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16/12/2017

A escola não poder falar de sexualidade? Quem disse isso?!


Este artigo é destinado ao público em geral

A escola pode ser instrutora sexual das crianças. E isso por uma razão simples: sempre foi, e não encontrou substituto para tal. Ao menos a escola moderna, aquela nascida com o capitalismo, sempre esteve nessa tarefa. A escola nasceu não exclusivamente por conta da modificação do trabalho ou das exigências do mundo moderno de socializar o “ler, escrever e contar”. Antes de tudo, ela nasceu como instrumento moral. Só bem mais tarde suas disciplina viraram as “disciplinas” como a conhecemos agora, com regras para aprender conteúdos como a matemática ou a língua regional etc.

Se olhamos os sinetes das escolas do início da modernidade, veremos que eles contém cenas disciplinares. Se olhamos a visão posterior, dos revolucionários franceses, a questão moral se repete: surge a figura da mulher professora acolhendo a criança no colo. Só a análise marxista mais durona é que insiste em não perceber que a escola da modernidade se fez presente como um substituto legítimo do lar. Um dos historiadores da infância mais conhecidos, Philippe Ariès, dissertou bem sobre o assunto, lembrando como que os colégio dava regras de comportamento para a cidade, e não o inverso. Bairros inteiros, ainda hoje, e mesmo no Brasil, comemoram festas que eram festas exclusivamente intra-muros, e que pela importância da escola como “lar”, saltou os muros da escola.

A educação sexual das crianças e jovens, por isso mesmo, sempre foi feita nas escolas. A educação com discussão sobre gênero nada é senão uma continuidade da escola moderna no fluxo da “missão civilizadora da capital” (Marx). O indivíduo que quer hoje que na escola não se discuta “gênero”, “homossexualidade”, “teoria Queer”, “aborto”, “feminismo”, “abuso sexual” etc. não está optando por ser conservador, está optando por ser um barrigudo monumento da ignorância. A escola conservadora, em todo lugar do mundo, fez educação sexual. Nunca deixou para a família um tal encargo que, por sua vez, pedia que a escola assim agisse.

Meu pai foi diretor de escola pública boa, vinda dos anos quarenta para o cinquenta e adentrando os anos sessenta. Era praxe ter nessa escola, além das aulas de biologia, onde se falava de sexo a partir do tema oficial da “Reprodução”, também as aulas de Literatura, onde se falava de sexo a partir dos inúmeros casos de romances e contos. Mas também era praxe adentrar em assuntos mais “espinhosos”, como o uso de preservativo etc., e para tal, meu pai chamava médicos e médicas do local, para palestras semestrais ou anuais. Os pais dos alunos gostavam disso. Os estudantes adoravam. Os padres que ministravam aulas lá também davam seus pitacos. Se eram muito conservadores, tinham de enfrentar as piadas dos estudantes – quando passei por tal escola, estávamos nos terríveis anos sessenta, época de quebra de tabus.

Claro que o tema que hoje engloba o universo “queer” não se fazia presente – a não ser para professores de educação física, para quem o tema do corpo era matéria básica. Hoje o tema é inevitável e é o centro da questão – o sexo passou para as mãos do professor de filosofia e sociologia, mas uma boa escola o integraria com a biologia, a história, a geografia etc. A medicalização do tema da sexualidade está indo embora, ainda que o tema da “saúde” tenha se ampliado como uma nova diretriz do mundo e, por isso mesmo, tenha tentado ainda deixar o médico com o monopólio dos temas ligados ao corpo. Querer hoje  vir com autoridade de símio-filósofo dizer que a escola não pode ou não deve falar de “gênero” e assuntos próximos é simplesmente um ato de ignorância de quem não conhece a escola – ou porque passou por uma ruim ou porque fugiu dela. Há esses dois casos hoje, de gente que diz que estudou, mas na hora do assunto sobre sexualidade e escola, age igual a um Frota & Cia.

Aliás, vamos ser sinceros: o símio-filósofo não tem a menor ideia do seja “teoria Queer”. Fala para a boca ficar mexendo, já que não tem assunto. Escreve só para gastar os dedos, já que não sabe escrever.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 27/11/2017

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