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16/12/2017

A escola é lugar do aprendizado do beijo gay


Este artigo é destinado ao público em geral

Muitos aprenderam a beijar no escurinho do cinema, como Rita Lee. Mas a maior parte de nós todos aprendeu a beijar na escola. Uns no recreio, outros na sala de aula, outros nas imediações da escola e, enfim, também existiram os que aprenderam no banheiro escolar. A maior parte aprendeu isso entre colegas. Outros, já no colégio, com professores. E alguns professores jovens, com as alunas! O beijo nunca foi matéria escolar curricular, mas a escola, todos sabemos, tem uma atividade extra-curricular que vale muito – e que fica para toda a vida, às vezes mais que a simples resolução da equação do segundo grau, que é bem fácil.

Como é o beijo? O beijo entre humanos é o ato de encostar os lábios na pele do outro, em geral no rosto. E dar uma estalinho assim ó: smack! Isso se você é o Pato Donald ou a Margarida. O beijo é também o ato de você encostar os lábios nos lábios de outro ou outra e, enfim, ultrapassar os limites do “selinho”, colocando a língua na busca da língua do outro, em um movimento que requer habilidade para exista a sensação de penetração. As meninas devem sentir no momento do beijo algo escorrer na vagina, os meninos devem sentir algo como uma tentativa de ereção do pênis. Se isso não ocorrer a atividade extra curricular não foi executada a contento, e o bom que é que o grupo seja desfeito e se inicie nova parceria, para o que o trabalho seja realizado a contento. Algumas crianças fazem isso vorazmente, e experimentam a escola toda, outras fazem isso com um grande recato, e passam todo o tempo da escola tendo feito apenas uma atividade extra-curricular.

A escola é o lugar do aprendizado do beijo. Isso quer pais, professores, diretores, pastores, deputados e filósofos conservadores concordem ou não. No mundo todo é assim. No mundo todo também é na escola que os meninos começam a ser atraídos não só por meninas, mas por outros meninos. E as meninas podem também ser atraídas por outras meninas. No passado, o beijo gay feminino era mais fácil. As amigas podiam sair da escola de mãos dadas. Hoje, é fácil para todos os lados. Mas “fácil”, aqui, não quer dizer impune. Gays, travestis, trans etc. são mortos por amarem. No Brasil, a estatística de agressão aos LGBTs é espantosa. A cada 25 horas uma pessoa dessa comunidade é assassinada no Brasil – e não por outro motivo que não o de pertencer a uma tal comunidade. (1) O Brasil é um país de mal-amados também.

Os professores foram estudantes e sabem disso tudo. Todos os que foram estudantes sabem disso. Mas é claro que essa atividade extra-curricular não foi executada de modo bem feito por todos, além do mais, nem todo mundo no Brasil foi aluno. Há os que fugiram da escola, há os que ficaram mas não se integraram no extra-classe, há os que eram muito feios e antipáticos e, por fim, há os que tinham bafo. Uma boa parte dos conservadores adultos, hoje, que reclamam de tudo que alude a sexo na escola, é gente que tinha bafo. Ou eram nulidades na escola em todos os sentidos, e ninguém os quis beijar. Nem beijo gay e nem beijo hétero ocorreu com essa gente. E eles se tornaram militantes contra todo tipo de relação amorosa na escola, e em qualquer lugar. E mais interessante, é gente que tem uma preocupação com a sexualidade alheia de modo incomum.

O beijo escolar sempre foi matéria extracurricular e sempre também foi “conteúdo transversal”. Vai continuar sendo. E será até melhor se, no campo curricular, vier acompanhado de “estudos de gênero e sexualidade”. Juro! Vai ser mais proveitoso. E isso não irá tirar o tesão da garotada. Pois os estudos de gênero não são necessariamente de um iluminismo atroz, que banalize tudo e tire o encanto do beijo roubado, escondido, nos corredores do colégio.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. São Paulo, 27/11/2017

  1. O número de mortos negros é 23 por cada meia hora! Claro que, neste último caso, as mortes não estão diretamente ligadas a motivos raciais, mas é também um índice assustador se imaginarmos que o número de mortes de brancos bem caindo e a de negros subindo, mesmo considerando que o Brasil agora é um país em que há mais gente se declarando negra).

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