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16/12/2017

Jesus: tragédia e comédia numa só tacada


Este artigo é indicado para o público em geral

O filósofo romeno Emil Cioran escreveu: “Se Jesus houvesse acabado sua carreira na cruz e não tivesse se comprometido a ressuscitar, que belo herói de tragédia teria sido!”. Mas por que Jesus iria ficar com a tragédia, desconsiderando a comédia? Se não tivesse ressuscitado, Jesus seria de fato um herói trágico. Mas a tragédia é só parte do teatro. Sem a comédia, nem faz sentido. Os quarenta dias que ficou entre os apóstolos, como uma espécie de fantasma, é a parte da comédia.

O filósofo italiano Giorgio Agamben lembra as discussões infindáveis, na Idade Média, sobre o cocô de Jesus. Ele comia depois de morto? Bem, ele se sentava à mesa, mas comia? Se comia, seu cocô era de que ordem ontológica? E deveria então o cocô de Jesus ser santo, uma vez que vinha de um corpo santo?

Podemos evocar outras coisas: Jesus conviveu com apóstolos homens e, no entanto, ao voltar do mundo dos mortos, apareceu para uma mulher! Não foi isso também uma zombaria para com Pedro e todos os outros? Quer maior traço de comédia Jesus aparecer antes de tudo para uma mulher, numa sociedade altamente masculina?

O episódio de Tomé, então, que queria colocar o dedo nas chagas de Jesus, não soa algo como adrede pensado por escritores de humor negro? Jesus ficou com buracos no corpo, sem sangue escorrendo, prontos para serem investigados pelos apóstolos? E, afinal, se é assim que se ressuscita, ou seja, com a última feição que temos quando vivos, que desgraça estética o mundo do Além, não?

E a parte de Jesus indo embora para o Reino do Pai, deixando os apóstolos, então, com aquela sensação de perda de tempo, de terem sido feitos de bobos, uma vez que choraram e se amedrontaram durante todo o trajeto do Calvário. Era tudo mentirinha, pois ao final, Jesus voltou são e salvo e pegou uma aposentadoria tediosa num mundo atemporal! Qualquer volta dos mortos torna os que ficaram uns palhaços.

Cioran não entendeu o verdadeiro gênero literário da peça de Jesus Cristo. Não foi um caso de desprezo da tragédia, mas o caso de completá-la com o outro lado da moeda teatral. A história de Jesus é aquele tipo de história que nos pega pela raiva. Vamos ao teatro e choramos de emoção, para em seguida gargalharmos e saímos do lugar com cara de quem foi visivelmente esculhambado. Todavia, um tanto atordoados e meio sem saber com quem reclamar. Nesse sentido, a história de Jesus é genial, ela vai da completa seriedade para a completa algazarra e escárnio. Tudo que ocorre após a crucificação é a desconstrução do que ocorreu antes, nos dando a sensação de que, em determinado momento, mudaram o escritor, o roteirista e tudo o mais. Quando notamos isso, entendemos a grandeza do texto bíblico do Novo Testamento. É um texto que nos deixa no ar, meio que abobados, pois não sabemos de fato se estávamos participando desde o início de uma palhaçada ou se realmente, a partir de determinado momento, acabou o orçamento e, então, fizeram um filme B.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 28/11/2017

Gravura: Jesus aparece a Maria Madalena após a Ressurreição. Pintura de Alexander Ivanov (1835)

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One Response “Jesus: tragédia e comédia numa só tacada”

  1. Eduardo Rocha
    29/11/2017 at 02:09

    Paulo, tenho escutado muito sobre tomismo. O que é isso?

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