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22/07/2017

Marianne: a desconhecida das feministas


A ONU cedeu de maneira tola às cartas de um público bastante circunscrito, que reclamou da organização por esta ter escolhido a Mulher Maravilha como a sua figura símbolo para as mulheres. Os protestos vieram principalmente de feministas. A objeção foi quanto aos seios grandes da atual Mulher Maravilha, responsáveis por uma “exagerada  sensualidade”. A ONU deveria ter ponderado melhor, mas cedeu de modo tão inculto quanto ao conteúdo das mensagens de protesto. Isso me fez recordar um episódio inverso, também relacionado a campanhas cívicas.

Richard Sennett em seu livro Carne e pedra (Record, 2006) reconta o interessante episódio da consagração da figura alegórica “Marianne” como símbolo da Revolução Francesa e da República. Mesmos as mulheres ligadas aos projetos da Revolução concordavam que o símbolo desta deveria ser a figura de um homem, proprietário do gênero humano, mas a população contrariou os intelectuais. Espontaneamente a figura de Marianne – a junção de dois nomes comuns na França – foi se pondo em todos os lugares, representando o novo regime e, em especial, a liberdade. Em 1792 o pintor revolucionário Clement desenhou-a com os seios nus, titulando o quadro com as palavras “França republicana, abrindo seu peito a todos os franceses”. A figura de Marianne ocupou mesmo, em determinados lugares, o posto que até então era dado à Virgem Maria. Claro que, no Iluminismo, como bem lembrar Sennett, os seios à mostra não traziam à mente a zona erógena, mas sim virtudes, abertura para o dever e o aleitamento. O corpo de jovem mãe de Marianne foi o único símbolo de unificação para um país em pedaços.

Diz Sennett: “os seios intumescentes de Marianne sugeriam que a concórdia era uma experiência corporal sensível. Um panfleto contemporâneo dizia que ‘o mamilo não flui livremente atpé que sinta os lábios de um bebê esfomeado; da mesma forma, a dedicação dos guardiães da pátria não pode dispensar o beijo do povo; é o leite incorruptível da Revolução que dá vida ao povo”. (p. 240). O linguajar traz beijo, seio e alimento. Os três – elementos típicos do campo feminino – estão no imaginário da construção da nova França, uma república e a inauguração de uma democracia.

Também a Mulher Maravilha veio de alguma coisa mais ou menos espontânea para a ONU, mas caiu sob a censura dos que, emergindo da Revolução Francesa, como as feministas, ultimamente mais traem que apoiam os ideais desse grande evento fundador da modernidade.

A Mulher Maravilha não tem seios amamentadores. Mas é um tanto forçado vê-la com seios exclusivamente representando zonas erógenas. Os seios grandes da Mulher Maravilha, a cada dia, ao menos nas HQs, tem a ver com a sua masculinização ou, melhor dizendo, com a androgenia geral que acolhe os personagens atuais. Ninguém mais sabe, atualmente, se a Mulher Maravilha tem mais ou menos “seio” que Hulk ou Capitão América. E se Thor soltar os cabelos, uma vez de torso nu, só não seria a Mulher Maravilha por ser loiro. A virilidade está em baixa, todos sabemos. Então, se os super-heróis ainda precisam manter alguma coisa que os faça corporalmente heróis, que essa virilidade seja remodelada para ocupar os dois sexos. A ampliação dos músculos não é sinal de virilidade, mas de volume espacial, de distinção quanto ao mortal comum. No desenho, isso significa dar 9 e meia cabeças para o corpo do super herói enquanto que o homem comum não passa de oito cabeças. No imaginário, isso significa a adoção de um “porte”, mas não necessariamente de força bruta.

O problema com as feministas que não deixaram a Mulher Maravilha reinar como uma nova Marianne, uma nova princesa da liberdade, expõe o tamanho do fosso no qual não só o feminismo vem caindo, mas, de certo modo, uma boa parte das lideranças de movimentos de minorias. Quanto mais se fala em estudos de gênero e estudos étnicos na Academia, menos o correlato disso nos movimentos sociais melhora em termos de sofisticação intelectual. Ao contrário, pioram!

Os estudos de gênero se tornaram responsáveis por vulgatas ridículas. Na maior parte são estudos pseudo-sociológicos que, igual ao marxismo vulgar do passado, que via no “capitalismo” um sinônimo de causa para tudo, elegeu agora a “sociedade patriarcal” como o novo nome do diabo. Tudo se explica pela “sociedade patriarcal machista”. Ninguém mais suporta um tal cliché. Mas as pesquisadoras de estudos de gênero continuam aferradas a Mal Único que, obviamente, não explica nada, e junto disso não ajudam em nada o feminismo na sua crescente incultura e na sua proliferação de preconceitos. Achar que a Mulher Maravilha deveria ter menos seio  para poder ser símbolo das mulheres na ONU é alguma coisa que deixariam os franceses do tempo de Marianne boquiabertos. Eles não entenderiam nada.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 15/10/2017

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5 Responses “Marianne: a desconhecida das feministas”

  1. Thiago ricardo
    18/01/2017 at 18:46

    Quando as feministas atuais mostram os seios, eles estão pichados. Não podem ser fonte de alimento, nem de prazer nem de força. A feminista quer se rabiscar para dar ao seio um sentido que está totalmente confuso, para ela. Então elas só estão na negaçao da Marianne e da Maravilha.

    P.s. legal, Paulo, que você está trazendo mais o Sennet.

  2. Leonardo
    16/01/2017 at 20:36

    Talvez a reclamação seja porque a Mulher
    Maravilha esteja dentro dos “padrões de beleza”.

    • 17/01/2017 at 09:26

      Ha ha ha Leo, a mulher Maravilha não está dentro de “padrões de beleza”, ela é um monstro.

  3. Bradamante
    16/01/2017 at 06:38

    A maioria das feministas são, infelizmente, semiletradas, não lêem nada e só estão preocupadas em reproduzir chavões em 140 caracteres.

  4. Orquidéia
    15/01/2017 at 15:31

    Hã…
    …o jeito é elegerem a boneca Emília do Monteiro Lobato como nossa “figura símbolo” da emancipação feminina.
    [ hã…

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