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18/11/2017

A religião dos “deuses de pequenas coisas”


Falar contra ou a favor da religião é fácil, mais complicado é compreendê-la. Os midiagogos fazem o primeiro serviço ou, melhor dizendo, o desserviço. Os filósofos autênticos vão pela segunda tarefa. Por que somos animais religiosos?

Ao final do século XIX, Nietzsche foi capaz de perceber como ninguém a “morte de Deus”, ou, em termos mais tecnicamente filosóficos, a virada da filosofia para a construção de narrativas desvinculadas da busca do Absoluto. Logo depois, William James anunciou a ideia de que crenças religiosas são verdadeiras como outras crenças, se verdadeiras, nos são verdadeiras: elas são partes de hábitos de ação que nos permite mover melhor ou pior.

James e outros pragmatistas americanos inventaram então a possibilidade da continuidade da religião num mundo até mesmo sem Deus. Testemunharam a abertura de um mundo não para uma era de pequenos deuses, mas para uma era dos “deuses de pequenas coisas”. Posso não buscar mais uma religião sofisticada que, junto de sua teologia, abrace uma metafísica, uma busca pelo absoluto, mas isso não me impede de ganhar energias por meio da conclamação – e não importa aí se somente retórica – de daimons de todo tipo, que venham colaborar aqui e ali em pequenos movimentos e decisões. Todos nós fazemos isso. Todos nós temos crenças, nem sempre racionais, que são mais fortes que outras na hora de decisões onde as coisas não estão muito claras. Nessa hora, chamamos os “deuses de pequenas coisas”.

Nesse afã, por exemplo, podemos clamar por nosso pai já falecido, de modo que ele nos ilumine com uma sentença capaz de nos ajudar, e um tal pedido ou “oração” não precisa de ser de outra ordem que não aquela que se pratica ao abrir um livro aleatoriamente, em uma página qualquer, para colher “uma sabedoria” para o dia. Não é que, com isso, deixamos a religião baseada em uma metafísica para aderirmos ao misticismo, mas, diferentemente, é tomar parte da instituição de uma prática sobre tudo o mais. Posso institucionalizar rituais na minha vida que me dão chaves práticas para viver: uma vez em dificuldade, faço uma prática dessas, e elas funcionam como “deuses de pequenas coisas”.

Se chamo meu falecido pai, quem sabe não me vem mesmo – sabe-se lá por qual via, se pela memória ou se pela memória iluminada por um transcendente o qual não mais discutimos – uma mensagem dele, tornada então decisiva? Isso não é magia. Não estou povoando o mundo a ponto de dizer, como Tales, “tudo está repleto de deuses”. Estou libertando os “deuses de pequenas coisas” para que eles atuem num mundo desencantado. “Deuses de pequenas coisas” são liturgias, expedientes, procedimentos, performances e, enfim, repetições. São acionáveis para isso ou para aquilo. São procedimentos agregados a crenças, as crenças de que tais procedimentos ajudam no que se vai fazer, no que se quer fazer, no que se vai decidir. O exemplo da oração ao pai, para receber uma iluminação, funciona em diapasão semelhante ao de se pegar uma via e não outra para extrair uma raiz quadrada ou executar uma multiplicação. Nesse caso, o caminho é racional, mas a decisão por um ou outro tem pouco a ver com a racionalidade e mais a ver com o hábito, aquilo que se tornou uma “liturgia da operação matemática”, com a performance que se quer obter. Dizemos “faço a conta desse meu jeito, é melhor”. Chamamos pelo caráter pragmático de nossa opção. Também é assim quando pedimos que o pai morto nos ajude; queremos que a inspiração para que melhor performance se faça presente. “Deuses de pequenas coisas” são as próprias crenças em ação. Essa nossa religiosidade nos é inerente. Somos acrobatas, seres de práticas, seres de hábitos de ação ou, em outra palavras, seres de crenças. Crença, disseram os pragmatistas, são hábitos de ação.

Quanto de religião suporta um homem? Ora, no caso do homem moderno, suporta-se todo o desdobrar-se do trabalho dos deuses de pequenas coisas.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. 05/08/2016, São Paulo.

Foto de capa: filósofo William James em Harvard

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2 Responses “A religião dos “deuses de pequenas coisas””

  1. LUIZA GOMES
    06/08/2016 at 13:56

    Não parece um profundo pensamento filosófico, mas uma desculpa por ter falhado em acreditar. Eu sempre afirmo q o mais crentes de todos é sempre o atéu pq ao contrário dos crentes, ele acredita em Deus sem nada esperar (são praticamente filósofos medievais), só pra gastar seu tempo e energia para desacreditá-lo e a prova enxergo aqui neste texto. Quem não acredita, ignora, simples assim; mas os filósofos principalmente os ateus se dedicam nesta campanha contínua em provar q Deus não existe. E Paulo, parece q vc acabou de prova q sim, Deus existe, nesta desculpa tola sobre “deuses de pequenas coisas”. Olha a sua volta e q Deus é hj em dia?? Deus do imediatismo q cura pequenas dores, q compra bens móveis e imóveis, q trás dinheiro e amor, q dirige, q é cão de guarda e etc. Deus é bombril e tem 1001 utilidades. O Deus de Agostinho, S. Tomás, Erasmo, está esquecido na mobilidade urbana das Metrópolis, se ele não se apresenta em shows de palco e não exorciza exús, ou não deflaga bandeiras de esquerda (o Deus do Papa Francisco) deixa de ser utilitário, apesar q ele é o único q pode responder em “como surgiu o universo??” Sua proposta de cultuar a ancestralidade não fica distante das religiões orientais, mas ainda é necessário deuses. O q percebo q os ateus são heróis em suas juventudes, mas ao chegar da aurora, até eles cedem, mesmo q escondido sob as pinturas em telas metafísicas!!!

    • 06/08/2016 at 14:09

      Luiza, me desculpe mas você está por fora da filosofia. O assunto não é Deus ou crentes ou ateus etc. O assunto é uma discussão dentro da tradição de William James, como essa tradição pode se casar com a do “Deus das pequenas coisas”. Você não teve olhos para o texto, talvez por falta de formação filosófica e estar então pensando na sua própria religião etc. Mas pode ler de novo. Pode tentar.

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