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18/11/2017

Ao contrário do que as feministas pensam, a mulher criou o capitalismo!


Os sociólogos marxistas sempre disseram que o capitalismo tinha a ver com a expansão marítima e a ampliação dos mercados e, enfim, com o nascimento da “burguesia”, a classe social criada pelos habitantes do burgo que ficaram proprietários dos meios de produção diante dos “proletários”, sem esses meios. Os sociólogos weberianos e, enfim, o próprio Weber, enfatizou que o capitalismo viria de um motor espiritual, ou seja, a “ética protestante”, afinada com a indústria, comércio e o dinheiro a juros, tudo que pudesse mostrar o enriquecimento como marca da prosperidade e, por isso, sinal de escolha de Deus. Ora, por sua vez, Werner Sombart, amigo de Weber, teve uma ideia diferente a respeito do desenvolvimento do capitalismo. Para ele, tratava-se do desejo pelo luxo, em especial por conta do gosto e liberdade das mulheres.

Assim, se pudéssemos resumir de forma selvagem, diríamos: para Marx o capitalismo veio do mar, para Weber ele veio de Deus e, enfim, para Sombart, ele não teria existido da maneira qu ocorreu sem as raparigas de vida (aparentemente) fácil.

A tese de Sombart ficou soterrada entre as duas outras, mais famosas. Isso ocorreu por razões diversas, inclusive por conta da trajetória política deste (um certo apoio ao partido nazista, em seu início). Mas essa sua tese nada tem de tola, muito ao contrário.

Sombart mostra em seu livro Luxo e capitalismo (1913) a mudança de vida das mulheres nas cidades célebres que levaram adiante o Renascimento italiano, especialmente Veneza. Ali as cortesãs deram o estílo e o espírito para todas as outras mulheres. Ampliaram o gosto pelo refinamento em termos de estudo e material para “cama, mesa e banho”. As mulheres criaram o luxo em diversos sentidos: do consumo obrigatório do açuçar passando pela ampliação da leitura, mercado editorial, sofisticação e diversificação da vestimenta, fabricação de casas de campo e da cidade com níveis diferentes de conforto e luxo. Sombart escreve: “gótico rima com erótico, mas só nas palavras, não no clima”. O clima para o amor era o campestre, o bangalô, a casa de campo, a casa burguesa com divisões, o perfume, as geléias, os sapatos, as roupas íntimas mais leves, o saneamento básico, a arregimentação de espaços aristocráticos mais abertos e menos ligados ao castelo medieval e às pequenas cortes.  Mais tarde, as amantes quiseram se precaver de doenças – e se tornaram ou exclusivas, aumentando em número, e/ou reclamando da importação de ervas medicinais das colônias e de apetrechos sofisticados de banheiro em suas casas.

Todos os “homens de bem” tiveram amantes poderosas, que buscaram transformar suas casas em lugares atrativos, capazes de segurarem ali, por mais tempo, seus homens. Logo essas mulheres começaram a fazer com que as próprias esposas de seus amantes tomassem banho e mudassem de vida. Elas erotizaram a Europa burguesa. A ideia de uma vida mais sensual (materialista, digamos), que atingiu até mesmo o papado, acumulador então de um gosto pelo recolhimento de objetos de variadas origens, mudou tudo na Europa, ampliando nas colônias a escravidão, a plantation e toda uma política de busca e ampliação de mercados – e aí sim o termo “capitalismo” ganhou o sentido que conhecemos.

Assim, das cortesãs às “mulheres de família”, o capitalismo nasceu, para Sombart, do império da liberdade da mulher e de sua imposição de seu gosto aos setores urbanos, “burgueses”, da velha Europa. Mar e Deus fizeram a sua parte, mas as putas e depois todas as mulheres é que deram a substância para o capitalismo. Sem elas, sem a liberdade que adquiriram no Renascimento, o gosto pelo luxo não teria nunca movimentado como movimentou a Europa toda. Elas deram ao mar os aventureiros e a Deus os devotos, todos suando sangue para fazer do mundo um lugar à altura de suas damas. Sombart coloca isso em números, e de maneira convincente!

Para mim, Sombart mostra, indiretamente, que a tese feminista do “patriarcado opressor”, ligada ao capitalismo, se fosse algo realmente a ser levado a sério como um eixo histórico central, criaria um paradoxo. Sabemos bem que não foi pela opressão que o capitalismo se desenvolveu,  e isso Foucault explicou bem. Na verdade, foi pela ampliação da liberdade em todos os sentidos é que nasceu a “era do mercado”. Liberdade, sim, e não só do homem em relação à terra feudal, mas liberdade da mulher em relação a tudo, tornando-se imperadora da vida sob sofisticação, que não tardou ser trazida até mesmo para a América. No Novo Mundo as mulheres, inicialmente, calvagavam, rezavam e cuidavam dos filhos. Mas em pouco tempo as americanas já estavam se comportando como italianas e francesas, metendo medo nas inglesas por conta do comportamento liberal.

A história de luxo pró-capitalismo contada por Sombart é um dado a mais no tabuleiro da explicação a respeito da modernidade. Um dado que certamente, sendo a favor da mulher, se coloca como pedra no sapato das feministas e fanáticas de “estudos de gênero”, adeptas da “hipótese repressora” que Foucault estraçalhou.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo é professor aposentado da UFRRJ de professor voluntário da Faculdade Paulo VI de filosofia e teologia, em Mogi das Cruzes.

Sobre a foto da estátua e sua relação com o açúcar, ver aqui!

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