Go to ...

on YouTubeRSS Feed

21/10/2018

Não se pode querer “intervenção militar”? Reginaldo Prandi exerce o iluminismo de boteco.


[Texto para o público em geral]

“Há uns malucos querendo a ditadura. Eles não sabem o que querem. Nunca viram, não têm ideia do que foi a intervenção militar no país, porque não têm formação. Não sabem isso e também não sabem mais nada.” – Essa é uma frase do sociólogo com doze anos a mais que eu, Reginaldo Prandi, na Folha de S. Paulo (04/06/2018). Depois disso, segue uma entrevista pessoal sem grandes emoções. A única emoção, mesmo, é o fato dele ter estudado tanto para produzir uma frase que qualquer Fernanda Montenegro põe no Facebook. Ora, eu também devo ter posto, algum dia, algo assim no Facebook. Mas, para artigo ou entrevista pública, como algo pensado, algo de sociólogo, a frase é fraca, muito fraca. Ela mostra o não entendimento de Prandi sobre o Brasil e sobre desejos e conhecimentos de um cidadão.

Por que quem quer ditadura é maluco? Isso poder ser dito?

No mundo antigo, Alcibíades pulou de lado em guerras entre Atenas e Esparta, e ainda assim Atenas alimentou pelo general uma imagem extraordinária, esperando que ele viesse libertá-la em favor da democracia. Ora, a população inteira de Atenas era maluca por cultuar uma pessoa assim, inconstante, e que tinha traços não de democrata, mas de ditador? Não creio. Recentemente os Estados Unidos, por meio do parlamento, deram poder a Bush para quebrar regras básicas da democracia liberal, e o próprio presidente foi à TV dizer que torturar pessoas em prisão pelo método do afogamento era algo civilizado e teria de ser legal, tudo em nome da “segurança nacional”. O povo votou em Obama, mas não por reação contra isso. Situações autoritárias, regimes autoritários e pessoas ditatoriais não têm nada de maluco. São perfeitamente normais e racionais. Aliás, um pouco de leitura de Escola de Frankfurt e Prandi aprenderia que esta é uma faceta importante da racionalidade.

Por que quem pede ditadura hoje não sabe o que é regime militar ou intervenção militar? Isso é verdade? E saber o que é uma intervenção ditatorial faz com que alguém não peça outra?

Em 1964 uma boa parte da população que pediu o intervenção militar o fez tendo vivido a ditadura anterior, de Vargas. Viu todos os desmandos de 1937-45, sabia do plano Cohen, de como Vargas usou a “ameaça comunista” para dar um golpe, e essa população relativamente esclarecida, ainda assim pediu a ditadura. Só um bobo desinformado acha que “o povo” não pediu o golpe em 1964. Todos os “líderes civis” democratas pediram golpe (JK, Lacerda, Ademar de Barros etc), exceto o próprio golpeado. E mesmo quando o regime engoliu esses líderes, vários deles continuaram a apoiar o anti-comunismo do Regime Militar. Conhecer bem o que é uma situação ditatorial não faz ninguém ser um avesso ao regime de força.

Por que quem tem desinformação política e não louva os ideais da democracia liberal não está apto a dizer alçar-se cidadão? Há a posse de uma cidadania frágil em quem pede intervenção? Ora, talvez seja exatamente o oposto. Talvez quem esteja pedindo o fim das liberdades democráticas esteja exercendo o direito máximo da liberdade, que é o direito de acabar com ela. Há milhares de casos nas nossas vidas em que abdicamos de um bem exatamente para fazer com que outros não tenham esse bem. Num caso extremo, a população de Moscou queimou a cidade e fugiu para a floresta, para passar fome, só para não deixar a cidade cair nas mãos inimigas e lhes dar chances de estadia. Se há uma parte da população que acha que há liberdade demais no Brasil para certos setores nefastos (os políticos roubam, há liberdade para eles), e que seria interessante que todos perdessem a liberdade exatamente para que o grupo nefasto também perdesse, isso não faz tais pessoas incapazes de cidadania. Todos nós adotamos o mesmo procedimento diariamente. Há muita gente que não quer ter certas liberdades exatamente porque acha que essas liberdades, uma vez conquistada por outros, podem colocar em risco a sociedade.

Por esses três parágrafos últimos acima, deixo claro que o sociólogo Prandi disse uma grande bobagem. Aliás, uma bobagem típica do iluminismo barateado da sociologia militante, a sociologia de partido, a sociologia filiada a uma mentalidade politizada. É gente que imagina que o Regime Militar brasileiro censurou todo mundo, agrediu todo mundo, matou milhares etc. Essas pessoas viveram o Regime Militar em centros urbanos, em lugares de confronto ideológico, e não viram que em cada cidade do interior as eleições não foram abolidas para prefeito e vereadores, e que o Congresso Nacional era visto como funcionando normalmente. Uma boa parte da população viveu a época de inflação e a época de “milagre econômico”. Pessoas assim não desgostaram dos anos 1964-85. Sabiam que havia um Regime Militar funcionando, mas possuem, hoje, boas lembranças, de modo muito semelhante às pessoas que hoje sabem que Lula roubou e corrompeu o país todo, mas que guardam do governo dele a ideia de que podiam comprar mais coisas que agora. Viver a vida e senti-la não faz uma pessoa ser burra e sem cidadania. Prandi realmente está com problemas.

A pior parte da entrevista é aquela que ele fala da “falta de consistência ideológica do PT”. Ele queria que o PT, por consistência ideológica, soubesse o que fazer com Lula preso. Ora, mas foi por consistência ideológica que o PT gerou o Lula. Foi essa consistência que levou a cúpula inteira do PT do governo Lula na cadeia. Eles exerceram a ideologia que professavam. Eles quiseram governar o país por meio de um populismo de esquerda e prepararam o partido para agir para tal. E de fato conseguiram. Dominaram o Congresso pela força não das armas, mas do dinheiro. Veio a reação da lei, e os prendeu. O PT não se desviou de seu rumo, o PT tinha e tem um rumo a favor do socialismo que inclui o modo de fazer as coisas pelo dinheiro. Se perguntarem ao Zé Dirceu e ao Lula, a quatro paredes, sobre isso, eles vão confessar o que um Boulos diz de modo mais claro: a burguesia precisa ser derrotada e ela é derrotada ou pelas armas ou pelo dinheiro, pela corrupção. A ideia de que o adversário é bandido e que ele só entende a regra do banditismo faz de quem pensa isso, ao se relacionar com tal bandido, também uma pessoa que vai agir segundo regras do banditismo. O “mensação” foi isso. E isso levou ao “petrolão”.

O PT, exatamente como os caminhoneiros de direita, não vê mal nenhum na adoção de uma ditadurazinha do dinheiro para atingir objetivos “maiores”. O PT pensa em termos classistas como qualquer partido da transição do século XIX para o XX, e faz isso misturado ao desejo leninista de poder. Lênin, nós sabemos, queria um Congresso funcionando como “os Correios”, ou seja, sem política – tudo seria decidido como questão técnica.

Não gosto de viver sob ditadura. Nenhuma! Odeio autoritarismo. Prefiro a democracia liberal. Posso achar que um Brasil mais escolarizado poderia ter menos gente pedindo “intervenção militar” (veja o escrito da foto acima: “interveção”). Mas não sou burro a ponto de não conseguir entender quem namora soluções autoritárias, ou tentar diminuir e desqualificar tais pessoas, como estando aquém da cidadania etc. Acho que a filosofia me salva da sociologia, se é que sociologia é isso apresentado por Prandi. Deus me libre! Entre Bolsonaro e Prandi, é melhor não escolher.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Tags: , , ,

12 Responses “Não se pode querer “intervenção militar”? Reginaldo Prandi exerce o iluminismo de boteco.”

  1. LMC
    11/06/2018 at 11:17

    Aquele ex-vizinho malufista do
    PG certamente é da turma que
    pede os militares de volta e
    puxa o saco do Trump sem medo
    de ser (in)feliz.

    • 11/06/2018 at 11:56

      LMC esse é o seu problema: talvez não! Esse talvez não é que você não sabe considerar.

  2. LMC
    05/06/2018 at 13:43

    Tem tontos que acham que
    só houve ditadura militar na
    Argentina e que no Brasil
    foi um regime de exceção(???).
    Ah,estes bolsonaróides….

    • 05/06/2018 at 13:48

      LMC tem muita gente que não sentiu os tentáculos da ditadura de 64-85. Não entender isso é ser burro mais que os bolsonaroides.

  3. LMC
    05/06/2018 at 12:51

    Os mesmos que querem a
    volta dos militares no Brasil,
    puxam o saco do Trump
    por aqui.É o PDT,Partido da
    Direita Trumpiana.

    • 05/06/2018 at 12:53

      LMC o PDT não é um partido. É uma legenda de aluguel. Foi criado por um homem que desde o início aceitou o jogo da legenda de aluguel, Brizola

  4. LMC
    05/06/2018 at 11:42

    A declaração do Reginaldo Prandi
    que o PG publicou é um recado
    aos malufistas de ontem e os
    bolsonaristas de hoje.

  5. Matheus
    04/06/2018 at 19:30

    Compartilhemo os textos do Ghiraldelli e sempre ouço um grande silêncio. Espero que seja de gnt q leu e resolveu pensar sobre…

    Mas temo q a realidade seja outra: “de novo esse mesmo filósofo? Esse cara só lê esse blog? Nem vou ler… ” Complementado por um ” ele é meio de esquerda, MAS (? – Interrogação minha) liberal, e ainda por cima critica o PT, mas nem é da linha psolista ou PSTU, ou outros…”

    Espero q meu temor esteja redondamente errado

    Mas a responsabilidade não é minha!

    E obrigado, prof. Paulo por suas aulas em forma de texto!

    • 04/06/2018 at 23:08

      Matheus, eu não escrevo para gente que tem “posição política”, que é de partido, ou gente que acha que devemos ter posição política. Meu leitor é exatamente o cara curioso, que acha que todo dia aprende. Você pegou o espírito.

  6. Tony Bocão
    04/06/2018 at 16:37

    Pensava nos Jacobinos ao ler este texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *