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29/03/2017

Werner Sombart e a mulher no comando do capitalismo


O capitalismo dependeu do luxo. Essa é a tese de Werner Sombart (1863-1941). A ideia do refinamento da vida veio do Renascimento para os tempos modernos, e gerou uma produção de luxos de todos os tipos, criando então o comércio e a indústria, bem com a exploração das colônias, de uma maneira inimaginável. Antes o gasto que a poupança – eis aí o espírito do luxo como espírito do capitalismo, antes que qualquer espírito religioso.

A tese é discutível, claro. Mas no interior do que ela apresenta, há partes que não poderiam ter caído em silêncio como caíram. Uma delas é a de como o capitalismo se desenvolveu a partir da batuta da mulher, e não propriamente de algo mais geral ou masculino. Sombart coloca as coisas em duas etapas. Num primeiro momento há a secularização do amor seguido da época de uma liberalização das relações entre sexos, especialmente nas cidades italianas na linha de Veneza. As célebres cortesãs dão o tom para todas as mulheres, inclusive para as casadas. Introduzem o consumo do que é feminino – de adornos a casas especiais, perfumes, comidas, estudo e banho. Mais tarde, já num segundo momento, na situação pós Renascimento, as mulheres aristocratas, nobres ou da burguesia togada, dão ritmo de estilos a todas as classes sociais. Casas suntuosas, vestidos de todo tipo, apetrechos de entretenimento e de asseio, mil e um empregados e, enfim, bangalôs enormes para o amor no campo a fim de ampliar o erotismo são a regra básica de todas as grandes cidades da Europa.

O detalhe de Sombart, então, diz tudo para a sua pesquisa. Em determinada parte de Luxo e capitalismo, escrito bem no início do século XX, ele lembra das primeiras experiência de se servir o café, então algo do luxo. Foi na corte de Luis XIV. Um pouco antes, as mulheres haviam introduzido o uso do açúcar, e daí então todo o refinamento de quitutes se fez presente nas casas, de modo a tornar todo e qualquer momento doce. O açúcar era servido nas casas de aristocratas e de burgueses ricos, e até mesmo de burgueses não ricos, em formas de animais ou objetos. E com aconselhamento médico. O festival do açúcar deu o tom para o serviço do café, cacau e chá. Essas práticas de consumo provocaram, do outro lado do mundo, a venda de escravos aos milhares, movendo todo tipo de empreendimento que se fez no leito do capitalismo, inclusive o desenvolvimento da marinha, do militarismo e da ampliação de colonização. A mulher dominou todo esse processo ao colocar em sua casa espelhos, ao ampliar seu toalete, ao manter sua casa como um lugar tão luxuoso quanto a casa das grandes meretrizes e cortesãs, de modo a fazer maridos e amantes ficarem o mais tempo possível no interior. Essa suavização da vida, feita sob o controle direto da mulher, do açúcar e da sensualidade, foram o centro real do desenvolvimento capitalista. Tudo o mais se revolucionou a partir daí, do mercado suave a partir da sensualização da vida, imposta pelo modo como a mulher veio a dar o tom para o mundo. O capitalismo se fez sob regra feminina.

Então, nesse ritmo, tudo que saia das mãos do homem era para encantar e engrandecer mulheres, num percurso de luxo e sensualidade sem fim. A cada nova descoberta de perfume, de nova indumentária, de tecido exótico, de apetrecho do toalete, de tinturas e de invenções de conforto, mais a concubina, não raro mostrada abertamente ao lado do camarote da esposa, tinha de parecer atraente. Assim também se incentivava a esposa às práticas do requinte. Uma tal competição elevava os gastos com o luxo a níveis inimagináveis. Madame Pompadour forneceu estilo, vida, modos e derrubou de vez tudo que tinha à sua frente ao dar continuidade ao estilo rococó vencedor. Os homens da corte se tornaram imitações do que as mulheres fizeram com elas mesmas. Até nas perucas!

Hotéis, restaurantes, Teatros enormes e gigantescos bangalôs – tudo isso se fez em Paris e Londres ao redor do maior dos entretenimentos: a elegância da mulher. Sem ela, nada disso seria pensável. Em nome de suas ordens que implicavam no seu erotismo é que as coisas andaram como andaram. Nenhuma economia do luxo sem a mulher, e nenhuma economia capitalista sem a economia do luxo – Sombart deu esse tom à sua narrativa. Vale a pena ser recuperada, se quisermos compreender melhor o “espírito do capitalismo” para além das teses da Internacional Miserabilista, bem denunciadas por Peter Sloterdijk em seu volume III do projeto das Esferas.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo: 06/12/2016

Gravura: Portrait of a lady with a parrot by Rosalba Carriera,1730

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5 Responses “Werner Sombart e a mulher no comando do capitalismo”

  1. Eduardo
    11/12/2016 at 21:10

    Uma dúvida. No terceiro parágrafo é citado o ano de 1870 como do reinado de Luis XIV. Isso está correto?

  2. viadinho
    06/12/2016 at 21:58

    Amei o texto.

  3. C. L. Santos
    06/12/2016 at 21:48

    Da hora, curti esse artigo.
    Me fez lembrar que o grosso das pessoas só sabe falar em: ‘capitalismo e patricarcalismo’, como se as mulheres nunca tivessem e não tem papel de agentes históricas. A influência delas sem dúvida é de um peso super relevante na história do capitalismo.
    Só militontos que acreditam que a mulher ‘nada fez e nada faz’ nesse sistema econômico.
    Ler um artigo sem ideologia, é outros quinhentos! 😀

    • C. L. Santos
      06/12/2016 at 21:50

      <>

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo