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25/05/2017

“Jesus é Deus”


A existência histórica de Jesus é uma coisa, a divindade de Jesus é outra. Investigamos a primeira na disciplina história com a ajuda da arqueologia, da antropologia e de recursos das ciências naturais. A segunda é matéria da teologia. Não tenho a ver nem com uma e nem com a outra. Sou filósofo. Nós filósofos, quando ouvimos falar de Jesus como divindade, em geral nos recordamos de Pascal.

Pascal tinha um argumento bastante interessante a respeito dos milagres de Jesus. Ele dizia que Jesus tinha lá que ser divino uma vez que havia realizado os milagres a ele imputados, e isso por uma razão simples: seria impossível que doze apóstolos tivessem combinado tudo aquilo, de maneira tão coerente. De fato, poucas narrativas na histórica, quando contadas por diversas pessoas, são tão próximas quanto a dos milagres de Jesus.

É claro que, para nós, filósofos contemporâneos, esse argumento de  Pascal não tem o peso que teve para o próprio Pascal. Há dezenas de maneiras de criar problemas para tal argumento. Mas, dizer que ele não é um argumento interessante, que é bastante pesado para aquele que quer ser cristão em um sentido antes religioso que meramente moral, é desconsiderar o bom senso que devemos ter quando ouvimos um filósofo do calibre de Pascal. O argumento de Pascal tem um fundo tipicamente pascaliano, se notarmos que ele é do tipo do argumento matemático. Há um indício de probabilidade nele, matéria pascaliana par excellence. De fato, os apóstolos, mesmo que doutrinados da mesma forma, eram homens bastante diferentes, e deram testemunho dos milagres de Jesus de forma tão unânime que seria uma tolice não levar em conta o jogo de probabilidades nesse caso, contando como um elemento favorável para a crença na divindade de Jesus ou algo parecido.

Pelo que sei, Pascal foi o primeiro a invocar não elementos de lógica para falar do divino, como era o caso tradicional na filosofia cristã aferrada às provas da existência de Deus, como em Agostinho ou Anselmo, mas elementos da matemática. E uma matemática propriamente criada por ele mesmo, Pascal, o homem que gerou a própria conversação sobre probabilidade. Assim, se os filósofos até então haviam feito do Pai um devedor da lógica, Pascal botou o filho como um devedor da matemática. Devedor, claro, no sentido estritamente filosófico. Em termos religiosos, a doutrina de Jesus nunca se assemelhou a qualquer das crenças religiosas gregas. Os gregos exigiam uma interpretação do que os oráculos diziam; Jesus nunca apostou realmente nisso, ou seja, em interpretações, pois nos momentos decisivos insistiu na fé. Quando o rico veio até ele querendo o reino dos Céus, Jesus pediu a ele que vendesse tudo e o seguisse. Requisitou, então, um seguidor sem questões, sem perguntas, crédulo mesmo. Seguir Jesus, naquele caso, teve dupla conotação: metáfora ou alegoria para nós, literalidade para o rico em questão.

Hoje em dia, quando surgem os feriados religiosos e somos impulsionados a falar da figura de Jesus, especialmente quando se trata da comemoração da sua ressurreição dos mortos, que culminou depois com a sua ida “de corpo e alma” para a casa do Pai, os religiosos cristãos do Ocidente teatralizam os episódios do percurso do Calvário, da crucificação e da ressurreição. A situação é bem diferente daquela do episódio do nascimento de Jesus. No Natal não há teatro, há presépio. Na morte há teatro, porque há drama e falas contundentes que tornam a história de Jesus um mistério eterno. O pedido para o Pai no sentido de afastar o cálice. A ceia tomada como simbolismo e também como elemento invocador da transcendência. A ideia da traição vinculada ao beijo. As trinta moedas e o enforcamento de Judas. O papel de Pilatos e o palco para Barrabás. A traição de Pedro. A coroa de espinhos. Maria e Madalena ao pé da cruz. O soldado que atirou o arpão final. Os dois ladrões. A fala de Jesus perdoando o ladrão bom. A dúvida de Jesus sobre o abandono do Pai. O sumiço do corpo. O encontro primeiro com Madalena. O encontro com os outros apóstolos. Tomé e as chagas. Tudo isso vivido sem Paulo, aquele apóstolo tardio responsável pela Igreja de hoje, a que Pedro não conseguia construir e, talvez, nem estivesse mesmo em seus planos. Esse teatro é tão humano que se nele não aparecem os mistérios, os gaps, os lugares e pontos que não entendemos, não poderia servir de contraponto a Pascal. Sem esses detalhes a morte de Jesus seria uma situação tão humana que, em determinado momento, encenar um tal drama nos levaria a um cristianismo moral somente, não mais religioso, não mais alimentador de crentes mistico-religiosos.

Nesse sentido, o teatro do Calvário é o elemento não de reforço de Pascal, mas seu elemento díspar. No teatro há o histórico-místico. No raciocínio de Pascal simplesmente o matemático. Talvez o teatro com o seu misticismo, com sua repetição de detalhes inexplicáveis, tenha vindo exatamente como uma reação a Pascal. Com todo o seu fervor, ainda assim Pascal estava deixando já Jesus sob o crivo de uma crença não em Jesus, mas na matemática probabilística. Ou seja, seria mais um ponto para o “Deus dos filósofos”, aquele para o qual Heidegger nos alertou: um Deus para quem não há como rezar. O Deus teatralizado, este sim, está sempre pronto para receber orações.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 13/04/2017

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4 Responses ““Jesus é Deus””

  1. Luiz
    18/04/2017 at 15:56

    Jesus é Deus e ponto final. Apenas os relativistas e socialistas imbecis questionam isso. Afinal,graças a Jesus floresceu no ocidente a mais evoluída e desenvolvida civilização de todos os tempos.

    Pois, apenas um Deus seria capaz de criar um civilização tão evoluída como a ocidental. Vocês, intelectuais imbecis deveriam parar de questionar Jesus e começarem a combater o islamismo antes que eles destruam o ocidente e coma o cu da gente.

    • 18/04/2017 at 16:11

      Luiz fiquei com bastante dó de você. Veio ler um blog que é para adultos e não entendeu nada.

  2. Eduardo Rocha
    14/04/2017 at 17:58

    Só agora eu entendi a referência de Sloterdijk com o Jonas e as teorias da verdade, em especial, a Pragmatista. Mateus 12:40 e Jonas 1:17 (ventre e seio). Uma simbiose esférica de absorção e renovadora. E a questão da maioria com Tocqueville e William James.

    • 14/04/2017 at 18:36

      Não pegou ainda o meu livro? Lá tem a parte do Jonas.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo