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22/09/2017

A chacina de Campinas e seus pirilampos


Vi feministas criando problema com a divulgação da carta do assassino de Campinas, o autor da chacina horrenda da virada do ano. Nietzsche era contra o feminismo, entre outras coisas, por causa dele ser a negação do amor fati. O amor fati não é resignação. Isso é a leitura que talvez Weber tenha feito dele. O amor fati é o amor ao que ocorre por conta da nossa coragem de viver mil vezes o que ocorre, fazendo valer a tese cosmológico-moral do Eterno Retorno.

Tudo que ocorre no mundo não pode ocorrer, para as feministas atuais, se não acontecer do modo que elas autorizam. Deus deve consultar as feministas para deixar o barco correr, e o mesmo tem que fazer a imprensa. Assim é com a chacina de Campinas. Não pode acontecer e, depois, não pode ser noticiada. Hitler também tinha essas vontades, de dar ordens ao universo. Virou moda agora vanguardinhas de grupos minoritários deixarem sua busca de direitos para se embrenharem na brincadeira de censura ao Cosmos. Não é que não acreditam em anjos, é que não querem que anjos toquem trombetas! É pior.

Se um terrorista ataca, poderíamos te-lo feito parar. Há uma política que pode diminuir a eficácia do terrorismo. Se um garoto ataca colegas na escola, atirando em todo mundo, há sim como pensar em evitar uma segunda tentativa. Há políticas de diminuição da venda de arma fácil. Mas se uma pessoa solitária, com perturbação mental, no Brasil, mata um monte de gente – na imitação do que nós dizemos que só ocorre na América – e deixa ainda uma carta pronta para o sucesso na imprensa, as chances de não deixar isso ocorrer são um zero. Caso o fenômeno vire uma epidemia americana, pode-se pensar em providências. Mas evitar de liberar a carta é censura tola, que não ajuda em nada.

Ninguém pode deixar de conhecer a carta do assassino campineiro. Ela é uma biografia de leitura obrigatória. Tem a ver com os desejos da personagem da bela e talentosa Kate Winslet no filme The Reader: limpar o mundo. Tem a ver com os desejos do personagem de De Niro no célebre Taxi Driver: limpar o mundo é limpá-lo moralmente.Morte às vadias ” é um lema bem parecido com os que colecionei em meu livro Filosofia política para educadores (Manole), em um artigo sobre o programa Big Brother Brasil. Neste texto, mostro que a mentalidade da carta do assassino de Campinas está embutida em inúmeros brasileiros com ódio da “sujeira das heróis da Globo”. “Vagabundos sarados”, “Herói é quem trabalha”, “ladrões igual ao governo”, “pessoas que devem morrer”, “lixos humanos”, “leio um bom livro, jamais vejo aquela bosta do Bial”, “BBB deveria ser proibido”, “as mulheres do BBB são todas putas de luxo”. “Vadias do mundo, uni-vos, e eu as trancarei numa igreja, na qual porei fogo”. A mesma ideia do fazendeiros que não querem tirar a cana já colhida, mas apenas atear fogo em tudo, estragando a terra e criando problema ecológico. O fogo limpa. Ele consome não só o corpo, mas alma. Por isso as bruxas devem ser queimadas. A água lava, por isso o vômito precisa de água. Mas, fundamentalmente, o revólver fura e faz doer, e que as vadias, as putas, as corruptas, possam sentir a dor da perfuração, já que adoram ser perfuradas por um pênis grande, o qual invejo. Assim funciona esse mecanismo mental da raça que foi requisitada por Hitler para a SS, e mesmo para muitos do partido bolchevique. Ele é patológico, claro. Realiza-se como assassinato, em alguns. Não vem de um plano, estratégia ou política. Vem abruptamente, da fontes do demônio, da genética torta, da criação maluca. De um sociedade com hierarquias rurais diante da entrada do urbano. De um mundo que o filme A fita branca tentou explicar.

A sociedade democrático-liberal tem a mídia para falar disso e de muito mais. As cartas de assassinos podem vender jornal e podem fazer o mestre Datena ficar mais tempo faturando e dando comida aos seus rebentos. Mas eliminar isso para que nossa estufa, nosso Palácio de Cristal, nossa Nova York de Natal, nossa URSS mãe do socialismo, sejam todos paraísos na Terra, é fazer com que o plano de Hitler vença o plano de Deus. No plano de Deus as coisas acontecem, boas e más, e os homens falam delas para aprender come elas. No plano de Hitler o arremedo de Deus diz o que pode acontecer. A estetização da morte e da barbárie não é separável da consciência que uma sociedade instruída pode ter de situações insuportáveis moralmente. O pacote vem completo. Vem, inclusive, com o desejo de entender a situação, como se o entendimento pudesse diminuir a dor. Às vezes, faz parte o luto.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 02/01/2017

Post Script: considero esse tipo de texto aquilo que exatamente chamo de “filosofia como crítica cultural”.

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6 Responses “A chacina de Campinas e seus pirilampos”

  1. Guilherme Picolo
    02/01/2017 at 23:20

    Esse tipo lembra aquele personagem do Michael Douglas em “Um Dia de Fúria” (Falling Down), em que o sujeito, fracassado no trabalho, no amor, nas finanças, na sociedade, começa a resolver as coisas a seu jeito, reagindo contra aquilo que considera “lixo” ou culpado pela sua desgraça: latinos, o imigrante oriental, o empresário que atende mal os clientes…

  2. Bradamante
    02/01/2017 at 20:54

    Excelente!

  3. 02/01/2017 at 17:39

    As feministas estão chocadas, é compreensível, e nesses momentos é muito difícil pensar. Vejo como senso de proteção, antes do que censura. Agora, o filosofo pode esclarecer… Na minha modesta opinião, a carta é um tour chocante por dentro de uma mente que se tornou doentia (confusa) e tramou a limpeza geral. “Vírus” corrompidos?

    • 02/01/2017 at 20:49

      Os filmes indicados não dizem tudo? E as feministas vão se proteger dos filmes também? Talvez sim, são incultas.

  4. LMC
    02/01/2017 at 13:27

    Olavo de Carvalho e Bolsonaro nasceram
    em Campinas,PG.Puta coincidência…..

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