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29/05/2017

A magia da Natividade


Como já havia ocorrido com sua mãe, Ana, Maria também engravidou por fora da relação oficial. Mas, exceto pela participação de anjos anunciadores, as histórias dessas duas mulheres diferem.

A história de Ana não pertence aos Evangelhos canônicos e sim aos apócrifos: Protoevangelho de Tiago, Evangelho do pseudo-Mateus e o Evangelho da Natividade da Virgem. Estes dois últimos ganharam popularidade no século XIII. Neles, conta-se que os pais de Maria se chamavam Ana e Joaquim, e que passaram vinte anos de casamento sem conseguir filhos. A pressão social e institucional caiu então como desgraça nas costas deles. Joaquim foi expulso do Templo, retirando-se para a vida pastoril, longe de Ana. Em uma noite iluminada, recebeu a visita do Anjo Gabriel, que lhe disse para voltar para casa, pois teria sim um filho. Joaquim seguiu o aviso do Anjo e se dirigiu para Jerusalém. Quando chegou à Porta Dourada de Jerusalém, lá estava Ana, e eles correram um para o outro e trocaram um abraço, segundo Tiago, mas, segundo a versão icônica de Giotto, um longo beijo na boca. Os especialistas afirmam que a cena do beijo é única na Idade Média. O beijo na boca veio para a história da arte, de modo corriqueiro, somente no século XVI. Mas, enfim, foi desse beijo que Ana engravidou de Joaquim e originou Maria. A futura mãe de Jesus nasceria de um ato alheio à contaminação do mal que afeta os homens.

Sabemos bem que muitas meninas, até muito pouco tempo atrás, morriam de medo de engravidar por meio de beijo do primeiro namorado. Várias delas chegavam a ficar assustadas após um beijo. Não era incomum desenvolverem algum tipo de gravidez psicológica e um apavoramento diante do que mãe e pai iriam falar. O beijo de Ana e Joaquim fez história!

Maria não foi a única mulher, após sua própria mãe, a ficar grávida por obra do Espírito Santo. Sua prima Isabel engravidou assim daquele que veio a ser João Batista, o grande profeta do batismo. Mas, diferentemente de Ana e Isabel, Maria ficou grávida antes de se casar. Ela estava prometida para José, e este, quando ficou sabendo da gravidez da moça, não quis denunciá-la, mas pensou decididamente em fugir, deixando Maria. Angustiado com essa situação, José recebeu a visita do Anjo do Senhor, que lhe disse que Maria continuava virgem, e que ele “não deveria ter medo de recebe-la como esposa” (na frase de Mateus), pois sua gravidez havia sido forjada pelo Espírito  Santo. José ficou também sabendo que o nome a ser dado à criança seria Jesus, e que este seria o Messias.

É interessante notar essas histórias comparativamente. Sem dúvida numa delas temos um poema de amor. O beijo de Joaquim e Ana, após vinte anos de casamento, nada é senão uma expressão do amor sensual de frescor juvenil mesmo na maturidade. A segunda narrativa é um poema demasiadamente humano: diante da gravidez da noiva, José não a denuncia, mas pensa quase que decididamente em fugir, em abandonar Maria à própria sorte. O beijo com sensualidade, dado na maturidade, e o pensamento desleal e covarde, estão presentes em tais poemas. As fraquezas humanas são, talvez, o grande trunfo do sucesso das narrativas cristãs. As narrativas que completam as histórias bíblicas na nossa formação cultural ocidental, as do helenismo, não abraçam as fraquezas humanas, mas epopeias de feitos audaciosos, heroicos, vitoriosos.  Assim são a Ilíada e a Odisseia. São narrativas que nos deram a coragem da honra. Faltava-nos narrativas que nos dessem a coragem de admitir nossa falta de honra. O cristianismo fez essa parte.

As duas histórias a respeito da natividade, a de Ana e a de Maria, ganharam os artistas medievais e fizeram proliferar a imaginação de pintores e escultores. Afinal, são estes que, em grande medida, trabalharam em paralelo aos anjos; ajudaram as divindades a ensinarem aos mortais sobre quem eles são. No caso católico, nossa devoção aumenta diante de images dessas histórias, em especial as das natividades, e elas nos dão a parte profunda da chamada “magia do Natal”. Não são histórias fantásticas, mas poemas onde nos percebemos demasiadamente humanos, e então recobramos esperanças pois, se mesmo sendo assim chegamos até aqui, por que não faríamos mais?

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 25/12/2016

Gravura acima. Giotto (1266/7 – 1337) na capela de Arena, em Pádua, no início do séc. XIV. Nesse espaço, Giotto executou um programa completo abrangendo o Novo Testamento e duas fontes apócrifas. Esta composição segue uma lógica cronológica, desde a vida de Ana e Joaquim até à de Cristo, no sentido horizontal e de alto para baixo, como uma banda desenhada gigante. O Evangelho de Tiago fala de abraço entre Joaquim e Ana, mas Giotto preferiu o beijo – e este ganhou popularidade e entrou para o folclore da mágica do beijo engravidante.

Gravura abaixo: Gaetano Gandolfi, quadro de 1790: Anjo aparece a José em um Sonho.

Gravura abaixo: Gaetano Gandolfi, quadro de 1790: Anjo aparece a José em um Sonho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quadro de 1554, de Tintoretto (exposto no museu de São Petersburgo), representando o nascimento de João Batista, então nas mãos da prima de Isabel. Essa prima é a virgem Maria. Uma moça dá o peito para João Batista, sob os olhos do pai, Zacarias, todo orgulhoso. Tintoretto elabora a cena no sentido de ser fiel à ideia de Isabel já ser mais velha ao conceber João Batista, e estar ao fundo, na cama.

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One Response “A magia da Natividade”

  1. 28/12/2016 at 06:17

    Toda essa história é marcada no tempo com grande entusiasmo e curiosidade!
    Parece q esse foi o objetivo quando envolto em mistérios.
    Daí surgem controvérsias.
    Embora Jesus nada escreveu, observa-se
    Conteúdo rico em tudo o q fez e disse!
    O MAIOR HOMEM QUE JÁ VIVEU NA TERRA!
    Seu legado é venerado ainda hoje.
    Sua vida pública embora de pouco tempo só nos engrandece a leitura!
    E vivemos na história momento de grande necessidade de explorar SEUS ensinamentos!
    LINDO LINDO LINDO O HOMEM DE.NAZARÉ!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo