Go to ...

on YouTubeRSS Feed

14/12/2017

Homens afeminados e lógica do entretenimento – isso é Olimpíada


Para entendermos o mundo antigo temos de entender as Olimpíadas. Mutatis mutandis compreender as Olimpíadas atuais é um passo decisivo para entendermos nossa modernidade. 

Há características fundamentais das Olimpíadas atuais que são o retrato de nosso tempo, e isso sem juízo de valor. Os homens estão cada vez mais próximos das mulheres em aparência e vice-versa. A masculinidade perdeu a rudeza, a feminilidade ganhou força. Posturas e gestos dos atletas e sua relação com o corpo, inclusive com o sexo, mostram o que toda a sociedade se já não é, vai ser. Como disse o filósofo alemão Peter Sloterdijk, atletas se tornaram todos hermafroditas.

A bravura bélica que se encerra na postura máscula tradicional perde para a atitude competitiva solícita dos jogos que são feitos por uma época de paz. O capitalismo impôs uma época de paz. O mercado precisa de conciliação, pois vive de adversários, não de inimigos. Não se pode eliminar o adversário no mercado, pois ele também é consumidor. Essa regra fez Marx falar na “missão civilizadora do capital”, e que agora desponta com sintoma visível no esporte, já completamente sem amadores, com todos profissionais – mas profissionais do entretenimento, não mais do desporto. E se o entretenimento torna-se o que pauta as atividades modernas, então, naturalmente, o esporte é feito para a beleza da mídia e a mídia exige que certa homogeneização se faça espontaneamente, e a isso se chamará de beleza. Homens e mulheres vão então se robotizando e aderindo às feições cibernéticas assexuadas, produzidas por altas doses de mimo e sacrifício e, enfim, prontas para o consumo imagético. Num mundo em que o trabalho só existe como divertimento e vice versa, tudo é esporte e este passa a ser o principal show da vida, ou a própria vida.

Uma  sociedade do entretenimento em uma época tecnológica e de centralidade na mídia, tem suas particularidades. O lúdico especial dá o tom. Somos uma sociedade do vídeo game. Que o ataque ao Afeganistação seja um vídeo game – tanto no treino quanto no real – e que os jogos Olímpicos também sejam assim, que tanto a guerra quanto a paz sejam parecidas na características leva do entretenimento, é próprio de uma disposição de um mundo imagético em que o mais importante é o cultivo de heróis, mas também de heróis sem heroísmo. Um feito olímpico traz tanta atenção quanto um feito sem façanha, de alguém que é curtido na Internet por não dizer nada. Os autores sem obra se multiplicam. Um falsário posando de filósofo pode jogar Pokemon como atividade filosófica. Alguém que não compete, um astro do futebol masculino, pode aparecer mais que uma mulher que joga realmente bem. A rede da imagem falsa e vazia se confunde com a imagem com conteúdo. Tudo é entretenimento. A imagem da mídia é a mídia da imagem. Nessa hora, o tal “o meio é a mensagem” ou o “o meio é a massagem” retornam com força.

A compreensão dessa transformação dos contextos e do conteúdo dos Jogos Olímpicos nos dá o entendimento do capitalismo atual e da modernidade. É uma época em que podemos ser generosos, pois temos zonas amplas de abundância em tudo, mas, ao mesmo tempo, uma época em que nossa empatia às vezes não tem tempo de se fixar. Seremos generosos com Marta, que realmente é melhor e mais importante que o mercenário Neymar? Seremos generosos e solidários com a delegação dos refugiados? Ou já somos levados a idolatrar outra coisa? Essa pressa pode atrapalhar. Pois o entretenimento na substituição do trabalho, associado ao ritmo moderno de como o entretenimento virou trabalho e produto vendável, tem dado um tom alucinante para nossa vida. Nossa empatia, pronta para aumentar, se dilui.

Nesse ritmo o entretenimento com vida conforma corpos, fazendo todos se parecerem; conforma mentes, fazendo todos aderirem a um senso comum básico. Permite a diferença, claro, contanto que seja uma diferença própria daquela do Palácio de Cristal, aquele contra o qual não se pode mostrar a língua, dizia Dostoyevsky.

Se soubermos olhar para as Olimpíadas com olhos críticos, saberemos compreender a modernidade. Caso só pudermos cair de joelhos, como os midiagogos pedem, vai ficar mais difícil.

Paulo Ghiraldelli Jr, 58, filósofo. São Paulo, 07/08/2016

Tags: , , ,

5 Responses “Homens afeminados e lógica do entretenimento – isso é Olimpíada”

  1. 26/08/2016 at 20:53

    Interessante.

  2. Homero
    16/08/2016 at 16:41

    Paulo, você poderia me indicar livros – eu, estudante de direito e leigo em filosofia – que falem sobre essa característica moderna de conformar, homogeneização e generosidade?

    • 16/08/2016 at 16:54

      A últimas coisas do Peter Sloterdijk: este tem baratinho para baixar na Amazon: Sloterdijk, P. Fiscalidad voluntaria y responsabilidad ciudadana. Madri: Siruela, 2014.

  3. lucas
    08/08/2016 at 14:26

    bela visão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *