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16/12/2017

Crianças tocando adultos … no cérebro!


Texto indicado para o público em geral

O ato sexual é brutal, e por isso é bom. Como? Temos de lembrar da piada célebre de Wood Allen, cineasta formado em filosofia: “O sexo é sujo? Só se for bem feito”. Ou mais esta, também dele: “O sexo sem amor é uma experiência vazia. Mas como experiência vazia é uma das melhores”. Quando não entendemos que sexo é fazer do outro um objeto, claro que segundo delimitações mútuas, não entendemos a vida. Há alguns intelectuais que não entendem a vida.

Por esses dias, vi num jornal um comentário crítico (Folha, 24/11/2017) contra os que se preocuparam demais com a sexualização no episódio da menina tocando o homem nu durante a encenação da obra de Lygia Clark. A ideia da crítica era a de que as pessoas que se insurgiram contra a performance enxergam no sexo sempre um ato de violência e no desejo sempre um ato de posse. Ora bolas, mas o que se deveria enxergar? Se sexualizamos e levamos até o fim um desejo, o ponto de chegada estritamente falando, é sim o gozo, que depende de gana e força, e isso implica também em posse (sem contar que atingir o cume faz parte da metafísica da Europa – diz Sloterdijk, em Ensaio sobre a intoxicação voluntária).

A definição de desejo (eros) de Platão, que seguimos no Ocidente, é exatamente esta: falta que se quer completar pela posse. O que seria o amor senão isso? A quem nada falta, não há desejo de nada. Um amor assim, que não fosse desejo do que não se tem, não seria amor humano, ou seja, não seria amor, e então não teríamos toda a literatura que temos sobre o amor, que envolve ciúmes, guerra, morte, tragédias etc. O amor é terrível. Ele não é mau nem bom, é terrível. Nas religiões, então, nem se fale, o amor nunca se faz longe da busca da eliminação do deus do outro – especialmente na teia dos monoteístas atuais. Freud já chegou a explicar: o beijo é um mordida sublimada – pode-se não concordar, mas desprezar essa indicação seria loucura.

O sexualidade e o amor andam juntos, são praticamente a mesma coisa sob o domínio do deus Eros. Se assim não fosse não seríamos o que somos, os humanos. Mas como somos “os humanos”? Somos capazes de inteligentemente saber dosar, ao gosto do outro (para ter prazer e dar prazer), o nível de objetificação no qual colocamos o parceiro de sexo. Muitos analistas do sexo não fazem sexo e não sabem disso – são como Kant, que nunca entendeu a objetificação necessária ao sexo e, por isso, inventou o casamento como permissão mútua para o que ele via como descumprimento do seu imperativo ético, o de não usar outro ser humano como meio.

O saber do sexo é um saber normal, que as crianças que são postas em contato com os corpos de crianças e adultos, com regras e pedagogia de suas sociedades, aprendem e podem, então, viver na cidade sem se transformarem em abusadores sexuais. As crianças aprendem o amor corporal e a dor corporal só em contato com o corpo dos colegas, pais, amigos, coleguinhas e, a partir de certas idades, parceiros de namoro e sexo. Um ser sem corpo, criado sem contato, tem tudo para se alguém cruel. Anjo tem tudo para ser cruel, e não à toa Lúcifer foi o principal deles. Aprendemos a  lidar com o nosso desejo quando o proto-desejo é exercido e iniciado nos processos de sublimação, ou seja, nas transformações que aprendemos para poder lidar com o corpo alheio e o nosso em permanente contato.

O tabu do incesto não funcionaria se o sexo não fosse algo do âmbito da objetificação, do “pecado”, da capacidade de “pegada”. Quando nos deparamos com mãe e irmãs ou irmãos ou pai, pensamos: posso até ter tesão neles (o que é difícil), mas não consigo me imaginar fazendo sexo com eles, pois teria que, em determinado momento, submetê-los, tirar deles prazer e, mais difícil ainda, esperar prazer deles tirados de mim. Imaginar a bela mãe do amigo gemendo no sexo é gostoso, mas imaginar isso com a nossa mãe é um pensamento do qual fugimos. A questão da violência e da submissão, que no âmbito do sexo é a luxúria, nos arrasa se a trazemos para o âmbito familiar. Mas sem a luxúria, que Santo Agostinho usou para sexualizar o pecado original de vez, não seríamos humanos. Seríamos como Adão e Eva, infelizes com a felicidade do paraíso. Adão e Eva eram como irmãos antes do desejo. Já imaginaram casamento mais chato e mais fadado ao fracasso?

Assim, não é pelo desvirtuamento do que é sexo, amor e desejo que temos que criticar os que surgem como caçadores de pedófilos e os que instrumentalizaram o ECA para atacar a arte (e não foram poucos os tolos). Não é pela ideia falsa, que amor e violência são água e óleo, que temos seguir nossas reflexões. Temos de alertá-los, os conservadores que se insurgiram contra a performance da peça de Clark (e alguns intelectuais da esquerda que romantizam o amor erradamente), com a seguinte pergunta: o que ocorre com vocês mesmos que não sabem distinguir, em seus  próprios corpos, os níveis de objetificação requisitados pelo sexo? Pois a maior parte dos que se insurgiram contra a tal “sexualização da criança” é gente que sabe da violência do sexo, mas não sabe que o segredo do amor é exatamente a educação dos desejos, e que tal educação só vem pelas experiências. Faltou a tais pessoas um pouco de epicurismo: a educação dos sentidos, saber dosar o quanto um beliscão dói e o quanto ele é uma agressão ou não.

A criança exposta ao homem nu pode estar aquém de curiosidade pelo sexo, mas pode, sim, estar também interessada no homem nu como aquilo que a põe na condição de jovem em ato proto-sexual. Mas a presença da mãe, ali, é o elemento educativo. E pelo comportamento dela, da mãe, e dos demais presentes, é que a repressão à criança se dá e abre o campo da sublimação. Ela, a criança, deve aprender que, naquela momento, a performance não é sobre sexo. Ela deve aprender que seu corpo tem que reagir como o próprio corpo do artista, dessexualizadamente. Essa é uma boa experiência. Pode tudo dar errado? Pode! Tudo na vida pode dar errado. Mas não deu errado no MAM.

O amor-desejo, o sexo, tudo isso é aprendido. Naturalizar de modo tosco tais coisas é uma escamoteação. Somos jogadores que preparam a cada dia jogadas novas para adversários novos que possuem outros esquemas. Em suma: o corpo nos dá a medida nossa e as várias medidas dos outros. Se não participamos de experiências corporais variadas podemos nos tornar monstros fantasmagóricos. Para que as experiência sejam feitas de modo satisfatório temos pais, escolas, professores, amigos e, enfim, instituições culturais consagradas – o MAM é uma delas. Desde pequenos, seguidamente, cumprimos o ritual de uso do corpo, se não aprendemos isso satisfatoriamente, poderemos nos tornar em seres não adaptados. Abusadores de crianças, sejam patologicamente pedófilos ou não, em geral foram crianças cujas experiências com o corpo não puderam ocorrer a contento. Não tiveram mães para levá-los na peça do MAM. Muitos dos reclamões do episódio (inclusive os que o apoiaram) são inadaptados. Eles se colocam no lugar do ator da peça e imaginam a criança tocando neles, e então, começam a ter ereções. Não entendem que a criança está se educando e que o artista já está educado, e que o jogo ali até pode ser sexual, mas com graus de sublimação que nos fazem sermos chamados de civilizados.

Em suma: posso ter tesão por uma mulher que dá de mamar no ônibus, mostrando um pouco os seios. Posso não ter. Posso até sentir nojo. A sublimação vem pela minha reação civilizada: se tenho tesão, desvio os olhos e começo a rir por dentro dizendo: “meu Deus, olha só a minha cabeça!”.

A ideia de sublimação é ausente da cabecinha dos que condenaram o episódio, mas também da cabecinha dos que acham que amor e violência (e um pouco da “sujeira”) podem se separar. Em ambos os casos, é gente que não sabe nadinha de como se comportar num motel com uma mulher ou um homem ou qualquer outro plutoniano.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 13/08/2017

Gravura acima: Zeus e Ganimedes, de Wilhelm Böttner

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3 Responses “Crianças tocando adultos … no cérebro!”

  1. Hilquias Honório
    25/11/2017 at 02:21

    É legal ver como essa teoria do Kant sobre sexo e casamento é usada por téologos evangélicos e até padres reacionários da moda, gente que gosta de reiterar o senso comum. A questão é que muitos nem sabem quem foi o Kant.
    Mas fico feliz que o professor ainda seja uma ilha de, não há outra palavra, outro nome, Filosofia!

  2. Márcio
    24/11/2017 at 15:13

    Paulo, a jornalista Joyce Hasselmann, em seu programa de rádio, só se refere ao artista da exposição do M.A.M., como o “peladão do MAM”, jocosamente. É uma tosca, sem rosca, discípula do Olavão.

    • Matheus
      24/11/2017 at 16:05

      É uma coitada que começou como vlogueira de última categoria do youtube que consegui chegar ao status de “jornalista”…

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