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16/11/2018

O Deus mágico quer voltar à escola?


[Artigo para o público em geral]

O Iluminismo criou uma cosmovisão sem precisar de Deus. O liberalismo político, que o acompanhou, separou o poder religioso, que visa obedecer a Deus, do poder político, que visa obedecer aos homens. A escola pública moderna nasceu e cresceu segundo os certames produzidos por essas duas forças e o embate com forças que ainda olhavam para o passado, a Romantismo, se opondo ao Iluminismo, e à da política associada à igreja, se opondo ao liberalismo do estado laico.

A solução da escola para esses embates, tentando adaptar seus professores, de um lado ao currículo científico moderno, de outro ao gosto de pais ainda conservadores, foi dividir as matérias. O criacionismo pode ser conversado na aula de literatura, como elemento da poesia que é a Bíblia, pode ser posto na aula de filosofia, como estudo e hipótese de uma cosmovisão adaptável ao tempos modernos, entendendo-a como literária; o darwinismo e outras vertentes do evolucionismo podem ficar nas aulas de ciências, em especial na disciplina biologia. Não é uma acomodação ruim, e pensamos assim se temos alguma capacidade de sermos razoáveis.

Desse modo, há uma nítida separação não entre fé e razão. Mas, isso não significa uma separação entre pensamento mágico e pensamento racional. O pensamento mágico, no limite, fica expulso da escola. Pois o campo da fé não inclui o campo da mágica. Uma discussão teológica, de base católica, não é mística, é filosófica. Metafísica não é sinônimo de pensamento mágico, é sinônimo de pensamento que visa o encontro com o absoluto, e em geral no âmbito do suprassensível. Assim, mesmo na aula de filosofia, onde se pode falar de criacionismo, tenta-se mostrar para o aluno que a filosofia é o anti-pensamento mágico. Ser desescolarizado é, portanto, sinônimo de ter ficado com a crença no pensamento mágico.

Desse modo, há conciliação entre o novo e o velho. Mas não se pode dizer que tal conciliação não se faça com hegemonia do novo sobre o velho. Nada que não possa ser recebido pela Igreja Católica de bom grado, sempre muito indisposta em aceitar milagres, ou seja, em dar apoio à mágica. Mas já não é assim com os evangélicos. Para estes, a base da religião é a mágica. Nesse caso, Deus não precisa de metafísica para ser aceito pelos homens. O homens apenas o tomam como um grande mágico que pode tudo, e os próprios homens de tornam crianças que acreditam em magia, que realmente acham que um senhor qualquer, meio barbudo, chamado Deus, existe em algum lugar e, com um computador na mão, conhece cada um de nós, e vai nos dar o que pedirmos, se pedirmos sempre, como filhos incansáveis e impertinentes.

Para esse segundo tipo de gente, na maior parte evangélicos (há muito católico que pensa assim também, claro!), é bem difícil achar que a escola deva separar disciplinas. Eles não entendem e nem possuem condição de entender a teoria da evolução. Já estão no magicismo, e vão tentar dizer que sem a mágica de Deus nada existiria, nem poderia haver esperança. Não deveríamos mais estar lidando com isso, com o debate nesse pé de coisas. Mas estamos. E se descuidarmos, vamos nos enredar nesse lixo de discussão, conforme for o ministro da Educação escolhido pelo Messias.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo.

 

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3 Responses “O Deus mágico quer voltar à escola?”

  1. JOSÉ FERNANDO DA SILVA
    03/11/2018 at 09:10

    A cosmovisão iluminista é filha da tradição judaica-cristã. Nela, se referenda a gênese bíblica que coloca o ser humano num patamar ontológico superior ao restante da natureza (que o deus bíblico lhe deu a missão de zelar). Eis a visão prometeica de mundo que cinde o homem da Natureza, legando-lhe um reino autônomo (o Novum Organon de Bacon e também sua obra Nova Atlântida foram precisos na determinação deste traço essencial do Iluminismo nascente). Não por acaso, a moderna ciência vem levando às últimas consequências essa “visão prometeica”. Particularmente, prefiro aderir a Spinoza e pensar que me diluo junto com tudo que existe dentro de um “deus sive natura”…

    • 03/11/2018 at 09:37

      José, num sentido pode-se dizer isso. Mas a tradição iluminista é, também, o rompimento em parte com tal tradição.

  2. Helly
    31/10/2018 at 22:32

    Eles querem criar uma verdadeira Idade das Trevas.

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