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17/08/2017

Acorde! Não existe “hacker do bem”!


Um martelo não representa um produto de tecnologia. A tecnologia não se caracteriza pelo uso de instrumentos.

A modinha agora é dizer que o mercado quer gente “especialista em segurança e combate à pornografia infantil na Internet”. São os “hackers do bem”. O nome é infeliz. É de uma ingenuidade que só poderia, mesmo, vir da cabeça de gente formada por faculdades que fizeram de TI algo que nada tem mais a ver com a engenharia associada a uma formação mais ampla. Engenharia virou curso técnico. Daí sua possível utilidade para polícia, cujo modo de pensar é tudo, menos o acadêmico.

Em estética não temos progresso. Em moral temos um discussão se podemos falar em progresso. Mas a história da terceira esfera de valor e atuação humana (Weber) certamente é levada adiante pelo fio do progresso. E, nesse caso, por um progresso feito pelos homens, mas não como os homens desejam ou decidem. Há uma teleologia aparentemente demiúrgica, de um Deus louco, nessa última história. A história da razão científica é uma história de um Deus de hospício. Não há decisão na ciência que produza o que o homem quer sem que também se produza tudo que ninguém quer. E não há “escolha de uso”. É uma tolice achar que os efeitos colaterais de um remédio são efeitos colaterais, e que os remédios possuem de fato algo que possa falar em “prós e contras”. Seu uso é determinado pela sua novidade e sua novidade é um casamento entre tecnologia e sociedade de mercado. Esse é um ensino da filosofia para a ciência. Um aluno de engenharia deveria poder aprender isso.

A razão científica é autônoma, a razão tecnológica é amoral. Não há qualquer possibilidade de alguém desenvolver “tecnologia para fins pacíficos”. Tecnologia é sempre alguma coisa que atinge todos os fins para os quais ele tem potencial. E o potencial dela não tem limites. Não se trata de dizer que a tecnologia é neutra e o homem a direciona. Também isso é uma bobagem. É a tecnologia é um campo aberto, e ela põe os fins que ela mesma quer alcançar. Quais? Os da “vontade de poder”, digamos assim. A razão científica cresce por si só e seu único objetivo é fazer mais e melhor o que já faz e fazer acontecer aquilo que ainda não aconteceu. Nenhum homem a põe a seu serviço. A tecnologia é que põe o homem sob seu comando, quer ele queira, quer não!

A ciência tem um único objetivo: progredir. E progredir, para a ciência, é conseguir fazer com que a ciência vire mais ciência. A ciência tem como objetivo fazer coisas que ainda não fez. Todos sabemos que o capitalismo abriu a caixa mágica, e que o maestro Mickey Mouse não controla mais nada do que dali sai. As forças da natureza se voltaram contra e a favor a tudo. Isso é a ciência. Quando um grupo de pessoas resolve criar mecanismos para proteger a segurança virtual de uma Instituição, tudo que esse grupo faz é criar vírus que irão gerar mais vírus. Dizer que isso é um bem, que tais vírus ficarão à mercê de um uso “do bem”, é como dizer para o escorpião não ferroar as costas do bicho que lhe ajudou a atravessar o rio. A ciência não sabe obedecer ordens. Ela só obedece o princípio cósmico do autocrescimento. Ela é como a bactéria de Nietzsche, que joga seus pseudópodes para apanhar a gota d’água maior e, então, ao englobá-la, estoura.

Adorno e Horkhheimer redescobriram esse princípio do esclarecimento cientifico. Esse papel é o da razão científica que usa as luzes para cegar o pássaro e fazê-lo cantar melhor. Quanto mais luzes não se tem mais bem, nem mais mal, temos mais luzes. O mundo totalmente clarificado e desencantado é o mundo em que hackers são hackers, não pode existir hackers do bem. Um hacker do bem seria um cara de TI schopenhauriano, que ao invés de produzir vírus ficasse admirando o protótipo do vírus em uma uma tela, posta numa galeria de arte, sem qualquer intervenção no mundo. Só assim o cara de TI poderia, pela arte, não se comprometer com a “metafísica do mal” inerente ao mundo, ou melhor dizendo, uma metafísica da “dialética do Iluminismo”. A ciência é um monstro louco que tudo alcança e tudo devora, incontrolável, e faz suas próprias leis éticas que, enfim, são o fim de toda e qualquer ética.

Só a ingenuidade de um indivíduo de TI, que está anos luz de distância de um engenheiro dos bons tempos, pode levá-lo a acreditar que quando ele elabora um sistema de segurança para uma empresa, ou quando ele cria um programa de detecção e proibição de corrupção, ele já não criou, internamente e no mesmo ato, tudo que  é necessário para que a insegurança se instaure e a corrupção se sofistique. A criação em ciência e tecnologia sempre é aberta, ela atira para todos os lados ao mesmo tempo. A própria existência dela, como articulada ao comércio, funciona no esquema de produzir sua contrapartida no momento da criação do que se acha desejável. O TI que faz a segurança da empresa faz junto sua insegurança. E isso é público, não há segredo em TI.

Só mesmo a polícia para acreditar em algo tão religioso quanto o grupo de “hackers do bem”. São técnicos. Pessoas sobre as quais Jesus lançou seu olhar e disse, na Cruz: “Pai, perdoa, não sabem o que fazem”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60. Filósofos. São Paulo, 05/08/2017

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7 Responses “Acorde! Não existe “hacker do bem”!”

  1. Fábio Fleck
    13/08/2017 at 02:36

    É nítido que o Ricardo fez o seguinte: Deve ter lido as primeiras linhas do texto, não concordou, não gostou e aí parou de ler. Talvez tenha lida mais uma ou duas linhas e aí parou de vez, ficou bem irritado e postou esta reposta. Bem, como estudando e profissional de TI que atua em uma empresa de Segurança da Informação no momento e um leitor do Paulo, posso afirmar que este é um texto excelente. E que evidencia exatamente como funciona. De fato não existe hacker do bem. O hacker é o individuo que justamente estuda as vulnerabilidades de um sistema, burlam o funcionamento convencional do sistema, quebram chaves, invadem redes, por mais que se queira dizer que isso possa se aplicar para fins “do bem” é como Paulo falou amoral. um sistema CFTV é colocado para segurança, mas pode ser usado para outros fins, sistemas de firewall guardam logs e podem servir para lhe espionar, frequentemente em empresas, pessoas são vigiadas através de e-mail, navegação e outros, mas este não seria o fim para o qual aquele sistema foi implantado. Ou seja: “Não há qualquer possibilidade de alguém desenvolver “tecnologia para fins pacíficos”. Tecnologia é sempre alguma coisa que atinge todos os fins para os quais ele tem potencial. E o potencial dela não tem limites. Não se trata de dizer que a tecnologia é neutra e o homem a direciona. Também isso é uma bobagem. É a tecnologia é um campo aberto, e ela põe os fins que ela mesma quer alcançar. Quais? Os da “vontade de poder””. Um exemplo o avião idealizado por Dummont. Ele tinha o objetivo em transformá-lo em uma máquina de guerra? Não, mas a tecnologia não obedeceu a ele, foi vontade e poder. É simples está tudo dito aí. O exemplo citado no texto foi um, claro que existem outros vários, como falei. Mas o Paulo está falando de algo muito mais amplo e que se aplica à tecnologia como um todo. Eu entendi e inclusive o texto me gerou também uma necessária reflexão. É necessário ir além Ricardo.

  2. Alysson
    08/08/2017 at 09:13

    Texto excelente.
    Sobre a pouquíssima filosofia da ciência dada nos cursos de engenharias e tecnologias percebo a tendência de ganho de força do campo CTS e a discussão mais próxima do “construtivismo social” – numa leitura rasteira dessa tradição – o que acaba por fortalecer a idéia de uma ciência que funciona a partir da intencionalidade politica e social que damos a ela. Como se o problema da ciência fosse apenas a falta de participação do público geral nas decisões sobre o fazer científico.
    Acaba-se que uma reflexão na linha que você apresenta ou na pegada de um Jacques Ellul é taxada de pessimista e fim.
    Será que isso é sintoma de um auto engano dos intelectuais e técnicos? nunca queremos encarar a verdade desse processo que vc descreveu da ciência.

  3. Hilquias Honório
    07/08/2017 at 18:53

    Caramba! Analisando o texto do professor e essa discussão com o Ricardo, eu concluí que ainda preciso aprender tanta coisa! E, mais do que isso, percebi como a filosofia é importante para qualquer estudante. É como naquele texto “Elogio da Filosofia no Ensino Médio”.

  4. Ricardo
    06/08/2017 at 06:41

    falar que a defesa digital é restrita a criar vírus para derrubar outros vírus(de onde você tirou essa tolice ?) é uma grande bobagem.

    existem centenas de outros mecanismos, todos “do bem”

    a frase “Quando um grupo de pessoas resolve criar mecanismos para proteger a segurança virtual de uma Instituição, tudo que esse grupo faz é criar vírus que irão gerar mais vírus.” demonstra total desconhecimento do que se trata a segurança da informação.

    • 06/08/2017 at 09:06

      Ricardo o fato de você não entender como funciona a “razão científica” e, por isso, não conseguir entender o texto, achando que o elemento tecnológico é igual a um instrumento de antes da revolução científica e moderna (o martelo) por exemplo, é compreensível da minha parte.

  5. Ricardo
    06/08/2017 at 06:36

    Paulo, filosofar também demanda pesquisa sobre o que se vai escrever. o conceito de hacker é um deles. existem vários tipos, black hats, white hats, script kiddies.

    sou da área de TI, trabalho com segurança há pelo menos uns 20 anos.

    é óbvio que existe desenvolvimento de tecnologia para fins pacíficos. um roteador que identifica ataques DDOS é um exemplo disso. um Firewall(que você provavelmente usa em seu windows) é outro exemplo claro.

    o que existe é uma grande confusão conceitual oriunda de pessoas que não sabem do que falam, e usam apenas os termos mais populares.

    pesquise um pouco mais antes de generalizar sobre coisas que não conhece.

    precisando de dicas sobre livros da área, pode solicitar por email (cadastrado na resposta) que terei satisfação em indicar.

    cordialmente

    Ricardo

    • 06/08/2017 at 09:12

      Ricardo, o fato de ser da “área de TI” e ser avesso a um texto de filosofia não precisava ser dito, ficou evidente. Meu querido, você não tem ideia da minha formação, portanto, não se ache sábio. Fiz filosofia e física, fui professor de matemática e física. Lidar com a máquina… xiii, meu caro, sou do tempo que as linguagens “simples” não eram as que você conhece. Não pense que um filósofo como eu não tem formação científica. Você errou. Agora, o que percebo é que esse erro é, em parte, algo que podia ser sanado por um curso de filosofia da ciência. O curso de filosofia da ciência, que existia nos cursos de engenharia, não dão mais o que davam. E aí as pessoas não sabem quem é Turing ou Quine, ou sabem mas não entendem o que fizeram. O seu texto é um bom exemplo da ingenuidade que denunciei no meu escrito. Com um agravante: o fato de não ter ideia de que a razão científica está além de você; ela o utiliza, não é você que a utiliza. Você liga sua máquina, mas a partir desse momento, ela desliga você. E aí ela caminha pela “vontade de potência”.

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