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22/09/2017

Feministas sofrendo nas garras de Marcela Temer. Ou: identidade e representação


Para Marisa Neres

Há um feminismo que nos salvou de ficarmos sem saber o que é a mulher. Talvez sem ele ainda estivéssemos como Freud, falando de mulher de modo tateante, nas escuras. Esse feminismo praticamente criou a mulher, inventou a mulher. Ele estava no desenho do que Nietzsche falou; e no jogo de afirmação e negação deste, acabou se fazendo, ao menos em primeira parte. A outra parte veio por conta da militância por direitos iguais e uma última pelo modo como Simone de Beauvoir pintou a mulher através da sua frase célebre (o tornar-se mulher), que dizia da mulher como construção social, ou seja, como peça de gênero, não só de genitálias.

Mas há um outro feminismo que nasceu na ideia já da transformação do movimento social feminista em matéria acadêmica de “estudos de gênero”. O que era para ser estudo, virou justamente o não estudo. Esse feminismo criou a ideia de busca de identidade e caiu na armadilha da representação. O que é isso?

O desenho da psicologia que é feito a nosso respeito, pessoas da modernidade e do mundo contemporâneo, é o de um “bípede sem penas e de unhas chatas”, dotado de razão e paixão. Foi para o espaço a terceira parte da alma, que existia no desenho psicológico dos antigos: o thymos. Nele estava o orgulho, a ira, a coragem, o ímpeto, a fúria, o cuidado. Tudo que se precisava para a identidade estava no thymos. Era a parte mediana da alma (de Platão), o local da nobreza de postura e sentimentos. Batia-se no peito para dizer do orgulho de criar, ser, cuidar, e eis aí o que dava a identidade. O mundo moderno, ou seja, o mundo burguês, não podia ter nada de nobre, portanto, nada de orgulho. Este, então, perdeu a força, minguou, e o máximo de sobrevivência que conseguiu foi o de ficar como algo atrelado às coisas. O orgulho foi para a profissão, afazeres, empresas nas quais trabalhamos ou instituições nas quais ganhamos (ou perdemos) a vida, e em vários casos, para movimentos sociais. O feminismo faz parte dessa modernidade: o orgulho dado para cada mulher não por ela ser mulher (como quiser), mas por vestir a roupa de mulher tecida pelo feminismo. Criou-se então, para algumas mulheres, a identidade vinda de fora, claro, mas bem específica. E eis então que foi criado o uniforme de feminista ou, como elas feministas se pensam,  o uniforme oficial de mulher.

Quando o orgulho é sentimento pessoal, há a apresentação da identidade pessoal. Quando o orgulho não existe mais e vem de fora, há a representação. Nesse caso, então, surge o problema da feminista (e de vários outros que se deixam envolver por identidade dada por movimentos sociais): as mulheres feministas precisam de modelos de representação do que são como mulheres, precisam de uma identidade imposta (mas que acham que é escolhida por elas), e precisam combater identidades que elas acham que foram impostas. Algumas mulheres mantém a força timótica mesmo não tendo no desenho de sua psicologia o thymos. Apresentam-se. Não buscam representações ou representantes. Jamais dizem: “não me sinto representada por fulana de tal”. São mulheres que não estão nem aí com representação, pois para serem mulheres apenas se apresentam como mulheres. Outras não, ficam buscando o que representa a mulher e o que não, e iniciam patrulhas ideológicas que caçam modelos e autorizam modelos. Buscam o pequeno orgulho vindo de fora, o dado pela representação, pelo modelo. E eis aí o drama da feminista diante do Modelo Marcela Temer.

Marcela é suave, e esposa do Presidente. Se não bastasse isso, se deixa levar pelo “bela, recatada e do lar”. Milhares de mulheres não estão nem aí com Marcela. Ela é linda e ela é “bela, recatada e do lar” de modo que Michel Temer seja feliz, afinal, ele gosta do jeito dela. Ela gosta de ser assim. Vivem bem, tudo indica. Viver bem com sua família, seu homem etc. é o que as mulheres querem, o que todos nós, não militantes, queremos. Elas, mulheres assim, comuns, se apresentam, não precisam de representação para saberem quem são. A feminista não. Ela busca representação, busca saber quem é, busca saber de onde deve pegar o orgulho e, então, fazer sua identidade. Marcela Temer é tomada como um modelo; um modelo a ser negado. Eis aí que o feminismo se enrola na sua própria ideologia. Inventa um inimigo, pois ele parece querer dar um modelo, e este é inalcançável para certas mulheres que não tem o seu próprio modo de ser. Aparece a tal da “sociedade patriarcal, capitalista, machista muito má e perversa”, que as feministas enxergam em todo lugar, que elas inventam que está enfiando Marcela goela abaixo como modelo para todas as mulheres. Mas só as feministas estão preocupadas com modelos. As outras mulheres tem a si mesmas como modelos.

As mulheres comuns, não militantes e muito menos scholars de gênero (contradição em termos), não acham que Marcela é modelo, apenas a acham linda. As feministas é que acham que ela é modelo. Pois elas não têm orgulho próprio, ganham orgulho e identidade da representação, do elemento de fora, do que tomam como modelo, e buscam negar este modelo que acham que é ideológico. O Modelo Marcela tem garras para judiar de feministas. Mas Marcela não é modelo, não está como modelo, apenas é a primeira dama, referência para revistas, fotos, programas de TV etc. Toda primeira dama é assim. Ser fotografado e apreciado não torna ninguém modelo a ser seguido. Os homens não estão nem aí com o atores lindos da TV. Nem as mulheres com as mulheres da TV. Copiar roupa ou cabelo não é tomar o outro como modelo. Mas as feministas, que não têm orgulho próprio, não tem identidade própria, buscam ter identidade de feminista, de algo vindo de fora, no caso, o movimento social feminista ou o movimento de scholars de gênero. Isso é feito em contraposição ao que elas tomam como o modelo contrário, a beleza de Marcela Temer, a postura dela de esposa, dama, enfim, primeira dama.

O resultado que se tem dessa operação é este que vemos: grupos de mulheres feministas ou scholars de gênero, reduzidos, não raro ridicularizados na sociedade. Não é a regra, esta, aplicável para toda pessoa que se diz feminista ou estudiosa, mas é o caso da maior parte. Pois o problema não é o problema do feminismo, mas o problema do desenho de alma, da psicologia que se adotou na modernidade. O problema é o da morte do thymos nesse desenho.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 22/10/2016

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8 Responses “Feministas sofrendo nas garras de Marcela Temer. Ou: identidade e representação”

  1. Juliana Figueiredo
    26/10/2016 at 10:34

    Eu como mulher doutora (fiz doutorado), cheirosa, arrumada, trabalho fora e também sou do lar, entendo perfeitamente a luta das feministas e a crítica à Marcelo Temer. Ela pode ser o que quiser sim, mas como primeira dama e figura pública, representanda um retrocesso para as lutas feministas, isto é indubitável.

    • 26/10/2016 at 11:10

      Juliana só o fato de achar que é doutora porque fez doutorado explica tudo. Baixa estima! Um advogado ou médico é doutor, minha cara, pois doutor é pronome de tratamento também. Agora, seu doutorado não ajudou você a entender o artigo, a questão da representação.

  2. Antonio Marc all
    23/10/2016 at 16:12

    Marcela Temer, é autêntica, carismática, bela, recatada e do lar, em fim, uma grande primeira dama!

  3. Jean mildred
    23/10/2016 at 16:07

    Texto maravilhoso, perfeito. Quem é,e, não precisa copiar ninguém, nem tão pouco criticar. Sempre fui independente, sem nunca perder o meu lado doce. Portanto,Marcela e Marcela, que continue assim, bela recatada e do lar, se isto a faz Feliz.

  4. Maria Joaquina
    23/10/2016 at 13:46

    Ah, neste subdesenvolvido país chamado Brasil, ser mulher, linda, mãe, com curso superior e seus acessórios, cheirosa, vaidosa e, digamos, rica, bem casada, ex- miss, delicada, bem penteada, bem vestida é considerado ser antifeministas. Tem que ser mulher lixo para ser feminista, de grelo duro e petista ou bem falsa comunista. Ah, pobre Brasil!! Salvem as brasileiras de tanta e tamanha perseguição…

  5. GRAZIELA CURY
    23/10/2016 at 12:14

    Adorei o texto. É exatamente como eu sempre pensei.

  6. Manuela Manegad
    22/10/2016 at 23:12

    Grata pela excelente reflexão! Gostaria que todos lessem de coração e mente abertos!

    • 23/10/2016 at 08:11

      Manuela, não é fácil falar com feminista malucona.

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