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23/06/2018

O papa Francisco entre a filosofia e a sociologia. O que é o pecado e o amor hoje?


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

As pessoas precisam voltar a sentir vergonha. “Vergonha na cara” – é o sentido dessa expressão que precisa ser recuperada. É assim que o Papa Francisco entende a vergonha – e a solicita. Ou quase isso, pois ele não está falando de honra, mas de comprometimento com um mundo melhor. Ele insiste que sentir vergonha por não superar o egoísmo e as guerras, deixando um mundo pior para as novas gerações, é motivo sim de vergonha que vários deveriam sentir.

Não vou contrariar o Papa; quem sou eu para tal?! Mas tenho de confessar que ele, às vezes, é ousado nos seus pedidos. Chega a parecer ingênuo e inócuo. Mas talvez seja mesmo esta a tarefa do professor de filosofia, o argentino José Mário Bergoglio: tornar-se ingênuo.

Uma boa parte dos pedidos e sugestões do Papa Francisco não contrariam o mundo contemporâneo. Seguem o rumo que a história parece estar tomando: abertura da Igreja para gays e mulheres. Ampliação da ideia de perdão. Recomposição da noção de ecumenismo e missão evangelizadora. Tudo isso condiz com novos ventos. Mas a Igreja é uma instituição medieval, anti-capitalista e, nesse sentido, anti-moderna. O fim da vergonha é capitalista, e tendente ao contemporâneo – faz parte do fim da moral do dever, posta em termos de filosofia por Kant, que transformou em autonomia o que já era dever heterônomo, na moral da Igreja, o obedecimento a Mandamentos. O mundo contemporâneo é menos rigoroso em termos de moral. Os estudos de Gilles Lipovetsky vem mostrando essa substituição da moral do dever pela moral do emocionalismo, principalmente o televisionado, já incorporado aos slogans das empresas. Bergoglio deveria prestar a atenção nisso.

Se o Papa Francisco quiser remar de modo mais fácil, para alcançar seus objetivos, é bom que vá pelo campo das boas ações do emocionalismo vigente. Querer recuperar a vergonha, que implica em sentir-se em dívida diante do dever, é alguma coisa que não vai vingar. Essa moral do dever acabou.

As pessoas podem serem boas. Querem ser boas. Estão muito dispostas a participar de campanhas televisivas para melhorar o mundo em diversos aspectos, inclusive em aspectos que são tipicamente cristãos, os de ajuda aos necessitados, pobres, doentes etc. Querem muito “salvar o Planeta”. O Papa empurra para o lugar certo quando surfa nessas águas, mas se associa a isso a moral tradicional, dita moderna, que é regrada por imperativos de consciência, pela ética do dever e pela ideia de responsabilidade, terá mais dificuldade de ter sucesso.

A ética do dever é, de certo modo, uma ética da liberdade. Mas a ética emocionalista é mais condizente com a “sociedade da leveza” (Sloterdijk) de nossos tempos. O pequeno sucesso de Levinas, com a ética da responsabilidade em lugar da ética da liberdade, é algumas coisa do mundo acadêmico, da busca por se ler autores ainda não muito lidos, na ânsia de fazer teses. Levinas não apresenta uma ética tão simpática aos novos tempos, a não ser que façamos algumas piruetas teóricas com ela, e ainda que ela, em si, tenha legitimidade filosófica – como, de fato, eu acho mesmo que tem.

Todavia, uma coisa é a filosofia e outra a sociologia. A filosofia dá investigações de fundamento. Pode querer colocar a responsabilidade como anterior à liberdade, como quer Levinas, e talvez, em certo sentido, como quer Bergoglio. Todavia, o ensinamento da sociologia é que não vivemos mais os tempos de Sartre versus Levinas, não cabe muito falar em “liberdade ou responsabilidade”. Cabe falar em emoção, sentimentalismo, entretenimento televisivo associado ao sentimentalismo. As pessoas estão cheias de amor para dar, mas o amor de hoje tem que passar pela “fofura”, pelo acalento dos olhos, pela disposição de coração. Não à toa são os cachorros, hoje, os objetos de investimento amoroso. Isso está longe da futilidade enquanto elemento negativo. É a futilidade, mas transformada em necessidade. Esse tipo de amor também se mobiliza pela falta d’gua na África, pelo combate ao trabalho escravo e trabalho infantil, pela vigência do respeito aos Direitos Humanos etc., pela proteção da floresta, etc. Mas não se trata do amor associado ao debate “liberdade versus responsabilidade”. Nem é o caso de invocarmos a questão da “ética do dever versus a ética consequencialista ou utilitarista”. A questão hoje é diferente. As pessoas querem a continuidade da “sociedade da leveza”. Querem tempo livre, fruição, viva de observação da fofura, jogos, tecnologia fácil e, principalmente, universalização do fim da dor. Ninguém quer sentir dor, nem as necessárias, como as do luto, ou do parto. Até mesmo o Oriente está se abrindo para isso. Leis rígidas diante do entretenimento capitalista não pegam mais nem mesmo em estados teocráticos. As mulheres de véu querem dirigir e várias querem tirar a burca e ir ao campo de futebol. O mundo quer ficar nu. O mundo quer menos canga. Isso não é liberdade, isso é desejo de leveza. O mundo não quer mais saber de Agostinho e sua versão do pecado como pecado sexual.

Bergoglio quase entende isso. Tangencia isso, mas o fato da Igreja ter nascido noutros tempos, o interrompe, o castra. No fundo, ele acha que o bem vindo pela leveza é um pecado. O bem só não é pecado se vier pela responsabilidade, pelo contraponto da vergonha, pelos sentimentos que envolvem alguma culpa. O cristianismo é uma religião da culpa. Não consegue mudar esse seu núcleo. Teme mudar isso. Toda vez que tenta, corre o risco de virar seu oposto, coisa do demônio, que é de fato da “teologia da ostentação”, da “teologia da prosperidade”. Nesse caso, temos a caricatura da Igreja.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 01/04/2018

2 Responses “O papa Francisco entre a filosofia e a sociologia. O que é o pecado e o amor hoje?”

  1. Heriberto Montero
    01/04/2018 at 21:11

    Esse papa é comunista

    • 01/04/2018 at 21:47

      Montero, tomo sua frase como brincadeira irônica. Não venha passar vergonha e dizer que não foi brincadeira, tá?

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