Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

24/08/2017

Bauman como exemplo da degradação da cultura


Em meados dos anos noventa, eu já estava pelas tampas com as aulas em cursos de licenciatura em universidades públicas. Os alunos já não mais acompanhavam raciocínios, queriam só frases esparsas. Eu acreditava que havíamos chegado no fundo do poço. Meu Deus, que falta de visão a minha!

Foi então que surgiu a Internet. Anunciava-se um novo tempo. Alguns ligados à Teoria Crítica, sempre enfiando a hipótese da “sociedade administrada” em tudo, adoraram a Internet para uso próprio, mas diziam odiá-la no âmbito da cultura em geral, pois era mais uma “coisa do capitalismo”. Teorizaram sobre o domínio dela por governos e como que governos iriam dominar nós todos – bem, por essa via da vulgata marxista iriam nos dominar de qualquer maneira! Não dei bola para esse tipo de crítica, claro, pois para toda ingenuidade há limite, muito menos fiquei interessado nos tais Pierre Levy da vida, que inventaram de achar que o mundo virtual era matéria de livro ou teoria. Fiz bem.

Como a universidade pública estava insuportável e o governo FHC mais ainda, saí do país. Foi o período em que trabalhei na Nova Zelândia e, por duas vezes, nos Estados Unidos. Quando voltei, por volta de 2003, trabalhei um pouco na UERJ, onde inclusive, depois, fiz meu Pós-doc em estudos de corpo e subjetividade, na área de medicina social; vivi dos meus livros durante um tempo, depois estive na iniciativa particular no campo do ensino e, então, fui para a UFRRJ. Trabalhei ali alguns anos e me aposentei. Tenho estado contente em lecionar em uma faculdade da Igreja Católica, a Paulo VI de Mogi, só com filosofia. Uma benção. Mas, nesses 16 anos de século XXI, o que mudou?

Tenho voltado a pensar na Internet e na cultura atual, mas não para teorizar. Faço observações apenas. São notas. Eu poderia chamá-las de “nota da degradação dos olhos”.

Durante esse tempo, a Internet saiu do campo do divertimento, tornou-se obrigatória no trabalho, e o mundo virtual adquiriu a mesma importância do mundo no qual estão os hardwares. O design da Internet mudou. Há uma geração adulta que já nem tem ideia do que é construir algo no Geocities. Veio o Twitter e depois o Facebook, e agora a integração de ambos. O império dos 140 caracteres se fez vigente, o menos até bem pouco tempo atrás. Coisa boa, pois no Facebook se pode dizer mais e aí vemos o quanto é útil só 140 caracteres. O reino das frases então obrigatoriamente soltas foi inaugurado no mundo como tendo um lugar especial e oficial. O Brasil é o terceiro usuário da Internet no mundo, e com um dos piores ensinos do planeta, então, se sentiu premiado pela existência de um tal reino. Isso era tudo o que, nos anos noventa, os cursos de pedagogia queriam. Dizem que agora, todo tipo de aluno da universidade pública é mais ou menos isso, um semiletrado, alguém que vive numa região onde o tal do youtuber, que nunca leu um livro, é quem os escreve – ou seja, paga para alguém escrever. Faz a prática que era mais a do FHC, por preguiça, e a do Lula, por incompetência.

A coisa piorou tanto que um governo aí até pagou para uma mulher limítrofe reescrever Machado de Assis para torná-lo … popular! E dizem que a mulher além de ganhar, ainda está solta.

O império da frase solta é verificável como regra na educação. Aliás, pode-se ver isso pela quantidade de frases de Paulo Freire soltas por aí, até em muros, dando sentidos completamente inversos aos solicitados pelo autor. Esse modo de não pensar deu espaço para os palestrantes midiáticos de hoje (Karnal e Pondé à frente), que representam o fenômeno mais degradante que a cultura brasileira já conseguiu produzir durante toda a República. Trata-se do profissional fracassado em stand up, mas que também não conseguiu psicografar ou produzir a típica auto-ajuda do pensamento positivo americano. São professores que se dedicam a tuitar pela boca. Estão em todo canto. Faustão os cita, dando então o parâmetro de relevância cultural desse pessoal.

Esse tipo de profissional, que recebe salário de universidades públicas (e algumas particulares sem juízo), ainda que nem sempre apareçam por lá, são os educadores do momento. Podem falar de tudo, pois não contam nada, nada explicam, nenhum raciocínio é apresentado. Aliás, não pensam por raciocínio, pensam por associação. Creio que cangurus, baleias e doninhas fazem isso. Golfinhos e cães são superiores. Suas palestras são clichés, um conjunto de frases voadoras. No passado, qualquer garota de 13 anos tinha seu caderno de frases ou seu diário, e eles eram bem melhores que as palestas dos midiáticos requebrantes e rebolantes. Os midiáticos atuais trouxeram para o palco a atitude afeminada, no exato sentido dessa palavra quando usada por Péricles, ao ser referir a povos não-gregos. (1)

Paralelamente à geração-Twitter e aos midiáticos afeminados (novamente no sentido de Péricles), a academia passou a engolir uma literatura condizente com tudo isso. O fenômeno Baumann dá o tom, no exterior, para o caso, mas a situação se apresenta mesmo como praga no Brasil. Inclusive realimentada pelos midiáticos.

Baumann é o Eric Fromm de nossa época. Um divulgador. Mas bem piorado. Fromm produzia uma narrativa com enredo. Bauman, por sua vez, produz livros que são os 140 caracteres, em forma de clichés, repetidos. Mais de 50 livros assim. Não à toa alguns analistas europeus de calibre disseram: trata-se do maior plagiador de si mesmo. É fácil plagiar-se quando aquilo que é dito são clichés. É fácil ter público quando o público quer frase que possa ser citada para posar de “gente inteligente”.

Aliás, uma amiga minha disse isso: “sou loira, então, disfarço bem com frases do Bauman – sei que é lixo, mas meu patrão adora”. Um amigo engenheiro outro dia me disse algo semelhante: “falo frases do Bauman no escritório em que trabalho, e meus colegas admiram minha cultura”. Ambos riram muito ao contarem suas proezas. Divertem-se exibindo “sociologia”. Aliás, ninguém diz de Bauman mais do que o Jornal Nacional conseguiu dizer: “ele falou que tudo é líquido”. Ninguém diz mais porque não há mais o que dizer. Não há o que entender em escrito de Bauman. Vejam: “a preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano da reflexão moral” ou “vivemos tempos líquidos. Nada é para durar” ou “na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte”. Quando se vai aos textos onde estão essas frases, percebe-se que elas aparecem no emaranhado de um repeteco de outras semelhantes, de modo quase a obrigar o leitor a pinçá-las ou, então, não ter o que absorver dali. No conjunto de um jardim cheio de mato, pega-se a flor que sobrou, ao menos para não se falar que não se esteve num jardim.

Chamo a atenção para o fato de que não estamos vivendo a época em que Chico Anísio e Jô Soares criavam uma literatura de consumo rápido, de entretenimento, criavam bordões, geravam modinhas. Aquilo tinha sentido, vinha do mundo do entretenimento e era bem elaborado. Não, o que estamos vendo agora são professores, aparentemente preparados, ocuparem esses lugares, mas fazendo tal coisa de um modo pobre, pervertido, quase que não se percebendo como bobos da corte que não podem receber aval senão de uma massa enorme de semi-escolarizados que o Brasil gerou nesses últimos anos. É gente que nunca viu um Millôr Fernandes gerar a cultura da frase.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 13/01/2017

1 Afeminado não é algo como mulher ou homossexual ou algo assim. Afeminado é o oposto de viril. Na “Oração Fúnebre de Péricles” (trabalhada neste aspecto por Hannah Arendt, e que também está capítulos do meu livro Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015)), fica claro isso. O mundo grego é viril e não afeminado, embora possa ser completamente homoerótico. Ou seja, o afeminado é o preso à natureza, uma espécie de esteriótipo da condição de fêmea, que pela gravidez se prende aos ditames da natureza e cai sob a indisciplina desta, enquanto que o viril pode sair disso, fazer cultura, dado que é livre. Fazendo cultura cria a disciplina, as regras, enfim. A Grécia é lugar de uma cultura viril, sendo que em Esparta até a mulher se torna viril. Em Atenas a mulher deve ser viril quando necessário, e pode ser sempre se é estrangeira.

Tags: , , , ,

21 Responses “Bauman como exemplo da degradação da cultura”

  1. Danusa Lorenzzoni
    24/01/2017 at 21:58

    Professor Ghiraldelli, meu marido e eu já lemos, juntos, cada um com o seu volume, sentados na varanda do nosso apartamento. Confesso:mas que chatice de sociólogo!Santo Deus! Que homemzinho mais aquático, ops! Digo, mais aguado! É aguaceiro por toda parte! Quase morri afogada em tanta água fria! Glub, glub, glub, glub, glub! É só isso que ele sabia escrever! Prefiro as teorias da conspiração. são toscas e ridículas, mas pelo menos são mais divertidas e não essas xaropadas desses Baumans da vida. Meu pensamento, professor, é bem mais sofisticado do que desses que o senhor chama de “midiagogos”, como Pondé, Karnal, etc. Tudo cria do polaco falecido!

    • 25/01/2017 at 00:45

      Danusa, realmente, é muito chato. Fico espantando da quantidade de gente que gosta de coisa chata.

  2. Ecce Homo
    14/01/2017 at 20:31

    Contrariar o obvio, insurgir-se contra o senso comum… Bauman ao constatar como e porque o capitalismo criou o vazio do nosso tempo estava dizendo o obvio, assim como outros falam apenas o que a plateia quer ouvir. Mas, tentar a todo custo ver no que é apenas mais um sintoma um avanço não é também dizer o que a plateia quer ouvir? Afinal, achar que a parada gay (só um exemplo, o repertório é vasto) é a oitava maravilha do mundo não é também dizer o obvio e o que a plateia espera ouvir?

    • 14/01/2017 at 20:55

      Ha ha ha! Homo Fake, você é pândega! Adotou o chapéu da foto. Obrigado por me divertir.

  3. Ecce Homo
    14/01/2017 at 14:36

    Bauman empreendeu uma das mais significativas tentativas de explicar porque o nosso mundo contemporâneo se tornou o que é. A conclusão a que chegou é tão questionável quanto qualquer outra: estão nas transformações do capitalismo as explicações para uma sociedade vazia.
    E é aí, mais do que seu método ou modo de escrever seus livros, que Bauman incomoda ao professor Ghiraldelli. Este, que oscila, durante o dia, entre as virtudes da direita (americana) e os malefícios da esquerda, e, durante a noite, entre as virtudes da esquerda e os malefícios da direita (americana), não aceita a constatação de que o nosso tempo não é a culminância “do mais perfeito dos mundos”. Um grande pecado para alguém que na tentativa de ver apenas maravilhas nesse nosso tempo cínico, niilista e vazio, empenha-se em erguer Sabrina Sato à condição de intelectual. Sabemos, é claro, que sempre deve haver alguma esperança, e mesmo na lama na qual o nosso tempo rasteja é possível, sim, ver algo bom. O que torna-se incompreensível é porque para o prof. Ghiraldelli toda e qualquer denúncia, análise ou constatação que afirme que as coisas não vão ou não saíram tão boas como era esperado, automaticamente tornam-se algo que deve ser execrado, combatido, negado (afinal, o pessimismo, o realismo ou o otimismo não são de direita ou de esquerda, nem excluem, automaticamente, a uma correspondência com a realidade). Bauman concluiu que o homem não se encaminha para tornar-se Deus, e entre essa constatação e a inteligencia de uma apresentadora de televisão, eu desconfio que o velho estava certo. Ghiraldelli, não: prefere não enxergar o obvio.

    • 14/01/2017 at 19:42

      Ecce Falso Homo, há sabichões que enxergam o óbvio. Não sou um sabichão, fico oscilando. Mas há muita gente que adora, antes que a coisa aconteça, já ser assim e assado diante da coisa. Você me fez rir muito. Obrigado.

  4. LMC
    14/01/2017 at 11:15

    A única coisa boa do sr.Bauman foi
    ter morado na Inglaterra.

  5. 14/01/2017 at 10:31

    As Universidades Públicas tem desempenhado mais o papel de alienar do que formar para a reflexão crítica, a maioria dos docentes já vem de uma formação única e também são alienados, os alunos, nem se fala, acreditam em tudo que os docentes dizem, aceitam como verdades absolutas. Eu mesmo tive uma péssima formação superior. Agora sempre busco outras visões, tento não ser como muitos pedagogos que conheço, onde metem Paulo Freire onde cabe e onde não cabe, a Universidade ensina a “qualquer coisa cita Paulo Freire que resolve”

  6. Eduardo Pupim Filho
    13/01/2017 at 20:03

    Muito bom comentário. Vejo e admiro quase tudo que o Ghiraldelli comenta e debate; sempre muito eloquente e perspicaz. Nos ajuda com uma postura mais crítica e equilibrada com relação aos nossos conceitos em relação aos midiáticos palestrantes em voga. Com relação ao Baumam, embora concorde plenamente com as críticas acerca de seus plágios e redundâncias, o vejo como referência e inspiração da verve dos aludidos palestrante; não sei à que propósito. No entanto, não posso deixar de externar meus sentimentos pela morte do Baumam, no último dia 09/01/2017 que, aos seus 91 anos de idade, ainda sendo objeto de comentários, debates e paradoxos entre pessoas seletas. Que nos sirva de exemplo!!

    • 13/01/2017 at 22:45

      Eduardo, Bauman não é exemplo para ninguém. A velhice não santifica.

  7. Meira Lopes
    13/01/2017 at 18:57

    O professor karnal tem formação universitária e se não me engano eh professor na Unicampi. Eu acho que ele eh diferente de outros palestrantes que nao estudaram.

    • 13/01/2017 at 22:46

      Meira, cê tem razão, é na “unicampi”, com pi, e com salário que recebe sem trabalhar.

  8. Daniel
    13/01/2017 at 17:24

    Estão educando os adolescentes de hoje com Bauman, Karnal, Pondé, Cortella. Mostrando para eles Marx e Nietzsche como anarquistas pops, porque supostamente vão contra “as regras”. O curso de filosofia aqui na minha cidade está cada vez mais sociologizado, ninguém quer mais pensar por princípios. Só resta para a juventude os gurus do momento revestidos com título de professores universitários. A decadência está desenhando o mundo acadêmico de forma estrábica. Está insuportável já. Mas, ainda bem que temos professores que não deixam o jogo terminar para que possamos perceber que o valor da filosofia é o valor do excepcional e não da maioria e nem minoria.

    • 13/01/2017 at 17:58

      Sociologização! E da pior espécie Daniel, sei dissso.

  9. 13/01/2017 at 17:13

    Em “Modernidade e Ambivalência”, Bauman parte de um estoque cultural sociológico de uma grande tradição de pensamento que tem em Weber o seu maior expoente: trata-se da ironia, ou daquilo que Weber chamava de o “paradoxo das consequenciais imprevisíveis”. Por exemplo, como que de uma ética frugal nasce um mundo hedônico? Porem, os limites desse tipo de analise e critica cultural foram dados ainda ao final da década de 1960, quando a sociologia de esquerda, que usava Weber, ancorou a tradição no anti-modernismo e no anticapitalismo e, mais tarde, com o próprio Bauman, na antiglobalização. Aquilo que era uma fina ironia literária captada pelas ciências sociais, tornou-se “ambivalência” e, com a aceitação de uma audiência simplória, um contraste entre bem e mal, uma analise dos efeitos colaterais negativos da globalização e da comunicação em rede no mundo. Ao final, o mundo de Bauman se liquefez, e a audiência começou a identificar isso com, sem lá, seus próprios relacionamentos passageiros ou suas frustrações dos desejos não-realizados!!!

    • 13/01/2017 at 17:59

      Sérgio só você mesmo para ver alguma coisa de histórico em Bauman. Olha, nem vulgata ele é.

  10. Marins
    13/01/2017 at 16:03

    Gosto do livro amor líquido do Bauman, nele o autor trata do tema da fluidez das relações na sociedade líquida. Acho que é um pensador que sabe falar dos problemas de um mundo cada vez mais diluído.

    • 13/01/2017 at 18:00

      Marins se gosta disso, então, pare e volte a estudar numa boa escola: sua formação está péssima. Você deve ser jovem, dá tempo de recuperar.

  11. Rafael José Nogueira
    13/01/2017 at 15:13

    Do Bauman o livro “Capitalismo Parasitário”, depois ganhei de presente o livro “Medo Liquido”, não tinha muita vontade de ler. Mas me esforcei, era um presente, pensei que o mínimo era eu tentar ler, além de poderia acrescentar algo sobre a reflexão do medo. Fiquei decepcionado nas primeiras páginas, tudo o que eu tinha lido no livro anterior estava repetido ali. Não desanimei continuei, me frustrei mais ainda, era só citação acompanhada de frases de efeito, nada mais do que isso. Enfim terminei e fiquei mais frustrado.

    • 13/01/2017 at 15:29

      Rafael, gente como você me anima. Pois vejo que ainda há pessoas por aí que não se deixaram levar pela onda da contra-evidência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *