Go to ...

on YouTubeRSS Feed

14/12/2017

“Meu negrinho”


O título está aspado. Não é frase minha. É uma frase típica dos Estados Unidos. Negros às vezes dizem isso a outros negros, em lugares nada saudáveis. É uma forma de falar “você é meu, agora”, “meu serviçal”.

A frase remete à escravidão. Aqui no Brasil ela não aparece. Mas há frases com conotação parecida. Ouvi uma: “nosso negrinho”, “negrinho do DEM”. Vi dirigentes do DEM dizendo isso. Tomaram-me por petista por escrever contando isso. Não sou! E meus artigos a favor da Janaína Paschoal mostram bem isso. Aliás, sou adversário do petismo e de qualquer “ismo” que tenha a ver com dogmatismo e roubalhismo. O meu texto de título “O negrinho do DEM” dizia respeito ao negro que não quer lutar pelos negros, mas quer deixar de ser negro.

Existe isso? Sim, existe, e muito. Mas há também outro tipo, aquele que se sente ofendido com a política de cotas, porque ele acha que é “esmola do estado” e uma forma de diminui-lo. Todavia,  pensar assim é uma forma de considerar as coisas de modo alheio ao conceito de política de cotas.

A política de cotas étnicas não é para resolver problema educacional. Se fosse, seria um engodo. Quem a toma assim, não entendeu nada. Também não tem a ver com “resgate histórico”,  ou “indenização”, pois se assim fosse, seria um escárnio. A escravidão é irreparável. Também não tem a ver com ajuda a fulano de tal, pois não é uma política para indivíduos. A política de cotas é uma politica de aceleração de ocupação de espaços. Ela reconhece o preconceito existente, sabe que mesmo que exista escola boa pública e gratuita para todos, em diversos níveis, o negro terá mais dificuldade de nela ficar por razões não de competência dele, mas de preconceito de outros. Então, a cota visa acelerar a oportunidade e convivência do negro com o branco, ela é uma forma de dar ao branco o privilégio de conviver com a cultura negra, e inclusive conviver com negros magoados pelo preconceito. Nos Estados Unidos ela funcionou. Foi graças às cotas que o conflito racial americano que vemos agora está em níveis suportáveis, não mais como nos anos setenta. É uma política datada, e não deve ser tomada por nenhum negro como uma diminuição, pois não é obrigatória: quem quer aceitá-la pode aceitá-la, quem não quer pode simplesmente não utilizá-la e ainda dizer depois: não sou fruto de cota. Há muitos negros que dizem: não usei das cotas, mas as apoio. Entendem o conceito.

Mas, toda essa minha escrita, vista pelos conservadores, é estranha. E vista por negros conservadores, então, gera raiva. É que eles pensam que a esquerda quer enquadrá-los a aceitar a política de esquerda. Mas não é bem assim. Há nos Estados Unidos gente no Partido Republicano que defende cotas. O fazem porque sabem que a integração precisa caminhar rápido. O fazem porque sabem que não devemos estranhar um médico negro ou um presidente negro, que a cor negra sendo vista vai gerando o costume, o não estranhamento, e o não estranhamento é um passo para o fim do preconceito. Um passo importante. Nem sempre a esquerda entendeu isso. Nem sempre os conservadores entenderam isso. A necessidade americana os fez entender. Aqui no Brasil também, cada vez mais esquerda (e espero que um dia, também a  direita) começa a entender isso. Os que não entendem, não raro, não possuem ideia melhor para diminuir o preconceito. Volto a dizer: dar escola pública e gratuita boa para todos é dever do estado, uma vez que o estado exige que todos entrem para a escola. Ora, mas já tivemos escola pública boa e gratuita e o negro ficou de fora dela. Isso aconteceu nos anos 50 e início dos anos 60. Ficou de fora por conta do preconceito velado. Muitos negros, hoje, não entendem isso. Não percebem que a cota não é de direita ou de esquerda, mas uma ideia, talvez não a melhor, para ampliar o número de negros em lugares que eles têm o direito de estar, mas não estão. Essa é uma política de combate ao racismo e ao preconceito racial. É uma política com marca registrada do sucesso. Onde parece que ela não deu certo, é por conta de não se notar como o lugar funcionava antes dela.

O negro que quer ser branco, ou seja, o negro que pensa que entrando para lugares em que ele é falsamente bem vindo, ou é usado como bibelô, pode escapar de suas marcas, corre de um lado para o outro, e então é tratado como “o negrinho do DEM”. Foge da esquerda para não ter de usar das cotas, pois pensa que assim seria tachado de vagabundo, e cai na boca do lobo, onde é tomado como fantoche para dar cara social aos programa dos netos de escravocratas. Ora, então, o que fazer?

Eu tive irmã negra, Berenice. Ela foi a única a se formar na Escola Normal, no tempo dela. Naquela época, jamais pensaríamos em cotas. Ela conseguiu o feito por ela, mas não só. Meu avô era branco, advogado respeitado, e estava na sua retaguarda. Se alguém fizesse cara feia para a Berenice, sabia que iria enfrentar uma força poderosa. E meu pai, branco, era o diretor da Escola. Berenice não sofreu bullying por isso. Mas ela sabia bem, e como sabia, que outros em outros lugares não tinham a mesma retaguarda. Ela sabia o que era o preconceito. Ela talvez tivesse ficado assustada com a política de cotas, se aplicada a ela, mas ela, por tudo que conversávamos, tenho certeza, seria favorável às cotas étnicas como política geral, como política capaz de fazer o país de maioria negra ter mais negros em mais lugares de forma rápida.

O drama de cada negro é que ele se coloca diante da cota para ele. Então, ele, se não tiver a compreensão exata do papel das cotas, pode achar que estão lhe dando um trança pés. Mas não. Fizemos cotas para mulheres nos partidos. Fizemos cotas para filhos de fazendeiros para cursos de Agronomia (por lei) sabiam? Fizemos cotas boas e cotas ruins. Temos cotas veladas para brancos nos cursos de medicina, conseguem entender isso?

Os negros não deveriam ter raiva de mim por eu escrever verdades. Deveriam perceber que o “o negrinho do DEM” imagina resolver problemas sociais étnicos por mágica, e muitas vezes num pacto entre ele e o neto do senhor de escravos, de modo que há uma suja troca de favores aí: um negro apoiando um partido conservador, para desqualificar outros negros que apoiaram partidos mais à esquerda. Isso não é boa política. Um negro que não quer a cota para ele, não precisa usá-la. Pode deixar publicamente claro que não vai usá-la, agora, achar que a política de cotas é racista é não entender o conceito que expliquei. Temos que pensar para além de nós. Um exemplo ameno, mas que dá ideia do que quero falar sobre política compensatória. Imagine que eu, que não sou alto, por orgulho individual tolo, viesse a recusar a linha dos três metros no basquete, que me favorece. Claro que não. A linha apareceu não para me deixar vagabundo ou vitorioso antes da hora, mas sim para tornar o jogo mais bonito, mais competitivo. Não me sinto diminuído por ter num jogo algo que me dá alguns elementos de aparente vantagem, pois não tenho vergonha de ser baixo e, então, contar no jogo com um elemento que me ajuda. Ou seja, não tenho problema em ser baixo. Mutatis mutandis é assim que o negro, individualmente, aquele que não tem nada contra si mesmo, pode pensar das cotas. Agora, se há problema consigo mesmo, diante do espelho, então, abre-se o alçapão que pega “negrinho do DEM”. Infelizmente.

Paulo Ghiraldelli Jr. 59, filósofo. São Paulo, 27, 08/2016

PS: os que aparecem no meu blog para me xingar, em alguns casos, eu fico feliz, pois percebo que ficaram incomodados e vão, depois, pensar sobre o assunto. E esse é o papel meu, de filósofo, incomodar o cérebro alheio.

Tags: , , , ,

7 Responses ““Meu negrinho””

  1. Jéssica
    29/07/2017 at 20:35

    Professor, que texto excelente. Sempre aprendo muito sobre política de cotas com o senhor, que consegue expressar de forma muito didática algo que já sei, mas sobre o qual não saberia escrever tão bem. Parabéns!

  2. Petrônio Gonçalves
    04/09/2016 at 15:27

    O mais importante é aquilo que vc falou, a convivência entre as diferentes culturas. Mesmo antigamente, no Brasil antigo e das fazendas, havia a convivência, por mais que havia muita hierarquia. Hoje já não há convivência mais, o filho do burguês vive em guetos, nos condomínios fechados. É preciso voltar aquele Brasil das mesclagens de culturas, onde todos conviviam com todos, aprendiamos a fazer comidas, a rezar para uma Nossa Senhora e para um Orixá, e assim por diante.

    • 04/09/2016 at 18:22

      Petrônio, sim. Isso e´verdade e por isso ocorreu o “movimento dos moço pardos”.

  3. renato
    30/08/2016 at 11:23

    qual é essa lei do filho de fazendeiro?

    • 30/08/2016 at 11:28

      Durante o governo Vargas, e durou bastante, inclusive funcionou na UFRRJ.

  4. Gay enrustido
    27/08/2016 at 16:58

    Pretinho do DEM

    • 27/08/2016 at 17:00

      Gay, isso é camiseta, “pretinho básico”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *