Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

22/06/2017

O fim total do quarto monoteísmo


Bem antes do fim do Muro de Berlim Moscou já havia deixado de ser um lugar de peregrinação do Quarto Monoteísmo. Agora, finalmente, também é Havana que se despede desse posto, com a morte de Fidel. O próprio ditador, dizem alguns, havia pedido para não fazerem estátuas suas, para evitar o “culto à personalidade”. Na verdade, se é que Fidel fez isso mesmo, foi para evitar que ocorresse com as suas estátuas o que ocorreu com as de Lênin e Stálin, que foram derrubadas com picaretas e arrastadas pelo ódio popular.

O comunismo sempre teve uma certa dificuldade em lidar com a sabedoria das religiões rivais. O judaísmo proibiu imagens de Deus. O cristianismo, aparentemente não, mas a imagem da cruz nunca foi a imagem de Deus e o beabá dos cristãos jamais deixou de ensinar tal coisa. O islamismo, por sua vez, tratou de proteger com a espada qualquer abuso em relação à imagem do profeta. Ora, a foice e o martelo nunca puderam competir com símbolos relativos ao transcendente. O culto ao objeto, à coisa, não podia competir com o culto do espírito ou de qualquer coisa mais humana, mais viva, e então o quarto monoteísmo acabou cedendo à idolatria popular, por isso em todos os lugares onde entrou povoou as praças de estátuas dos ditadores locais, em geral batizadas pela presença das de Marx e Engels. Essa praga das estátuas só serviu para, ao longo das últimas duas décadas, ganhar bordoadas de pás, martelos, picaretas e até mesmo empurrões de tratores. O ódio ao comunismo nem era tanto quanto o ódio aos famosos “timoneiros”.

Fidel Castro não era nenhum tolo. Posto em forma de estátua, poderia ser derrubado pelos tiros da CIA que não o pegaram, mas apenas pela urina e chute de transeuntes. Fidel evitou essa  cena que estaria, agora, prestes a ocorrer. Até nisso ele foi mais inteligente que os seus parceiros do Leste Europeu. Talvez por isso vá sobreviver como “uma personalidade controversa”. Não será jamais derrubado. Mas, nem por isso, terá um fim nobre. Não terá. As pessoas no mundo todo ficaram saturadas do blá-blá-blá intelectualóide a respeito do “homem novo”. Aliás, nada mais antigo e decadente que  a palavra “novo”. Tudo que é batizado de novo, hoje em dia, nasce velho. Vivemos o tempo da novidade e, por isso mesmo, só os energúmenos anunciam que aquilo que fazem é “novo”. O segredo na novidade, atualmente, é a de não ser batizada como nova. Ele tem que vir deslizante, entrar em cena, entender que vai durar menos que 24 horas, que vai “viralizar” e desaparecer e, por não ter sido batizada, pode não ser mais falada, mas não irá de todo desaparecer. O segredo da novas doutrinas é não se anunciarem como novas.

Não vivemos mais a época de Marx, quando ele avaliou o seu tempo pela frase “tudo que é sólido desmancha no ar”, mas em um momento em que as questões não passam por estados como sólido, líquido ou gasoso. Essas metáforas são ridículas atualmente. No momento em que vivemos, o que vale é a aclimatação. Contam para nós as estufas, não estátuas ou não-estátuas. Não estamos numa época de peças, mas de ambientes. Os monoteísmos que ficarem valendo serão os de ambiente, os do cuidado com o Palácio de Cristal.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 30/12/2016

Tags: , , , ,

2 Responses “O fim total do quarto monoteísmo”

  1. 31/12/2016 at 18:35

    Se os lideres políticos não “morressem”, o regime iria virar uma teocracia. Fidel, antes de morrer, proibiu as imagens dele próprio, mas não deu aos jovens da Ilha algum horizonte que pudesse orientar o sentido histórica do socialismo: uma conversão à velha social-democracia, sei lá. Era o pós-89. A cultura política dos idólatras é agora o único consolo que resta!

  2. Orquidéia
    31/12/2016 at 08:30

    Muito feliz ano novo ao sr.e à família,prof.Ghiraldelli!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *