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24/04/2017

A juventude: obra da eletricidade, do petróleo e do demônio


Zygmunt Bauman diz: “tempos líquidos, nada é feito para durar”. Bauman não sabe o que é algo chamado capitalismo. Tudo é feito para durar com data exata para acabar. Chamamos isso de obsolescência programada. Não significa pouca duração, significa duração calculada.

Nessa modernidade que vivemos, também a vida humana foi repensada em períodos de obsolescência. Principalmente após o movimento social e cultural ter inventado fases psicológicas e de desenvolvimento. No século XVIII inventamos a infância (Rousseau à frente), no início do século XX inventamos a juventude (com Baden-Powell à frente). A invenção da infância nos deu nova indústria, a de roupas e arquitetura próprias para a existência de crianças, nos deu também uma ciência nova, a puericultura, e junto disso um mundo rico em comércio de doutrinas pedagógicas. A criação da juventude nos deu uma visão de como fazer política de modo diferente. Baden Powell criou o escotismo, e a partir daí os “movimentos de juventude” passaram a ser comuns. Antes da II Guerra Mundial surgiram com força a “juventude fascista”, a “juventude nazista”, a “juventude comunista”. Quando nos anos 50 os americanos também entraram nessa, geraram a “juventude rebelde” (James Dean à frente). Nos anos 60 o conceito de juventude se ampliou, mas se pensarmos nas facetas autoritárias do que saiu de Maio de 68, podemos imaginar o quanto a “juventude comunista” e a “juventude fascista” haviam vingado na  consciência coletiva. Os lobinhos de Baden Powell tinham vindo para ficar.

A infância foi gerada pela filosofia e pelo comércio. Mas a juventude foi gerada pelo militarismo, pela eletricidade e pelo petróleo. Só o motor a explosão e o corredor de elétrons fez sobrar tempo livre no mundo para que o homem viesse a obedecer Nietzsche e seguir o “torna-te o que tu és”. O homem surgiu na terra por neotenia, e assim seguiu, sempre buscando ampliar sua juvenilidade. Mas só com o tempo livre pôde realmente criar algo chamado juventude. Hoje, tendemos a expandir isso, gerar uma data de obsolescência maior para o período. Mas a política ligada ao conceito ainda permanece rígida, com esteriótipos, com maniqueísmos de todo tipo e, enfim, como um combate sorrateiro ao lema do Kant do “pensar por si mesmo”. Nada invoca mais o “pensar por si mesmo” que a juventude, e nenhum outro grupo mente tanto sob o signo desse slogan. Juventude, nós sabemos bem, é quase que sinônimo de bando de papagaios. Eis aí quem jamais pensa por si mesmo!

O Brasil de hoje continua nessa toadinha da imitação do século XX. Juventude ainda é palavra usada. Ainda tem conotação positiva. Ocupa-se escolas sem ter qualquer razão possível de ser explicada pelas próprias maritacas invasoras. Outras maritacas de fora gritam contra, se acham menos estúpidas, mas apenas também repetem o que adultos matreiros, com interesses pouco nobres, os ensinam. Uns dizem que leem Marx, mas não sabem o que significa direito a sigla PEC, que combatem. Outros dizem que leem Moses, mas mesmo que lessem, de que adiantaria? Moses é lá algo mais que um publicista? Juventude: o reino hormonal dos que não sabem ser felizes. Quem é gente e sabe gente não é jovem, não aceita o rótulo.

Infância e juventude aqui são, claro, noções, divisas, até conceitos. São palavras. A guerra semântica que as criou também é uma guerra de petróleo, do motor, uma guerra da luz, que veio junto com a guerra semântica e com a guerra-guerra, mesmo! As “palavras e as coisas”, uma relação diante da qual toda filosofia tenta encontrar um elo, tem seu elo efetivo nessa busca do homem de ser homem, de fazer vingar, mais e mais, os processos avançados pelos quais a espécie incorporou e a ainda incorpora a juvenilidade individual. Somos os únicos seres que nascem sempre de aborto, e somos os únicos que morrem aprendendo. Ou seja, no limite, somos maldosamente programados vir ao mundo inacabados e para nunca acabar. Somos os únicos seres feitos com obsolescência programada que busca ser programada para o infinito. Somos os idólatras da juvenilização e, portanto, presas fáceis da semântica que nos deu a “juventude”. Essa é nossa desgraça, pois há algo de auto-engano demoníaco em ser jovem.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo 29/10/2016

Baden Powell:

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4 Responses “A juventude: obra da eletricidade, do petróleo e do demônio”

  1. Orquidéia
    30/10/2016 at 08:53

    Sou interessada em astrologia,e interpreto algumas passagens pelos astros.
    Só se chega a adultez no retorno de Saturno. [aos vinte e nove anos]
    Ele é o planeta do tempo e dos amadurecimentos mais vagarosos.
    Antes disso, muito do que se sabe é “do que se ouviu falar”.
    Mesmo amores considerados definitivos, podem morrer ou se transformar,na fase “realmente” adulta.

    • 30/10/2016 at 09:37

      Orquídea, Platão dizia que filosofia só poderia ser desenvolvida após os 30, um ano a mais.

    • graysson alex mendes
      06/11/2016 at 17:27

      Causa, efeito, razões…

  2. Matheus Tudor
    29/10/2016 at 17:19

    O problema é que hoje a juventude vai até os trinta anos. Eu sempre disse que pretendo chegar aos trinta inteligente. Eu tento. É um pouco ousado, mas dá. Também já comentei com um amigo que antes dos trinta anos a gente deveria ficar mais preocupado em no que não devemos ser, no que não devemos fazer e o tipo de pessoa que não queremos nos tornar, fazendo nossa formação de estudos e experiências para isso. O mundo é complexo demais, a tradição cultural é gigante e percorre caminhos sinuosos para o futuro, sendo pretensão demais achar que dá para lidar bem, feito “gente grande”, com um mundo desses: basta Atlas soltar o céu pra criançada chamar o papai. Só depois desse período seria prudente adotar uma agenda positiva. Lendo seu texto percebo que, no fim, só se é gente depois dos trinta – o que explica muita coisa.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo