Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

22/09/2017

O erro de Gilles Lipovetsky sobre a moda


Uma das teses de Lipovetsky sobre a moda, em um livro seu recente, Da Leveza (Grasset et Fasquelle, 2015; Edições 70, 2016), diz que a nossa relação com a moda se tornou mais adulta, justamente porque não a levamos mais tão a sério. Não a tomamos como algo que realmente importa no jogo das hierarquias sociais, como já foi o caso até muito pouco tempo. Ele sintetiza numa frase: “que mulher sente ainda as dentadas da inveja à vista de um vestido de noite usado por outra mulher?” Para ele, isso não interrompe a ditadura da aparência, que sai do âmbito do vestuário e vai para o corpo, como imposição da magreza com padrão. (pp. 182-3).

Não gosto de expressões como “ditadura da moda” ou “ditadura de padrão de beleza” ou “ditadura da mídia” ou coisa parecida. Clichés são horríveis. Não dá para engolir, mesmo sabendo que sempre virão se abrirmos um texto de sociologia. Todavia, tento passar por cima disso para ficar só com a tese, que na verdade é dupla: a moda sai de moda, enquanto vestuário, e a questão da cobrança da aparência vai para o corpo.

Ora, será mesmo que estamos fora do clima do Antigo Regime, depois herdado pelos tempos burgueses, em que a etiqueta era o maior trunfo? Isto é, será mesmo que o vestuário saiu de cena como localizador social, fixador da visibilidade da hierarquia e sinalizador do status? Não creio. O que ocorreu foi que tudo isso ficou muito mais sútil. Sutilezas são captadas por intelectuais sutis. Não deu para Lipovetsky!

Ele diz que todos hoje se vestem como ‘jovens’, e isso é mais ou menos verdade, mas o que ele não viu é que as vestimentas denotam antes tribos urbanas que classes, e que quando denotam classes, isso se faz de uma maneira mais sofisticada: a vestimenta parece igual para todos, mas não é. Há a griffe e hjá o que não é “de griffe”. E por mais que os setores populares possam encontrar na Rua 25 de Março a chamada “roupa de marca”, que é como o pobre entende o que ele precisa comprar para se parecer com o rico que, afinal, ele conhece apenas das novelas de TV,  então mais o setores mais ricos já ou estão vestindo outra coisa ou vestindo algo parecido, mas parecido só aos olhos do pobre. A novela da TV não entra de fato na casa dos embaixadores. Nesse âmbito, todas as regras do embate entre aristocracia e nobreza togada ainda estão presentes.

Por outro lado, acreditar que hoje a questão da moda, do recorte do que devemos vestir, passou para a vestimenta chamada pele e carne, e não mais para o tecido, é fazer uma distinção demasiado forte, e ilusória, a respeito da casca. Somos pele, carne, foto, filme, tecido, cor. Essas máscaras se sobrepõem faz tempo. A visão de Baudelaire falando da necessidade do cosmético, nos tempos burgueses clássicos, não se dissipou, ao contrário, cresceu de importância. Maquiagem, roupa, adornos, pele e carne estão fundidos em um só conjunto. Tudo é vestimenta. Somos uma intimidade vestida e, agora, uma intimidade rasa cada vez mais necessariamente vestida. Tanto faz se é com bronzeador, creme de clareamento anal ou blusa com a foto da Madonna. Trata-se de uma capa, muito mais necessária agora, quando a nossa subjetividade se tornou pouco substanciosa. Estamos muito finos, precisamos de capas.

Vivemos uma época em que remédios antidepressivos sustentam a existência do sujeito mais que filosofia engolida e mais que dizer-se psicanalisado; nossa intimidade torna-se aberta demais, devassável, leve e ao mesmo tempo supérflua. Se queremos ainda existir, temos de recuperar algum peso, algo que nos fala merecer uma ontologia. Que se ponha um vestuário sobre tal manequim leve ou transparente demais. Achar que roupa é algo e pele é outra é ridículo nesse caso. Ambas cumprem a função de vestuário, o bordado da roupa e a tatuagem do corpo se intercambiam, mas nenhum elimina o outro. Todos somos tatuados e todos continuamos a dar muita importância para o visual da moda. A diversificação da moda não significa a perda da sua importância na tarefa de dizer o que somos para nós mesmos e para nossos amigos.

Numa sociedade completamente visual como a nossa, regrada pelo higienismo, pelo clean style, pela arquitetura que forma as espumas de Sloterdijk, a leveza do mundo pede novos pesos dentro da leveza, e estes não são rupturas com velhos pesos. Temos de repor a gravidade em novos níveis. Nossas diferenças diante do que diz o lema da Revolução Francesa – igualdade, fraternidade e liberdade – continua passando pela moda. E isso está longe de desaparecer, mesmo que você veja, um dia, numa cerimônia luxuosa de elites, alguns de jeans. O problema será qual jeans e qual caimento.  Nesse caso, também, quem assinou.

Paulo Ghiraldelli, 59. São Paulo, 16/09/2016

Foto: Salma Hayek com bolsa do momento

 

Tags: , , ,

6 Responses “O erro de Gilles Lipovetsky sobre a moda”

  1. Marcelo Santos
    19/09/2016 at 02:46

    “Admirável Mundo Novo”, eu recomendo Ghiraldelli

    • 19/09/2016 at 07:15

      Marcelo, nem pensar, nada a ver mesmo meu caro. Leia de novo meu texto.

  2. Alan
    18/09/2016 at 17:11

    Paulo, qual sua avaliação sobre o Lipovetsky? São leituras recomendáveis?

    • 18/09/2016 at 18:34

      Para ficar sabendo, mas a superficialidade e a tese central, dispensável. Não chega a ser o lixo do Baumann.

  3. João Neto
    17/09/2016 at 07:45

    Muito bom final de semana para ti, Paulo e… saude!
    Esses rótulos ou clichés, como preferes (ditadura de alguma coisa por ex) e os hábitos de agrupar coisas e conceitos metendo tudo num só saco e rotulando-os parecem um passo largo para o erro, e com passos largo frequentemente as calças rasgam-se, não é?
    Não basta a chance de se errar no conceito e no pensamento (e que se erre na falseabilidade!) perde-se ainda a noção das pequenas diferenças, perde-se a sutileza e frequentemente torna-se um bronco imaginando-se um iluminado, é a criança que coloca a roupa do rei adulto e vai para o espelho.
    Pequeno à parte:
    Como se ao verem alguem como eu com uma bola de basquete nas mãos fosse a mesma coisa que ver o Michael Jordan, ou uma pintura vendida na praça de alimentaçao de um shopping fosse a mesma coisa que a obra-prima de um pintor exposta no Louvre.
    Voltando ao tema:
    “Com que roupa eu vou” ainda é uma questão a ser colocada e já agora também são “com que pele eu vou”, “com que cheiro ou sem cheiro eu vou” e até mesmo em que práticas e com quais gestos nos expressamos e tentamos envolver e dar peso e significado à subjetividade que está lá por baixo.
    Estiveste bem ao dizer: “na tarefa de dizer o que somos para nós mesmos e para nossos amigos”.
    Abraços e continua ai que eu me delicio aqui com teus pensamentos.
    Beba água.
    J

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *