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20/11/2018

Como não entender narrativas históricas. O modo Safatle de não entender.


[Artigo escrito para o público acadêmico]

Há uma história que não sabe procurar responsáveis, só culpados. Ela até ajuda, às vezes, o pensamento crítico, todavia, quando impregna a cabeça dos professores exageradamente, transforma-os antes em policiais que em verdadeiros pesquisadores. São absorvidos não por uma visão moral, mas por um moralismo de perseguição que rapidamente cria narrativas que já não honram nada no campo da filosofia e da ciência, mas apenas alimentam ideologia.

Essa história pode se envolver com uma antropologia e gerar um sociologia ou um pensamento social que antes produz gemidos, até grunhidos, mas nenhum explicação que não tenha calças curtas. O leitor desse tipo de história não entende nenhuma trama sem a invocação de demônio. A sociologia desse tipo de professor é antes peça de má teologia que qualquer outra coisa. Tudo vira obra da Maldade.

O exemplo que posso dar disso, omais recente que vi, é o artigo de Wladimir Safatle na Folha de S. Paulo, falando do livro Crítica da razão negra, de Achille Mbembe. Não quero falar do livro, mas do próprio artigo que o comenta. Safatle não consegue entender que a “racialização”, a desvalorização do negro e a tomada do negro como não humano é um produto histórico social em um sentido efetivo, sem manipulação. Ele toma uma tal coisa à moda de uma teoria da conspiração. Ele vê nisso não explicação de uma época, mas justificação adrede preparada – necessária para tal e tal coisa etc. Ele não consegue separar o que é feito por conta da credulidade das pessoas e o que é feito como algo que não está baseado em credulidade, mas em má intenção. Ele acha que a tomada do negro africano como não-gente não vem de uma antropologia, mas sim de alguma coisa que é construída para poder subjugar o negro. Ou seja, se é uma antropologia, teria de ser chamada de “antropologia”.

Trata-se de uma leitura infantil, que o livro analisado até pode deixar transparecer, mas que fica acentuado mesmo é no artigo de Safatle.

É interessante notar que isso se deve ao não entendimento de Foucault. Este, foi o filósofo que retirou intencionalidade da história. Foucault era suficientemente estruturalista (ou pós-estruturalista, como se diz nos Estados Unidos), para tirar da história a função de um sujeito que põe intencionalmente tudo em movimento. Mas Safatle não conseguiu entender Foucault e fez da biopolítica um procedimento de criar estratégias de justificação. Veja a frase dele: “A raça é uma tecnologia de governo que organiza populações, define possibilidades de circulação espacial de sujeitos, justifica processos de exploração e sujeição de saberes.” “Tecnologia de governo” é um termo de inspiração foucaultiana, mas do modo que Safatle o utiliza, ainda que ele venha de Foucault, serve apenas para dizer o que Foucault não queria dizer. Uma “tecnologia de governo”, da maneira que Foucault a vê, é algo impessoal que se cria como elemento honesto, verificável segundo o saber de uma época, e que não se produz como ideologia. Pode até ser acusado de ideológico a posteriori. Mas, no ato de sua produção, é realmente um saber. Quando os europeus se encontraram com povos não europeus, eles realmente duvidaram a respeito de se esses habitantes de outras terras terem alma e até mesmo alguma inteligência para além da inteligência animal. Filósofos, homens de ciência, padres, juristas e outros buscaram investigar uma tal coisa, e começaram a pensar de modo novo na noção de raça. O “negro” não foi construído para justificar ou enganar. É justamente o contrário: “o negro” foi se construindo como elemento incômodo que passou a obrigar, em poucos anos, muitos pesquisadores a contestar o conceito de homem que se tinha até então.

Mas a narrativa histórica assim posta não entra na cabeça de Safatle, porque ele absorveu um marxismo que desqualificou Marx. Ele absorveu uma maneira de pensar a história em que tudo funciona segundo “golpes”. A história é um “golpe”. É um “golpe” do capitalismo, é um “golpe” da burguesia, é um “golpe” dos brancos, é um “golpe” da tecnologia de governo etc. É isso que eu chamo de história ou sociologia que não vê responsáveis, apenas culpados. Tudo vira história sem enredo se o enredo não simplório e descreve um “golpe”. Há um moralismo destoante de Foucault e, de certa maneira, também de Marx, nesse modo de pensar – se é que isso pode ser chamado de pensamento. Há um moralismo, nisso, que sempre fez Nietzsche rir muito, e nos fazer rir.

Falei de Safatle, mas poderia falar de uma série de outros professores marxistas. Alguns deles, nos anos 80 – Marilena Chauí à frente – davam aulas com um sorriso de canto de boca, como se estivessem contando aos alunos segredos das tramoias da burguesia, da ideologia, do capitalismo ou qualquer outra entidade capaz de ocupar o lugar do demônio, ou ser expressão dele. Nos anos oitenta, eu era jovem mas não criança; quanto a essa gente que usava o sorrisinho, e eu já gargalhava deles. Era ridículo aquilo. Já era ridículo naquela época, agora nem isso é, é uma bobagem descomunal.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Professor aposentado da UFRRJ e autor, entre outros, de Dez lições sobre Sloterdijk (Vozes, 2018)

Gravura: African Woman in Yellow Blanket by Carol Chen Poun Joe

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4 Responses “Como não entender narrativas históricas. O modo Safatle de não entender.”

  1. LMC
    23/04/2018 at 11:13

    Não compare aos policiais,PG.Eles,
    em sua maioria trabalham melhor
    que certos filósofos-colunistas que
    tem por aí.

  2. Thiago
    21/04/2018 at 13:18

    Boa, Bruno. O Podre Constitutivo estaria para Durkheim, assim como o Pecado original está para o Cristianismo. Dado ao fanatismo que a esquerda atual, majoritária e naftalina agrega e prega, eu acho que está mais pra metafísica reversa mesmo. Pensando bem, a esquerda atual me parece montar cena o tempo todo de filmes B com argumento a la Apocalipse zumbi: quando o humano morre, resta apenas a centelha do podre constitutivo para assombrar a vida das sempre poucas pessoas de bem, restritas mais ainda àquelas sábias e iluminadas que “realmente sabem” o que está acontecendo e põem os outros para trabalhar pra elas como forma de compensação e proteção, em prol de um bem maior que nunca ninguém sabe qual é.

  3. Bruno
    21/04/2018 at 01:33

    Contam a História como se cada Ideia, saber ou evento tivesse uma espécie de cinismo na sua constituição, como se tivesse um “podre constitutivo” a ser desencoberto. São as pseudo-pesquisas pseudo-marxistas.

    • 21/04/2018 at 07:40

      BRUNO, EXATO, É ISSO. Boa esta de ‘podre constitutivo’

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