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20/07/2017

Causas nobres com militantes toscos


A militância política não é nobre, nunca. É sempre tosca. Mas há causas de âmbito social e político que são nobres, e que não poderiam ser inviabilizadas por causa da militância tosca.

As causas nobres ganharam o interior do termo civilização. Pertence à civilização em seus moldes atuais uma ética que já não é mais a moderna, pois o que temos hoje é antes a vigência da ética dos direitos que a ética do dever. Sai Deus e Kant e entram os Sixties. Esse é o contexto gerado no Pós-guerra. Direitos Humanos, Direitos de Minorias (mulheres, gays, crianças, negros, portadores de necessidades especiais etc.), Direitos Civis, Direitos dos Animais são todos nomes que vieram a se confundir com a ideia de democracia liberal e com a ideia de civilização ocidental. Muito foi feito nesse campo, mas as mudanças mais velozes só deram frutos nos últimos vinte anos, e muito está para se fazer. Por isso mesmo, pela necessidade de transformações, nasceram os movimentos que agrupam os que se auto-denominam “ativistas sociais”. São os alimentadores dos grupos promotores do orgulho LGBT, dos grupos de defesa da ecologia, dos grupos de defesa dos animais e do veganismo, dos grupos que cuidam da infância etc.

Junto disso, se mantém em acensão as bandeiras liberais mais tradicionais, como a questão da liberdade individual, da livre expressão, do voto secreto, da exigência de transparência e compromisso republicano etc. O vetor de tudo isso se põe na direção e sentido de uma sociedade mais suave, mais desonerada, menos cruel. A ideia de menos dor como objetivo é um consenso.

Menos crueldade? Sim! Gente como eu, por exemplo, tem profundo amor por cães de modo igual ao que tem por humanos. Gente como eu fica furioso quando vê injustiças contra humanos da mesma maneira que quando vê o sofrimento de um cachorro, mas muito mais que quando vê o sofrimento de um pernilongo. A identificação nossa é  sempre por fases, graus, crescimento de uma ampliação da noção de “nós”.

As causas nobres contemporâneas são comuns aos que gostam de viver nas democracias liberais ocidentais. Mas muitos de nós não suportam mais o autoritarismo emergente dos grupos que defendem essas causas nobres. E isso por conta de um reaparecimento de um conceito de natureza humana ou de condição humana, embutido na forma de pensar desses militantes. Explico.

Uma boa parte desses militantes é incapaz de olhar para as pessoas e as tomarem como tendo uma vida normal. Olham para todos ao redor e cobram de todos um comportamento padrão e imediato, como num exército bem treinado. Esse exército tem que estar cumprindo com todos os comportamentos aprovados pela Causa, ou melhor, pelos zeladores da Causa.  A Condição Humana Perfeita é procurada e, se não é encontrada, pois só existe na imaginação do militante e no espelho que ele tem em casa, então isso lhe dá a autorização para que ele despeje uma série de ordens e maldições sobre as pessoas comuns.

Desse modo, alguém que protege sinceramente o direitos da mulheres, mas também acredita que é algo feminino aprender a costurar, é tomado como “um porco machista” e punido com a execração pública e com palavras de ordem para seguir.  Precisa se redimir do pecado, da tentação de ter caído, ainda que um pouquinho, no tal machismo. É ainda um pecador. Alguém que protege o cães,  que até é vegano, mas não obrigou seu próprio cão a se tornar vegano, continua sendo um “horroroso criminoso carnista”. Deve ser exposto à execração pública e punido com frases que deve repetir, como quem repetia orações como penitência. Há dezenas de exemplos, em todo tipo de defesa de causa nobre, que podem ser arrolados como semelhantes. Isso assim se realiza desde que a militância de causas nobres se acha, ela própria, de natureza nobre, superior a de outros, e vê todos os que não seguem suas mil e uma regras de uma vez, como inferiores. A raça pura, como no fascismo, ou o culto ao partido, como no comunismo, são a mosca azul que mutatis mutandis morde esses zeladores do purismo da Causa. Cada Causa Pura tem, então, seu grupo de zeladores. Esses zeladores, se puderem, instituem uma guilhotina para os que não conseguiram ser puros.

Todos, diante dos zeladores da Causa, não são mais respeitados em suas dificuldades de compreensão da Causa. Ou se tornam santos, como os zeladores, ou serão punidos. No mínimo, terão de ouvir reprimendas nas redes sociais. Não vejo como essa militância pode atrair adeptos normais. Acaba ou afastando pessoas ou, então, criando um movimento até contrário à Causa. Conheço muita gente que adora proteger animais, mas não entra em grupos de defesa dos animais porque tais grupos são nazistas. Pois dentro desses grupos há, e não são poucos, os que chegam a dizer que ao invés de testarmos vacinas em animais deveríamos usar a população carcerária humana. É gente que não tem militância a não ser para ocupar o tempo com algum fanatismo. São pessoas que precisam preencher suas vidas vazias. Quando um causa arruma zeladores e militantes assim, e se torna a Causa, começa aí a auto-destruição de uma ideia nobre.

As causas nobres devem permanecer nobres. Temos de mantê-las nobres a despeito da militância que as cercam. Não é fácil.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São  Paulo, 11/07/2017.

6 Responses “Causas nobres com militantes toscos”

  1. Paulo
    12/07/2017 at 15:05

    Paulo, desculpe a insistência, mas tem como militar (mesmo por causas nobres) sem polarizar (radicalizar) ?

    • 12/07/2017 at 19:32

      O problema não é radicalizar, o problema é ser burro.

  2. LMC
    12/07/2017 at 14:56

    Já estou imaginando o que o
    Olavo e o Bolsonazi estão
    pensando sobre a condenação
    do Lulla:”Finalmente,condenaram
    aquele comunista”.kkkkkkkkkkk

    • 12/07/2017 at 15:01

      De modo algum, eles não apostam no funcionamento da justiça na democracia.

    • LMC
      12/07/2017 at 16:48

      É,o Bolsonazi disse no Twitter
      que prestou continência ao
      Moro pela condenação do Lulla.

  3. Luis
    12/07/2017 at 11:06

    “Que post machista, homofóbico, racista! Deslegitimando as causas sociais das minorias, as quais somente às minorias pertence.” – O Justiceiro Social –

    É irônico que, através da crítica, os militantes se tornam acríticos.

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