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18/11/2017

Por que é possível orar a Deus?


Na literatura filosófico-teológica, não é difícil encontrar o Velho Testamento sendo lido a partir de quatro esquemas simbólicos de apresentação de Deus. Citando Claus Westermann, Paul Ricouer lembra desses esquemas: o Deus que salva, ou seja, que liberta de um perigo exterior; o Deus que abençoa, isto é, que tem o dom da criação, da fecundidade, da Terra Prometida ou da existência repleta de sentido; o Deus que pune, isto é , que se declara contra aqueles que feriram os mandamentos da comunidade de Israel; o Deus misericordioso, aquele que sofre pela sua própria cólera, e que então se arrepende e perdoa.

Esse Deus forja o seu si-mesmo nessas quatro formas, mas só o faz em estrutura dialogal, ou seja, na requisição de contrapartidas humanas. A cada esquema corresponde um tipo especial de atuação humana. A trama bíblica se desenvolve assim nessa história, revelando partes distintas e uma atuação do homem e de Deus que não deixam o texto cair na monotonia, mas, pelo contrário, preenche a trama de novidades. São justamente essas novidades que encantam o leitor. Um Deus único poderia ser um chato se tivesse uma personalidade única. Um grande herói de um texto não daria páginas atrativas se agisse segundo uma linha reta, com a imposição do tédio. Deus único derruba o politeísmo na medida em que assume condutas arrebatadoras, conflituosas, e requisita do homem, na estrutura dialogal do texto, respostas inventivas ou, não raro, nenhuma resposta correta. Nem sempre se sabe o que Deus quer!

Paul Ricoeur faz mais: ele articula esses quatro esquemas de conduta de Deus com quatro categorias literárias. Assim, ele estabelece a passagem da polifonia dos gêneros literários à polifonia das figuras do si-próprio de Deus. Com isso, segundo a minha leitura e a minha escolha temática, Ricouer abre chances para explicar a terrível frase de Heidegger, aquela que diz que o Deus dos filósofos é um Deus para o qual é impossível rezar. Cito Ricoeur e, em seguida, explico minha questão. Ele diz:

Deus – será necessário dizê-lo? – é nomeado diversamente na narração que o narra, na profecia que fala em seu nome, na prescrição que o designa como origem do imperativo, na sabedoria que o busca como sentido do sentido, no hino que o evoca na segunda pessoa. É por isso que a palavra Deus não se deixa compreender como um conceito filosófico, ainda que se trate do Ser no sentido da filosofia medieval ou no sentido de Heidegger. A palavra Deus diz mais do que a palavra Ser, porque pressupõe o contexto completo da narrativas, das profecias, das leis, dos escritos de sabedoria, dos salmos etc. (Amor e Justiça, Edições 70, p. 60).

O que Ricouer comenta em seguida – e este é o ponto no qual coloco meu foco – é que Deus aparece sob a regra da polifonia dos gêneros literários que pode corresponder à polifonia das figuras do si-próprio (ou si-mesmo), e também, por outro lado, é uma unidade sempre diferida que corresponde ao Nome inominável. Ora, aqui, se posso colocar minhas próprias fichas no jogo, digo então que é essa dupla perspectiva permitida pela Bíblia que a torna um texto espetacular. De um lado, o mistério do inominável, de outro, as grandes aparições de um Todo Poderoso complexo regrado por gêneros de narrativas que respeitam essa complexidade e a constroem. Para um Deus assim, que não se resume ao Ser, a conversa do homem em forma de oração faz sentido. Em alguns momentos, é claro, se torna até mesmo uma “conversa de homem para homem”. Um Deus que não precisa de aguentar a crítica (como a de Xenofonte aos deuses antigos) de que está sob o jugo do antropomorfismo já que, desde o início, se apresenta, digamos, intencionalmente, com características que são as que os homens conhecem, e que são propositalmente admitidas como aquilo que entendemos. Entendemos as quatro figuras de Deus e, se o mistério do inominável permanece, isso em nada nos proíbe de fazer parte da história bíblica, nos colocando na trama e nos diálogos. Desse modo, a oração é quase que um elemento natural do leitor da Bíblia, no Velho Testamento. Ela é a conversa que regra a estrutura dialogal que forma as ações e reações de Deus e do homem.

Ricouer nota que nessa estrutura dialogal, a resposta do homem hebraico é “assombrosamente variada”. Os Salmos, então trazidos à linguagem como “palavra orante”, mostram tais respostas. E o espaço de sentido aí articulado, diz Ricouer, se mostra na forma de pólos de louvor e lamentação. Ele diz:

“Louvor do homem libertado, louvor do homem perdoado, louvor do homem abençoado por ter sido criado vivo, gozando da existência comum e dos lampejos de alegria que interrompem a trama de uma condição geralmente miserável. Lamentação do homem em perigo perante o Deus que salva; lamentação do homem pecador perante o Deus que julga; lamentação do homem afligido por desgraças que apela para o Deus da remissão e da compaixão.” (p. 64).

Ora, eis aí a história da “experiência com Deus”. Desse modo, a oração não se põe como a impossibilidade que recai diante do filósofo e o deixa de mãos atadas . Ela surge como um natural participação nessa trama, de todo leitor que se insere nesse dramático texto polifônico. Só então a oração pode fazer sentido completo, fora de qualquer aspecto mágico ou mercadológico, mas como um experiência de quem quer participar da história contada no texto bíblico fabuloso. Uma experiência literária e, claro, de vida.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. São Paulo, 19/06/2017

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16 Responses “Por que é possível orar a Deus?”

  1. Alysson
    24/06/2017 at 11:10

    Essa ânsia da prova que alguns comentários apresentaram é tão tola. Além disso, o antídodo para esse tipo de questionamento já está na própria idéia de inominável. É o que menos importa diante das possibilidades relacionais infinitas que essa polifonia “sem nome” nos permite. Oração é memoria mas também criação.

    • Ramiro
      20/08/2017 at 22:42

      Não me parece tolo conhecer as provas de existência de Deus e suas refutações, Alysson. O que tens contra “um primeiro nível de reflexão” na teologia? És Carmelita e mística? Teu bom amigo não te oferece resistência?

  2. Sergio fonseca
    23/06/2017 at 01:06

    E a necessidade da reciprocidade e um imperativo para que nao sejamos loucos!!!

  3. Sergio fonseca
    23/06/2017 at 00:58

    O inominavel certamente pode ser preenchido pela oraçao. Mas, quando oramos, nao estamos fora de qualquer possibilidade de entendimento racional? Com isso, resta a pergunta fatal: como podemos ter a certeza da reciprocidade comunicativa? Salvo se a oraçao fosse apenas uma lamento projetado num vacuo daquilo que nunva podera ter o retorno de uma confirmsçao ou esperança de resposta. A oraçao ficaria numa situaçao pior do que as velhas cartad engarrafadad do humanismo!!!

    • 23/06/2017 at 07:33

      O inominável não é “preenchido” pela oração. Talvez lhe falte a experiência de viver um texto sagrado, a experiência da literatura. Não precisa ser a Bíblia.

  4. LMC
    22/06/2017 at 14:59

    Ok,PG.Mas,sobre o que você escreveu
    no Facebook sobre Safatle e Olavo de
    Carvalho existe uma diferença:o
    primeiro fez USP e o segundo,bem….Abs.

    • 23/06/2017 at 08:02

      MAS isso é que é triste, a esquerda nossa estuda para ficar burra. A direita, sabemos, em geral nasce burra.

  5. Gustavo
    22/06/2017 at 12:16

    Lula é o verdadeiro dono da friboi e joesley seu laranja! É tudo do barba! Como não pensei nisso antes! Janaína é uma jênia! Kkkkkkkk
    Douto filósofo avise à militonta da direita e olavete que existe corrupção além do Lula. Sei que é dureza para um tonto da direita crer nisso, mas tenta!

    • 23/06/2017 at 08:03

      Gustavo, o tonto é você que nem sabe onde colocar um comentário num blog. Essa sua burrice reflete na sua posição política.

  6. Ramiro
    20/06/2017 at 17:14

    Não sei, Ghiraldelli. A questão seria que de acordo com Ricoeur o Deus do AT é múltiplo nas narrativas bíblicas, e que daí o modo próprio de tomar os textos sejam o diálogo, a oração, onde esse múltiplo se estrutura em participação do homem com a história sagrada. Isso foi o que eu compreendi. Com prova da existência, eu esperava que tu referisses algo relacionado a própria busca de Deus, a “identidade da intuição”. É um argumento que está em Bergson, nas Duas Fontes da Moral e da Religião. Mas estou mais convencido agora que o teu excelente texto não se dá essa margem.

    • 21/06/2017 at 19:56

      Entrar na Bíblia é uma experiência literária que pode ser parte da “experiência de Deus”

  7. Ramiro
    19/06/2017 at 22:34

    Ou, dizendo melhor, engendra, ou faz necessária qual prova de existência?

  8. Ramiro
    19/06/2017 at 22:30

    Paulo, essa “experiência com Deus” implica em que prova de existência?

    • 20/06/2017 at 02:20

      Ramiro, meu Deus, você não foi capaz de ler uma sequer linha do que escrevi?

    • Henryk
      20/06/2017 at 08:26

      “Quanto mais me aprofundo na Ciência mais me aproximo de Deus”
      talvez essa oração curta e objetiva, implique numa prova de existência.

    • 21/06/2017 at 19:57

      Claro que não, é apenas uma prova de usar slogan. Slogan não vale nada para filósofos ou teólogos. Apenas serve para o senso comum que não tem palavras ou não quer pensar.

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