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25/09/2018

Que o papa e as crianças evangélicas saibam: heterossexualidade é que é desvio


[Artigo para o público em geral]

Gosto do Papa Francisco, de verdade, mas o entendimento dele a respeito de LGBTS beira o da pastorzinha de dez anos, fruto de lavagem cerebral que é própria dessa idade em lares de fanáticos (pobres ou ricos), e que anda curando gays por aí. O professor de filosofia argentino e a mini-curandeira são frutos de uma sociedade que ou lê Judith Butler ou vai continuar reproduzindo dogmatismos e irreflexões. Isso só alimenta o “clima Bolsonaro” que nos afoga. Um dos principais dogmatismos de nossos tempos  é essa opinião majoritária que coloca a homossexualidade no foco das atenções senão como doença ao menos como desvio.

Se a homossexualidade é desvio, então que as pessoas comecem a perceber que a maior parte de nós não está na estrada certa. Principalmente os que batem o pé gritando que são héteros.

São poucas as pessoas acima de quarenta anos que, mesmo não tendo parceiros com genitálias diferentes, não se envolveram em algum relacionamento de caráter sexual ou amoroso com pessoas com genitálias iguais às suas. E não adianta dizer que foi “coisa de adolescente” ou “fruto da bebida”. Se os estudos sobre esse assunto fossem sérios, e não caíssem nas mãos de propagandistas ideológicos de todos os tipos, desde o homofóbico (que diz que não é) até o Polenguinho do Bem, já teríamos há muito considerado que talvez o desvio seja a heterossexualidade. E ao dizer isso, não estou dizendo nadinha a respeito de que os que estão me lendo devem, para ficar certos na vida, serem homossexuais ou coisa parecida (aliás, esse entendimento é o problema daqueles que têm dificuldade de aprendizagem, eles sempre acham que um autor está falando deles ou de si, e não levantando teses! Não entendem o que é um filósofo).

Já expliquei aqui no meu blog, de modo breve e didático, a teoria de Butler (Homossexualidade e heterossexualidade em Judith Butler). Ela diz claramente que nosso interdito primeiro não é o tabu do incesto como forma de barrar a posse de fêmeas, como na antropologia criada por Freud, mas que o tabu inicial, digamos assim, é aquele contra a homossexualidade. Somos frutos de uma sociedade que normatizou comportamentos sexuais segundo um padrão heterossexual, mas segundo uma perda, não um ganho. Isso nos faz melancólicos, ela diz. O melancólico é aquele que não faz o luto, não absorve as perdas. E nós não conseguimos, nós todos, elaborar essa perda que foi a adoção de um só comportamento padrão como oficial, o heterossexual. E estamos patinando nisso. Fomos e somos jogados para a adoção desse padrão pelo tabu contra a homossexualidade e isso forja nosso sexo e nosso gênero, mas o faz enquanto produtor de corpos bem marcados por tal diferenciação. Corpos que podem, por conta das marcas exigidas, se tornarem não corpos objetos, mas pior, corpos abjetos – os corpos que precisam urgente da ajuda da oração do Papa ou da oração da curandeirinha brasileira de pocs (gay afeminado da periferia). A teoria de Butler é uma teoria da corporalização, da incorporação, das marcas do corpo que adquirimos para nos fazermos seres sexuais e com gêneros a partir do padrão heterossexual, dado por um tabu anterior ao do incesto (o leitor, se sentir confuso, deve ler meu texto com link em vermelho).

Butler é uma pensadora que admiro não só por esse ideia brilhante de releitura de Freud, mas por ser uma feminista que subverte tocas as teorias feministas tradicionais. Talvez Butler seja o único antídoto realmente útil, capaz de resultado, contra essa epidemia que não passa, que é a que pegou o Papa (ele desmentiu ter considerado homossexualidade doença, mas considera desvio) e que faz com que existam pais que, contra o Estatuto do Criança e do Adolescente, coloquem os filhos nesse merda de tarefas de se fazerem curandeiros – sempre com muito dinheiro envolvido (a pastorinha não sai de casa por menos de 500 reais, preço de cura na periferia).

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS1: Jesus apareceu como criança no Templo, aos 12 anos. Mas não curou ninguém. Depois disso, sumiu, voltando só na idade adulta. Fazer de crianças pequenos santos milagreiros não é coisa de Jesus. Garanto. Se há criança “curando” gays, o pai deve, mesmo se desescolarizado e fanatizado pela estupidez de evangélicos, ser enquadrado na lei que proíbe o trabalho infantil ou a exploração infantil. Por muito menos, vários entraram na justiça contra Sílvio Santos, por conta do trabalho de Maísa, quando ela era criança – lembram? Aliás, Hélio Bicudo, certa vez, chegou mesmo a questionar na Folha de S. Paulo o trabalho de crianças postas como modelos de desfile etc. Mas se é uma negra, com pais pobres e desescolarizados, deve-se perdoar? Não! Essa criança deve ser posta numa escola laica que lhe diga que ela não tem poder algum, que ela não é enviada de Deus. É preciso lhe dizer que, por enquanto, ela é, talvez, só enviada do demônio, o demônio da burrice que assola o Brasil (o Brasil de Bolsonaro).

PS2: Temo que o problema da menina curandeira vire um problema para nós todos. Veja o que ela diz; “Estudo muito porque eu quero ser juíza, além de cantora. Achei lindo uma juíza jurando sua decisão colocando a mão sobre a Bíblia”, diz. Vai que passa o anjo Lúcifer, escuta isso e realiza o desejo da menina. Será que precisamos de mais gente desse tipo no âmbito do Direito? Já não há demais esse tipo de gente? Já imaginou um dia vendo essa menina gritando Impeachment com a Bíblia na mão?

Foto: menina Vitória de Deus, foto da Folha de S. Paulo (sem créditos).

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12 Responses “Que o papa e as crianças evangélicas saibam: heterossexualidade é que é desvio”

  1. LMC
    30/08/2018 at 18:34

    Aqui no Brasil,o governo é dono de banco,
    de correio e de companhia de petróleo.
    Nossa colonização vinda de Portugal
    foi muito boa…o Estado é forte e a
    iniciativa privada é um demônio.Não
    estou defendendo privatização,mas
    pensando no texto do PG no Facebook
    que escreveu sobre este tema.

  2. LMC
    29/08/2018 at 18:03

    Depois falam da colonização portuguesa…
    Estes pastores como esta menina copiam
    aqueles pastores americanos debilóides
    que fizeram campanha pro Trump.
    Malafaia que o diga.

    • 30/08/2018 at 11:46

      LMC não tem nada a ver o que você falou aí sobre comparar as colonizações. Você não consegue pensar sem comparação tola?

  3. Vv
    28/08/2018 at 23:48

    Um homem fazer sexo ativo com mulheres trans e mulheres cis é um sinal de homossexualidade do ponto de vista filosófico?

    • 29/08/2018 at 11:15

      Meu caro, que tal você se perguntar por que as pessoas acham que ser hétero é normal e homossexualidade é desvio? A filosofia inteligente não acha que se deva perguntar pela homossexualidade, e sim pela heterossexualidade.

  4. Wellington Amorir
    28/08/2018 at 00:06

    Texto sem pé nem cabeça. Apenas uma apresentação sumária de uma homossexualidade envergonhada.

    • 28/08/2018 at 09:03

      AMORIR essa sua reação parece que te denunciou heim?!

  5. anabella freire cavalcanti
    27/08/2018 at 23:53

    por que essa pirralha não vai brincar de boneca? de preferência, a barbie!

  6. Celio
    27/08/2018 at 21:57

    Talvez! Mas uma coisa é certa, a falta deles atrasou o seu. Negar a contribuição do evangelho de Jesus Cristo para a humanidade, e também as consequências do abandono dele pela sociedade, é tolice.

    • 28/08/2018 at 09:05

      Celio, ninguém negou nada de Jesus no meu texto. Meu texto não é sobre Jesus.

  7. 27/08/2018 at 15:49

    Coitada dessa pequena.
    A evangelização e os mandamentos da bíblia atrasam o desenvolvimento intelectual das crianças.

  8. LMC
    27/08/2018 at 13:45

    O Brasil virou um hospício:candidato a
    Presidente “de oposição” quis visitar
    um ex-Presidente preso.Uma negra
    faz pregação contra gays,quando
    sabemos que o nazismo perseguia
    negros e gays ao mesmo tempo.É ou
    não é o Febeapá?kkkkk

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