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23/07/2017

Meu Catecismo


A minha professora de Catecismo se chamava Fátima. “Dona Fátima”, dizíamos. Saíamos da aula da manhã, fazíamos a tarefa, aí já era a hora do café da tarde. Pão, manteiga, leite, café e queijo. Em seguida, Catecismo.

Bastava andar três quadras, atravessar o jardim do centro da cidade e se acomodar nos bancos da Igreja. A aula era ali mesmo. Aprendíamos as principais orações, que nos eram dadas em cópias de mimeógrafo. Jesus vinha com sua palavra que cheirava tinta e álcool. Dona Fátima era uma jovem normalista. Pensando hoje, duvido que tivesse mais que vinte anos. Mas ela não nos fazia decorar a oração, somente, ela explicava com gosto a origem do texto e as razões que teríamos para rezar aquela e não um outra. Cada oração tinha seu lugar e seu momento, sua geografia e sua história, seu encaixe e sua oportunidade. O principal: nenhuma delas vinha com carga moralista, no sentido pejorativo da palavra.

A Igreja Católica era um grande berço. A Igreja, o espaço físico, o prédio, um lugar de serenidade, de acolhimento, uma espécie de terceiro útero. Para nós, ao menos na hora do Catecismo, era uma escola, ou quase isso. Não tínhamos a obrigação de aprender, mas naquela idade poucos de nós julgava as coisas por opção ou não opção – tudo era obrigatório. Éramos comandados por algo que os adultos e professores punham para nós como navio e bússola: orgulho. Não aprender era humilhante, era não ter sido presenteado com um dom, o da capacidade de ser inteligente. Todos queríamos aprender. Quando ganhamos nota baixa, não raro chorávamos. Tirar uma nota ruim na escola nos colocava tristes, e isso se expandia para a nota do Catecismo. Tínhamos vergonha de sermos alunos ruins, e isso era muito bom para nós todos. Fomos educados para sermos homens. Nesse aspecto, até as meninas eram educadas para serem homens.

De todas as orações que aprendi, a que realmente devo exclusivamente ao Catecismo, é o Credo. Essa oração sempre me foi a mais misteriosa. Foi ela que trouxe a questão filosófica que só mais tarde, bem mais tarde mesmo, pude tomar como questão: a subida de Jesus “de corpo e alma”. Esse detalhe me foi apresentado na minha infância, e me marcou para sempre. Daquela época até hoje, o catolicismo sempre se fez diante de mim com a religião que dizia que não abandonaríamos nosso corpo.

Não digo que foi no Catecismo minha iniciação à filosofia. Não creio. Mas, com certeza, foi também no Catecismo que fui colocando mais peças no quebra cabeças que eu queria resolver: o de como encontrar uma maneira de compreender as coisas e ao mesmo tempo poder agir como alguém virtuoso. Se eu disser que Jesus não me inspirou quando criança e como jovem, é mentira. Na verdade, só me interessei pelo Velho Testamento quando adulto. Na infância e na juventude, as histórias de Jesus sempre me foram mais interessantes. Não as do tipo da de Lázaro, mas a do filho pródigo, a do bom samaritano e, principalmente, a do rico que não conseguiu seguir Jesus. Essas histórias, digamos, mais sociais, me eram mais atrativas. Era como se eu fugisse dos milagres, pois não podia compreendê-los, me apegando às partes mais sociológicas.

Talvez eu tenha sempre procurado na religião o que ela possui de compreensível, deixando para depois as partes teológicas, as partes místicas, as questões metafísicas mais difíceis. Não sei se isso foi bom ou ruim, mas foi um caminho. Devo isso ao clima laico com que a religião se fez presente na minha vida, e de como a Igreja Católica soube ser algo na minha medida.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 17/11/2016

4 Responses “Meu Catecismo”

  1. Guilherme Picolo
    20/11/2016 at 10:33

    http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/11/1833764-diplomados-viram-recepcionistas-faxineiros-e-auxiliares-de-escritorio.shtml

    Não sei qual a conclusão extrair, quando vemos pedagogos, economistas e engenheiros ocupando atribuições de nível fundamental para terem o que comer… Isso é reflexo da vulgarização do ensino superior? Falta de qualidade do ensino (culpa das instituições privadas)? A economia de Banânia suporta mais de 2% da população com nível superior? Ou o objetivo do governo é que todos os garis tenham diploma de nível superior?

  2. Edilene Marina Pouillies
    17/11/2016 at 14:59

    Que lindo!
    Tive muita identidade.
    Só que eu, com a vida , sobrevivência, deixei o conhecimento de lado e hoje tento retomá lo.
    Vc me assusta as vezes, mas mesmo assim se destaca e fico esperando suas postagens. Obrigada

    • 17/11/2016 at 16:28

      Edilene, as pessoas querem ter um lado só, mas a filosofia obriga os inteligentes a ver que eles têm mais que um lado. Retome seus outros lados.

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