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18/11/2018

Fora do futebol, a sociologia não faz sentido para o brasileiro


[Artigo para o público em geral]

Casa Grande, Galvão Bueno e Ronaldinho completaram uma das melhores pesquisas de sociologia que conheço. E deram aulas sobre tal pesquisa. Durante vários dias, na TV, eles se referiram ao Brasil-Futebol como uma tradição coletiva histórica. E foram entendidos por todos que viram a TV, e isso ocorreu mesmo com aquelas pessoas que, sabemos bem, têm uma dificuldade imensa com conceitos históricos. Os três falaram do “modo brasileiro de jogar futebol”, do “estilo de jogo do Brasil”, do “costume do Brasil ao enfrentar pressão” etc. Para eles, e para todos que os viram e ouviram, o Brasil foi entendido como sendo nação, ou seja, um grupo que acumula cultura não por indivíduos, mas por um fio condutor comum de hábitos, costumes, imaginário, iconografia, sotaques dentro do idioma e movimentos corporais – em suma, história. Agora acabou.

Agora que acabou, o Brasil deixa de ser o Brasil. Ou melhor, voltamos a ser um país, mas a nação se perde. Voltamos ao cotidiano sem sociologia. O texto sociológico perde sentido. Ou seja, cada brasileiro é um, alguém que quando se responsabiliza, assim age só pelo que faz, acreditando que não aprendeu nada com usos, costumes, hábitos, religião, educação que formam o povo brasileiro. Não existe mais o ethos, voltamos ao individualismo do mores. Sai a ética e no máximo sobra a moral. O brasileiro volta a achar que caiu nesse país aqui, quando bebezinho, por conta de uma cegonha bêbada.

No modo de pensar sem os ensinamentos — nesse aspecto corretos — de Galvão, Ronaldinho e Casa Grande, cada brasileiro de hoje não tem nenhuma dívida para com o povo negro por conta da escravidão e do posterior preconceito contra negros; cada brasileiro não tem nenhuma responsabilidade com a pobreza do Paraguai que emergiu após a guerra contra a Tríplice Aliança; cada brasileiro não tem nenhuma dívida para quem foi perseguido e morto na Ditadura Militar (1964-1985); cada brasileiro não quer nem saber da história da nossa democracia ou da escola pública ou até mesmo da tradição do samba no Rio e do Trevo no Norte-Nordeste; nenhum brasileiro individualmente comemora a vitória dos Pracinhas na Segunda Guerra Mundial. Quem é seu pai cultural? Quem é sua mãe cultural? Ah, não temos, afinal, como ter pai e mãe se caímos do saco da cegonha bêbada? No Brasil há muita gente que não sabe nem quem é pai e mãe biológicos, imagina então lhes falar em “pátria mãe”.

Somos capazes de entender que cada jogador brasileiro que está jogando hoje deve seu estilo e capacidade a jogadores do passado que ele não conheceu e sequer viu jogar. Somos capazes de entender que estamos perdendo no futebol, já há algum tempo, por conta de falha na tradição, na própria quebra da correia de transmissão da cultura futebolística. Mas não somos capazes de entender essa mesma situação quando se trata de qualquer outro fenômeno que nós, como povo e cultura, criamos e provocamos. Se um jogador brasileiro é cobrado como bom driblador agressivo, o fazemos porque faz parte da tradição da “Seleção do Brasil” ser dribladora e agressiva. Mas se alguém quer colocar cotas nas universidades para que o negro, ausente delas pelas dificuldades geradas pelo passado e presente gerados por nós coletivamente, aí ninguém quer reconhecer que o preconceito faz parte de tais dificuldades, que está na nossa tradição. Somos um povo no futebol, somos indivíduos isolados e sem vínculos culturais em tudo o resto. Quem fez a escravidão já morreu – assim pensamos. Quem fez a seleção de futebol não! Tanto é assim que a música soube reconhecer isso louvando as Copas, desde 58. Notaram?

No futebol entendemos o passado, a cultura, a tradição, e de como essa construção coletiva se incorpora em cada um de nós no que fazemos hoje, mesmo que cada um de nós não tenha sabido de onde incorporou aquilo que incorporou e pense que suas características são só suas. Mas fora do futebol, a palavra “herança”, quando referente à cultura, parece não fazer sentido. Cada um de nós acredita, quando Galvão, Casa Grande e Ronaldinho não estão presentes, que tudo que fazemos é invenção de cada um, de cada indivíduo, que cada responsabilidade é de cada um, e que qualquer coisa do passado não tem a ver conosco. E isso em acertos e desacertos! Fora da conversa dos três sociólogos na Globo – nesse sentido agindo corretamente – não somos um povo, não entendemos o significado da palavra ética como derivada de ethos, e então nos atomizamos. Isso é significativo: quando os coxinhas quiseram ser patriotas, vestiram camisetas de CBF com o distintivo corrupto da FIFA. Não tinham outra referência para o sentimento de nação senão aquilo que Galvão, Casa Grande e Ronaldinho têm ensinado. Alguns disseram: coxinhas burros. Sim, burros, mas outros grupos teriam outras referências para dizer “Brasil”? Duvido!

Um país assim, que já não toma vacina porque não tem escola pública, pode viver com o seu passado e saber que é este passado que nos constrói, inclusive individualmente? Não. Nesse ritmo, vamos piorar – em tudo. Se até no futebol fomos derrotados, imagine no resto, onde nem sabemos o que somos.

No Brasil há sociologia para os jovens pela TV, mas só quando há futebol.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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14 Responses “Fora do futebol, a sociologia não faz sentido para o brasileiro”

  1. Pedro Possebon
    03/08/2018 at 16:59

    Minha amiga na federal, a Midori, estava me contando como tinha vergonha das coisas horríveis que os japoneses fizeram durante a Segunda Guerra. Eu fiquei encucado com isso, por que cazzo ela sentia vergonha do que um pessoal fez lá longe há mais de setenta e cinco anos? Nesse momento eu fui meio brasileiro…

  2. LMC
    10/07/2018 at 11:18

    Sim,mas Nelson Rodrigues já
    trabalhou na Globo,como estes
    três que estão na foto.Mas o
    Mauro Cezar Pereira e Juca
    Kfouri fazem jornalismo
    esportivo,e não entretenimento.

    • 10/07/2018 at 11:37

      Eu acho que você NÃO entendeu o texto. Meu texto não é sobre os cronistas.

  3. TiagoIM
    09/07/2018 at 12:51

    O nome certo dele é na verdade escrito “Casagrande”.

  4. 07/07/2018 at 20:56

    Professor, acho que entendi… só não concordo. Pobre da nação que a sociologia precisa de Galvão, Casagrande e Ronaldo. Nélson Rodrigues está dando reviravoltas no caixão.

    • 07/07/2018 at 23:16

      Acho que você novamente não entendeu nada. E o pior foi a referência ao Nelson, esse sim, um pulha.

  5. 07/07/2018 at 19:18

    Se me permite o professor, dentro e fora do futebol, a sociologia, psicologia, filosofia não existe para o brasileiro.
    Vivemos uma democracia guiada na qual cada brasileiro precisa de um Freud para chamar de seu. Nélson Rodrigues referiu-se a estes preclaros comentaristas de TV e rádio (ele se referia aos do futebol, entretanto, avanço sobre outras editorias) como preferidores de coices e relinchos.

    • 07/07/2018 at 19:27

      Evandro, acho que você não entendeu. Eu fiz um elogio aos trio da Globo. Eles estão certos. Eles falam do futebol como tendo elo de herança cultural, para além das individualidades temporais finitas. Estão corretos. Funcionam dentro do que a sociologia ensina.

  6. bony
    07/07/2018 at 16:08

    Nao existe, seja no Brasil ou em Harvard, um texto mais profundo do que esse em termos de Brazilian Studies. No Brasil, a miseria eh essa ai: no futebol fomos derrotados, imagina no resto. Em Harvard: meninos com tendencia ao alcoolismo tentando virar self made men hahha

  7. bony
    07/07/2018 at 14:48

    Minhas perguntas nada tem a ver com seu texto, que eh muito bom. Apenas que sou um…bastardo.

  8. bony
    07/07/2018 at 14:44

    Hoje estou inspirado. Se nao foi uma cegonha bebada, pq o brasileiro caiu aqui?

  9. bony
    07/07/2018 at 14:42

    Li sua Historia da Filosofia. Platao nao era um democrata. Pq nos temos que ser? Somos mais espertos que Platao. Isto eh apenas uma tentativa de entender.

    • 07/07/2018 at 15:56

      Platão não era um democrata. Bom, mas ela viveu num mundo em que ser feliz não implicava em ser democrata. No nosso mundo moderno ou se é democrata liberal ou se tem a impressão de que não se é feliz jamais. E essa impressão é tão forte que até eu, que a denuncio, amo a democracia para ser feliz.

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