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28/06/2017

O cheiro de enxofre da reforma da previdência


Em seu livro A vida é injusta (1) o filósofo e antropólogo alemão Thomas Macho lembra que a morte só é injusta porque a vida é injusta. Mas a vida é injusta, ao menos para nós modernos, ele lembra bem, se não é vivida dentro do que poderia ser vivida em nosso tempo.

Nesse caso, Macho mostra o quanto as grandes bolhas de abundância do mundo, que podem manter uma vida média com mais de 75 anos, acabam por ter de ser contrastadas com os lugares em que a vida média não ultrapassa os 45 anos. Esses lugares de baixa vida média existem. Não são poucos. Assim, Macho mostras as disparidades econômicas e sociais do mundo.

O que ele quer dizer não é só sociológico, é profundamente filosófico.

A morte é um fato natural e poderia não ser justa ou injusta. Mas torna-se injusta quando uns vivem muito e se realizam, enquanto outros não. Acreditar então que não temos essa concepção de justiça é querer se enganar. Nós a temos. E justamente por isso, está cravado entre nós a ideia de estado de bem estar social, Welfare State, e com ele a tese de que podemos sim ter algo chamado previdência social. Trata-se de um elemento necessário na nossa concepção moderna de justiça.

Abandonar a ideia de previdência social pública ou promete-la somente para os mortos é então uma má ideia. Uma ideia que carrega, ao menos para os nossos tempos, o sinal da injustiça. Em países em que o trabalho braçal ainda permanece vigente, então, a injustiça se amplia. Em países não homogêneos do ponto de vista da distribuição de renda, a injustiça causada por uma previdência impedida de prever, se torna já, então, um escândalo. O Brasil está entre esse lugares do escândalo. Ou assim quer estar, se depender do governo Temer, herdeiro do governo Dilma.

A tese frouxa do governo brasileiro e dos economistas conservadores é que não temos mais como bancar a previdência porque nossa população está envelhecendo. Essa é uma tese fraca. Ela pode ser lida da seguinte maneira: só vamos poder ter previdência pública para os mais pobres se começarmos a voltar aos índices mais altos de mortalidade da população. Temos de deixar de viver para viver. É exatamente assim que o governo brasileiro pensa. Pensa isso para nós, mas para os que estão na cúpula do governo, todos eles aposentados já no nascimento, não e´assim.

Em suma: o Brasil precisaria voltar a ser um país bem subdesenvolvido para ser um país desenvolvido, ou seja, ter uma previdência social digna.

A economia brasileira é, com todos os percalços de gestão, uma das primeiras do mundo. Se um país como o nosso só pode aposentar as pessoas após os 65 anos, sendo que a vida média do brasileiro pobre não está nisso ainda, então, estamos cedendo a uma ofensa à razão.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo 19/03/2017

  1. Das Leben ist Ungerecht. Residenz Verlag, 2010.

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8 Responses “O cheiro de enxofre da reforma da previdência”

  1. Ícaro
    24/03/2017 at 13:20

    O texto é de uma lucidez sem fim. E daqueles que fazem vc pensar. Realmente o que o.governo está propondo é um contra senso, conquista-se uma maior expectativa de vida e fica sem aposentadoria ou continuamos sem dignidade e não teremos nem como desfrutar uma provável aposentadoria. Colocaram o povo brasileiro entre a cruz e a espada e ambas de mentirinha. Fico procurando alguma força social, sindicato, movimentos sociais, partidos não são dignos nem de serem mencionados, e não encontro pra barrar esse golpe.

  2. Lorival Braga
    22/03/2017 at 17:38

    Paulo, você pode não gostar dele. Falar que ele faz stand up e tudo mais, ou até que ele é careca. Eu não ligo pra isso, até tenho fetiches em carecas, sei lá…imagino um super pênis quando me deparo com um. Lambo todas se deixar. Mas aqui esse video do clovis é bacaninha: sobre nossa condição atual. Pobre tem uma obsessão por comer carne todo dia, sei porque no interior do Brasil é assim…mas será que comer linhaça todo dia também resolveria o problema…ou ter um careca por dia como no meu caso? Assista o video é a vida
    https://www.youtube.com/watch?v=ek2fzgeVOy8

    • 22/03/2017 at 18:17

      Lorival, você tem tempo para porcaria, eu não. Eu sofistico minhas escolhas. E não pense que pobre é burro. Há pobre burro, você pode se unir a eles.

    • Lorival Braga
      23/03/2017 at 10:22

      Não disse que pobre é burro, estava falando apenas que alguns do meu círculo de convivência tem obsessão por comer carne todo dia. Agora você vem todo grossinho pra cima de mim. Bem que me alertaram da sua histeria com os filósofos de mídia, que estão sempre aparecendo. Só por que você ainda não rodavivou? Para com isso gato. Quem sabe viverá para isso…te aminho

    • 23/03/2017 at 12:35

      Lorival você está tão fora do ar, tão fora da vida de um filósofo e professor, que acha que nós estamos querendo aparecer em TV. Já fiz isso por obrigação profissional, mas estou felizmente fora disso. Acorda cara, acorda e vira homem. Você projeto em outros vontades suas, não trabalho com isso. Ah, só um detalhe: não preciso de fama de mídia ou dinheiro. Sempre tive outras prioridades. Uma dela é não deixar gente como você, doloridinho e sabichão, ficar sem algum cutucão. Vai que de um cutucão desses consegue pensar!

  3. Rafaello
    21/03/2017 at 20:43

    Prof Ghira

    A corrida para 2018 já começou. Vai votar em quem?

    • 21/03/2017 at 23:55

      Não voto desde 1989. Votaria se pudesse haver candidato independente, sem passar pelas máfias dos partidos.

  4. Orquidéia
    20/03/2017 at 08:41

    Compartilhei, prof.
    Penso assim também a respeito!

    https://web.facebook.com/orquideia.goncalves/posts/2102804029946259

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