessoalmente entendo até os limites jurídicos, pois existem exemplos recentes com os judeus escravizados durante a segunda guerra mundial, onde até hoje estão sendo indenizados pelos estados que os infringiram a escravidão. Desta feita, ninguém estará inventando a roda tipificando as cotas como uma espécie de indenização. Acredito que existam dois tipos de pessoas sustentando esse discurso filosófico. A primeira por boa intenção, querendo amenizar o cenário do enfrentamento branco X negro. A segunda, na cara de pau, fazer desse discurso ferramenta para escamotear um precedente jurídico, que de alguma forma possa caracterizar esse caso da lei das cotas pelo Estado como um pagamento de divida.

    • 07/09/2016 at 09:32

      François não há sujeito jurídico aí, meu caro. Minoria é sujeito sociológico, não jurídico. Não há dívida nenhuma a ser paga, nesse caso, e se as cotas forem pagamento, elas seriam um escárnio. É por entender que é pagamento que muito negro não quer cota, pois é uma humilhação. À escravidão não se paga.

  2. Luciano
    02/09/2016 at 18:30

    Paulo, o governo implantou o sistema de cotas para negros pensando conscientemente nesse conceito que você expôs? De qualquer forma é interessante. Com as cotas por renda apareceram alguns negros e muitos pardos nos cursos da universidade onde trabalho, inclusive em Medicina. Veremos se num futuro a médio e longo prazo teremos resultados nesse sentido exposto no texto.

    • 02/09/2016 at 18:45

      Luciano não de todo. A implantação se deu a partir de vários discursos e correntes. Tanto é que ao final acabou cedendo ao PSDB e enfiou no meio a cota social, que é puro populismo dos que criticavam o populismo. Mas o conceito é esse.

  3. Petrônio Gonçalves
    02/09/2016 at 14:44

    Mas o Brasil é um país altamente miscigenado. Como lidar com esse detalhe? Temos milhões de mestiços na rua da amargura, o que dar para eles, que política eles teriam? A solução seria criar divisões imaginárias entre “negros” e “brancos”?

    • 02/09/2016 at 15:53

      Ué, não entendi sua objeção! Você disse bem: nas ruas. Mas não nos lugares de juízes, médicos, advogados etc. Cara, negro é opção por declaração. Não é cor, é cultura. Putz! Se o cara se declara negro na sua trajetória de vida, ele é negro. Caso ele seja clarinho na cor e se declare negro, pode haver investigação no sentido de quando é que ele se declarou negro, qual sua cultura assumida. Qualquer fraude é perceptível. Putz cara, tem dó.

    • Petrônio Gonçalves
      02/09/2016 at 18:13

      Mas o fundamental então não é que essa cultura tenha lugar de destaque no Brasil (profissões com prestígio social, econômico etc) e altere essas relações hierárquicas que temos? Pq se manter as mesmas estruturas de opressão qual seria a vantagem? Tudo que venha para fazer e criar cidadania futura não apenas para quem seja de meia dúzia de profissões seria bom.

    • 02/09/2016 at 18:45

      Petrônio o ótimo é inimigo do bom.

  4. LMC
    02/09/2016 at 13:38

    Oi,PG.Adorei que você citou o que escrevi
    sobre o Safatle hoje,na Folha no teu
    Facebook.Mas aquela última parte
    do meu texto que escrevi,não gostei
    não,pois não quero fazer apologia da
    violência pela internet.Não dá
    pra tirar,não?Abs.

    • 02/09/2016 at 14:38

      Basta dizer que é figurado… ah, deixa o povo gemer.

  5. 02/09/2016 at 09:45

    Correção: ”Um professor, aqui, torna-se o *disseminador social…

  6. 02/09/2016 at 09:43

    Paulo, o interessante dessa narrativa que você usa para justificar as cotas é que, ao contrário da tradicional – as cotas como compensação -, ela é, acima de tudo, útil. Faz sentido com a nossa história e antes de tentar colocar um peso difícil de ser carregado socialmente, ela vem como uma ação positiva que pretende fazer o bem. Legal!

    Uma coisa que me incomoda na maneira como as cotas estão postas de modo geral no Brasil é que sua fundamentação vem para calcar uma narrativa que transforma as instituições quase que em um ”inimigo a ser vencido”. Um professor, aqui, torna-se o reprodutor social de tudo de ruim que se possa imaginar!

    Ótimo texto. Vou tentar mostrar essa via sempre que tiver de falar sobre o assunto.

    • 02/09/2016 at 12:04

      Isaías são de fato histórias diferentes, os discursos se cruzaram e, claro, o deles é hegemônico, o americano.

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Filósofo