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22/09/2017

Por que precisamos de Jesus?


Nossa democracia liberal pode viver sem Deus, mas não sem Jesus.

Ser liberal significa participar de um modo de vida que busca a paz e, claro, nesse contexto, fazer com que a humilhação dos fracos pelos fortes seja amenizada. A cristianismo tem a ver com tal forma de pensar a vida social e política, e criou mecanismos psico-políticos que ajudaram em muito a democracia liberal vingar, talvez tanto quanto a sua outra fonte de alimento, a sociedade de mercado no sentido capitalista. A sociedade de mercado precisa do perdão e da paz,  e tende a ampliar os que podem participar da compra e venda de tudo, dando vazão então a mecanismos de desejos democráticos. Nada melhor que o cristianismo para servir de tapete para um tal desfile. Mas, essa psicologia política vinda da religião de Jesus é anterior ao próprio cristianismo.

Como nasceu a cultura do perdão e da paz cristã?

Ao contrário do que muitas vezes aprendemos na escola, os mecanismos de escolha de um sacrificado para aplacar a ira do deuses, não tem a ver com processos mágicos, mas com mecanismos psicológicos que foram assumidos por chefes e governantes. A ideia de “bode expiatório” é um deles. Trata-se de um expediente que se encontra na cultura judaica bíblica. A antropologia de René Girard explica isso. (1) Mostra que os grandes chefes foram bons psicólogos sociais e logo perceberam o poder de contágio da violência, e também os mecanismos para fazê-la desviar-se. Como?

Quando um grande grupo entra na guerra de todos contra todos, um dos únicos mecanismos possíveis de controle, para a continuidade de algum governo e para a própria preservação do grupo, é o expediente vindo da uma propriedade inerente à violência contagiosa. Sabemos, a violência se espalha rapidamente, contagia muitos, mas é facilmente canalizada ou retransportada para um único elemento, de preferência um elemento frágil. O mais frágil permite ser agredido por todos, possibilita a todos a satisfação de poderem ser, em algum nível, agressores; então, satisfaz o desejo de gozo pela violência que borbulha na sociedade que vive o contágio da agressividade. Quando os grandes chefes perceberam isso, trataram de ver quais dos mais fracos eram solitários, sem herdeiros ou parentes, de modo que a violência sobre eles pudesse ser exercida sem o perigo do recomeço, pela vendeta. O fraco escolhido não basta ser fraco, precisa ser alguém sem uma família ou amigos que revidem. Foi assim que os primeiros agrupamentos humanos logo puderam ser empurrados para o sacrifício de um animal. Poderia ser um bode imolado ou mandado para o deserto. Poderia ser uma pessoa. E também, claro, um grupo todo. Logo sem seguida, em todos os tempos, vimos que o que segue a essa escolha do tal “bode expiatório”, é a calmaria. A situação catártica se faz, e tudo soa como se a paz se fizesse por se ter cumprido uma ordem que não é dos homens, mas divina, tamanho é o seu poder de fazer tudo voltar ao que era antes. Quando a paz vem assim, ela tem sabor divino. Foi esse mecanismo presente na cultura de Moisés que ressurgiu na própria figura de Jesus, o tal “cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”.

Jesus veio para servir de bode expiatório, promover catarses, catalizar e recolher a violência, e então, depois disso, pelo seu não revide, faze vingar a paz. Desse modo, essa sua missão só poderia ser divina. E a cultura do dar a outra face, do abraçar o sofrimento, de recolher e lamber feridas dos outros, de cuidar para os humilhados não viessem a se re-impor pela vendeta, isso tudo foi o legado maior de Jesus. A modernidade soube surgir a partir dessa cultura, e teve seus filósofos e teólogos – com Agostinho à frente – no trabalho de transformar a humildade – desconhecida do mundo greco-romano – em uma virtude principal. (2) Feito isso, tudo ficou mais fácil para Hobbes, no sentido de extirpar a ideia da guerra de todos contra todos e de ter a possibilidade de fazer o homem não conseguir ser o lobo do homem. Depois dele, o aparentemente seu oposto, Locke, nada mais fez que dar continuidade a esse projeto de criar o estado contra o estado de natureza segundo preceitos mais individualizantes, de fazer a sociedade ser gerada por contrato, num regime de tolerância. Daí por diante, foi só esperar outros, como Kant ou agora John Rawls. Sem a ideia de uma quase mão mágica, capaz de instituir a paz, o regime do bode expiatório, a religião liberal par excellence, que é a de Jesus, não teríamos a vida que imaginamos hoje ser a única vida correta. Trata-se da vida sob o liberalismo com forte apelo ao que desenvolvemos como Direitos Humanos. Ela é tão sagrada quanto os Mandamentos. Sem ambos, achamos que não somos mais civilizados, talvez nem mais dignos de nos deslocar para cima, com o título valorativo dito “A Humanidade”.

O bode expiatório, o cordeiro de Deus ou Jesus – essas peças são as mesmas, e elas tem se construído faz milênios. O cristianismo, a sociedade de mercado, o capitalismo, o liberalismo, todos são peças pequenas dessa revolução cultural gerada pelo que é “o bode expiatório”, inerente a nós quando começamos a deixar para trás a vida nômade.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

  1. Sellier, P. Para conhecer a Bíblia – um guia histórico cultural. São Paulo: Martins Fontes, 2001, pp. 69-71.
  2. O orgulho pedido por Sloterdijk, que gera a generosidade, tem essa incompatibilidade de base com o cristianismo, na quesito sobre a humildade cristã, que por sua vez também diz querer gerar a generosidade. Cuidado com essa diferente. Veja: Co-imunismo e comunismo

 

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12 Responses “Por que precisamos de Jesus?”

  1. Giuliano
    18/06/2016 at 12:25

    O atual momento político não contradiz a tese do bode expiatório. Afinal, já não houve o sacrifício? Porque o afã de violência não é aplacado?

    • 18/06/2016 at 14:34

      Acho que você não leu o texto!

    • Giuliano
      18/06/2016 at 16:44

      Partindo do texto : “(…) um dos únicos mecanismos possíveis de controle, para a continuidade de algum governo e para a própria preservação do grupo, é o expediente “(…) de canalizar a violência para um único elemento : o bode expiatório. Mais a frente :”Logo sem seguida, em todos os tempos, vimos que o que segue a essa escolha do tal “bode expiatório”, é a calmaria”. Bom tá no texto. Aplicando-se isso a situação política atual pode-se dizer que a esquerda, mais especificamente, a Dilma foi o bode expiatório. Só que não veio a calmaria e a guerra continua tão acirrada quanto antes.

    • 18/06/2016 at 18:20

      Giuliano, meu Deus! Seu mundo é o de Dilma? Você só lê o jornal do momento, conflitinhos políticos. O texto se refere à barbárie humana. Putz! Além disso, você não entendeu o que é bode expiatório! Não é possível!

    • Giuliano
      18/06/2016 at 20:20

      E porque não vale para os “conflitinhos políticos” ? E porque não consegue dar conta do presente? Sinceramente o que me interessou não foi a noção do “bode expiatório” mas sua função. Interessante é saber que existe uma demanda por culpados. Que é uma forma de apaziguar a sociedade, promovendo uma espécie de catarze social, sendo assim pode nos ajudar a compreender melhor a nós mesmos e ao mundo mesmo esse do “agora” dos “conflitinhos” sem importância. Só que não é o caso. Ele não dá conta do “conflito de jornal” . Então voltemos nossa atenção para barbárie humana esta paradoxalmente mais fácil de entender, talvez porque se refira a tudo e no fundo a nada.

    • 18/06/2016 at 20:55

      Giuliano, leia com calma, pensando (catarse, com “s”, oK?). Veja a razão disso estar na Bíblia. É interessante notar que você não consegue ter a dimensão do que está envolvido no texto.

  2. Aldo Pereira
    18/06/2016 at 11:43

    A única finalidade das religiões é prender, mas é preciso separar a religião de Jesus. Não resta dúvida que Jesus foi o bode expiatório do ” cristianismo”, mas oque veio com ele não pode ser atribuído ao nazareno, mas a quem usou de sua passagem para fazer dele uma referência distorcida do que seria uma sociedade em paz. Ele nunca disse que vinha trazer a paz, mas a espada.

    • 18/06/2016 at 14:36

      Aldo já passou a hora de você acordar, faz tempo. Jesus é inventor de uma religião. E meu texto não é sobre o gênio que diz que uma religião é distorcida e que só você sabe qual o certo.

  3. 16/06/2016 at 20:44

    A religião não tem nada a ver com isso, a igreja sim. A religião é uma necessidade dos homens, é uma coisa pura, ninguém vive sem Deus.

  4. Matheus
    15/06/2016 at 15:15

    Professor Paulo, não sei se entendi bem, rs, no final você quer dizer que tal qual o cristianismo, “capitalismo, sociedade de mercado, e liberalismo” foram e são desenvolvidos para através deles controlarmos a violência/ódio/vingança? E nisso se assemelham à insituição do “perdão”; ou alternativamente ao “bode expiatório”?

    Vou ler mais umas 500 vezes haha. Abraço

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