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21/11/2018

De Sofia no Manicômio à cura gay


[Artigo para o público em geral]

Pedir a um romano um arrependimento por atos que um cristão acha cruel é uma grande bobagem. Ben Hur ficou sabendo disso a dura penas. Ao vencer o oponente na corrida de bigas, foi pedir desculpas a ele, pelo destino cruel que lhe infringiu, mas o romano, seu ex-amigo de infância, revidou dizendo que ele próprio já, antes da corrida, havia posto a mãe de Ben Hur no leprosário, para garantir uma vitória final. Vale, antes de tudo, na cultura romana, o grande ethos dos fortes, mensurado pelo vencer.

Sabemos bem que o não arrependimento é cultural, está nas estirpes nobres. Nem precisamos ler Nietzsche para aprender tal coisa. Sendo assim, perguntar para Sofia (último capítulo de “O outro lado do Paraíso”) se ela se arrepende de seus crimes e, vendo que não, tomá-la não só como criminosa mas doente, pode ser algo facilmente contestado historicamente.

Por que alguém é doente se não se arrepende? Não faz sentido. Dizer: trata-se de uma má pessoa – isso já não basta?

Não ceder ao cristianismo de nossos tempos é uma patologia? Besteira. Então, em que sentido é possível, ainda assim, levar Sofia para o Manicômio Judiciário e não a uma simples prisão? Aqui, sai de lado a psiquiatria pura e entra, novamente, mais o direito e a sociologia – por uma breve momento. Somos obrigados a colocar culturalmente um nível de crueldade e de não arrependimento que extrapola o que a própria lei pode julgar. O direito se sente impotente, pois a sociologia cultural o desmente. Então a psiquiatria é chamada de volta, como uma bengala: vamos colocar níveis de não-arrependimento. A partir de um tipo de não arrependimento, é necessário ultrapassar a barreira que declara um caso como não só crime, mas patológico. Aparece aí o fundamento para a interdição permanente – e não a simples prisão que, em suma, poderia ir se atenuando com o tempo. Que se note a palavra: fundamento!

O romano que afronta Ben Hur, após perder a corrida de biga, não entenderia a lei moderna, mas menos ainda a criação de uma instituição que declararia ele próprio, por querer vencer a qualquer preço – pois é a derrota a desonra – mais que um criminoso, mas um doente.

Mudamos de quadro, mas ainda permanecendo em tema da novela: homossexualidade não se encaixa mais no quadro das patologias.

Apesar de todos nós sabermos que temos que fincar pé na tese de que homossexualidade não é doença – pois acreditamos (nós, liberais) que isso nos leva a um mundo melhor -, não podemos de modo algum não perceber que, quando ela era doença, assim ocorria por critérios que, hoje, dizemos que um cruel que não se arrepende é doente. Se não temos claro isso, perdemos a dimensão a respeito de como construímos nossos parâmetros de legitimidade, e deixamos de ser críticos. Se deixamos de ser críticos, perdemos a chance de saber que a luta pelo que queremos como uma sociedade melhor é uma luta semântica, que implica a construção ou não de instituições que adquirem poder de falar a língua da legitimidade de uma época.

Esse é o drama nosso na nossa modernidade que, por definição, é uma época de contínua mudança. Temos de “dar e pedir razões”. Estabelecer fundamentos. Mesmo que, agora, saibamos muito bem que “fundamento”, aqui, é uma palavra bem mais fraca do que os próprios psiquiatras  que julgaram Sofia acreditam.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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2 Responses “De Sofia no Manicômio à cura gay”

  1. Hilquias Honório
    12/05/2018 at 18:06

    A Filosofia desbanalizando o banal! Agora, sei que não foi esse o assunto do texto, mas a reta final da novela foi bem sem noção.
    Hahaha.

    • 12/05/2018 at 18:11

      Foi mal dirigida desde a metade. A partir da entrada do Patrick.

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