Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

29/05/2017

Nossa boa religiosidade atual: entre William James e Peter Sloterdijk


Um bom leitor europeu do pragmatismo americano tradicional? Este: Peter Sloterdijk. Melhor ele fica quando o autor escolhido é William James, nos estudos de religião. A nova publicação em alemão do clássico de James, As variedades da experiência religiosa, traz um estupendo ensaio de Sloterdijk. Neste, encontramos o significativo trecho:

“Seu [de James] caminho foi aquele de uma metarreligiosidade sensível e estimulante, na qual o interesse em  religião tinha de substituir a própria religião. Essa substituição era algo que James não considerava como uma troca desfavorável; o interesse em religião, sendo suficientemente uma hipótese viva, pode tornar supérflua uma sólida crença religiosa. Assim, James é o aliado natural daqueles que têm razões para se emancipar da religião através do interesse em religião.” (In: James, W. Die Vielfalt religioeser Erfahrung: Eine Studie über die menschliche Natur. Frankfurt in Main, Inselverlag, 2014). (grifos meus).

De certo modo, esse é um efeito tardio da laicização. Esta, sabemos, iniciou-se contra a fé cristã, contra Igreja, mas depois abrandou-se e entrou no compasso de convívio com a religião. Muitos dos que ouviram as palestras de James, no final do século XIX, eram harvardianos educados na infância na fé cristã protestante, mas talvez, por formação científica, em conflito com a formação moral básica. James explicava como que era diferente para eles ouvirem um dogma ou verem uma prática cristã, mesmo não a seguindo, e se defrontarem com elementos de outras religiões. A prática cristã sempre faria algum sentido, mesmo que abandonada. Ele diz: ela “acende uma centelha” (uma expressão do livro The will to believe). Então, ele ensinou também que uma “hipótese viva” era aquela que poderia “acender uma centelha”. Não mais a centelha da exclusiva submissão aos dogmas e práticas aprendidas na infância, mas a da “metarreligiosidade sensível e estimulante” que um não-religioso, porém altamente escolarizado e culto, pode carregar consigo no tratamento que temos de enfrentar no mundo laicidado, diante da “pluraridade das experiências religiosas”.

James ensinou como que a religião pode continuar fazendo sentido para indivíduo de um tempo laico.

O processo de laicização é, para nós todos, sabemos bem, algo relativamente irreversível. O papa Francisco I sabe disso. Os outros papas – até mesmo Ratzinger ou talvez ele mais que os outros – também souberam. Mas, entre os combatentes anti-religião e os, como Peter Sloterdijk e eu mesmo, são jamesianos, o programa metarreligioso é um caminho comum, natural. Um benção laica de quem recebeu a benção crista. É difícil não concordar com Sloterdijk quando ele diz que isso forma sim um caminho de desgarramento da religião não na negação dela, mas na sua transformação, dentro de nós, por meio de um reencontro panorâmico com as experiências religiosas de diversas ordens – a “variedade”, de James.

Essa metarreligiosidade panorâmica de James, que nós relativamente incorporamos na filosofia da religião e ciências da religião atuais, conforme a menor ou maior inteligência nossa, pode nos lançar a um patamar – e de fato penso que é isso que ocorre – que não é estranho até mesmo aos que se mantém em uma fé única, como os padres estudiosos, os padres filósofos. Vamos a um patamar de liberdade em religião que James mostrou atingir de uma maneira que lembraria Nietzsche, mas que o filósofo alemão até naquilo que este tinha de melhor, que era seu senso de humor. A metarreligião do filósofo pragmatista americano lhe deu condições de fazer seu espírito ganhar espirituosidade:

“Quem sabe se a fidelidade dos indivíduos aqui em baixo às suas miseráveis supercrenças não seja para ajudar a Deus, na realidade, a ser, por seu turno, mais efetivamente fiel às suas tarefas mais excelsas?” (final do capítulo 14 de The varieties of religious experience).

Parece-me que em tempos como os nossos, em que a laicização continua dando seus passos, esse tipo de capacidade de leveza de James é o bom fruto da postura da metarreligiosidade. No destaque que escolhi, a divindade se torna então um amigo, não um senhor distante que busca respeito de criacinhas submissas e medrosas. Entre o Deus dos filósofos, para quem não se pode rezar, como disse Heidegger, e o Deus que os cristãos conhecem, que é pessoal, cabe o Deus de James. Este Deus é aquele para quem a pessoalidade orienta, humoristicamente, para responsabilidades de uma tarefa posta por si mesmo.

Já imaginaram Deus olhando para os mortais e dizendo, “ah, esse meus filhos ainda acreditam em mim, então eis que tenho de continuar aqui, firme, no plano da criação”. Essa sutileza, essa ironia interessante, digna dos melhores padres da Igreja, ou dos grandes filósofos religiosos, é também uma postura filosófica. Mas, de modo melhor, destituída da sina de Heidegger. Pois este aí é sim um Deus dos filósofos, mas para o qual não só podemos rezar como devemos rezar. Se não o fizermos, ele se esquece de seu próprio plano.

Dizer que essa frase de James é uma frase exclusivamente humorística é não entender a metarreligiosidade do pragmatista. A frase de James é profunda. Pois ela traz de volta, pela capacidade da metarreligiosidade, uma relação pascaliana com Deus. Aliás, James nunca deixou de lado Pascal e sua aposta. Não se trata de trazer Deus para o campo da não-crença, como Pascal o fez – pois a aposta de Pascal não pode convencer ninguém a tornar-se religioso e nem mesmo justificar fé, claro –, mas o de, antes, conduzir-nos à capacidade de olhar para Deus em tempos laicos. Sinto-me completamente confortado diante da mitologia cristã se posso, sinceramente, ouvir a frase de James. Que tal um Deus esquecido? Que tal um Deus que não possui superpoderes a não ser o superpoder de nos programar para nos lembrarmos de atiçá-lo a continuar seu plano por conta da nossa oração?

Essa ideia de James é aquela que percorre todo e qualquer filme de ficção atual. Mas não é também um Deus com um pé na Terra? Alguém que programa uma rede imensa de celulares para que estes o chamem a tal hora, de modo que ela possa nada fazer senão apenas regular os próprios celulares e dar continuidade a tudo. Celulares programados para que Deus continue o plano excelso que ele mesmo fez! Essa expressão é aquela obtida por quem, como a águia americana, sobrevoou inúmeras experiências religiosas. Alguém cuja religião é esse sobrevoo.

Muitas frases de Jesus são sutilmente irônicas em relação a Deus. Ou melhor dizendo, em respeito à fé católica, misteriosamente irônica.  Já repararam?

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 03/01/2017

Tags: , , , , ,

One Response “Nossa boa religiosidade atual: entre William James e Peter Sloterdijk”

  1. Pedro de Sousa Portela
    05/01/2017 at 02:48

    Sim, e reparei também que o maior conflito que Jesus teve em sua vida foi contra os religiosos, a quem ele acusava de colocarem pesos sobre as costas dos outros, pesos tais, que eles mesmos não faziam nada para os mover. Por isso, Jesus pedia que aprendessem dele, porque seu jugo era suave e seu peso leve. Sempre que vejo pessoas religiosas sérias demais, carrancudas demais, separatistas demais, sempre prontas a receitar mil e uma tarefa, ritos e mandamentos, me lembro da leveza proposta por Jesus.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo