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18/11/2018

Deus não premia ninguém


[Texto para o público em geral]

Talvez um dos maiores erros que já cometemos na hermenêutica do Ocidente é o de tomar a história bíblica de Caim e Abel como uma denúncia a respeito da inveja. Fizemos isso por uma razão simples: A Bíblia do Antigo Testamento é, não raro, lida sob o crivo da Bíblia do Novo Testamento. Há uma cristianização da Bíblia. Desse modo, nietzschianamente falando, enfiamos uma certa moralização no texto bíblico que, enfim, não existe no âmbito dos textos antigos.

Se pudermos manter nossos olhares lembrando que o texto bíblico inicial é mais cosmológico que moral, ou seja, que ele está mais para os pré-sócraticos que para Sócrates, se pudermos fazer um paralelo entre o mundo judaico-cristão com o mundo helênico, tudo fica mais claro.

Do que fala a história de Caim e Abel? Fala de dois irmãos que se invejam? Não! O personagem principal da história, onde tudo se origina, é Deus. Ele põe o contexto, a trama. Caim e Abel são meros intérpretes de Deus. E por não entenderem o que deveriam entender, acabam se engalfinhando. A mensagem do texto é a seguinte: Deus não dá merecimento, Deus não é humano e, por isso mesmo, faz o que dá na telha. Os deuses gregos eram idiossincráticos. Também o Deus judaico mantem essa caraterística dos deuses antigos. Deus é o Cosmos, é a Natureza, é o Princípio que não faz as coisas por um tipo de meritocracia. A meritocracia é essencialmente humana. Por isso mesmo, Deus não iria premiar alguém segundo a regra humana. É isso que o texto ensina. Ensina a nos entendermos como diferentes de Deus: nós criamos méritos e prêmios, e Deus não. Deus pode dar uma banana para quem trabalha e premiar quem não fez nada. E temos de nós acostumar a isso. Aliás, criamos uma meritocracia exatamente para compensar a não meritocracia de Deus. Quem nasce numa favela sabe bem que Deus não está olhando por ninguém.

Essa leitura é simples de fazer se olhamos o Deus judaico como aquele que fez Jó se ferrar o tempo todo, sem perder a fé. Ou seja, não temos de ficar desanimados e perder a fé, a confiança, por conta do Cosmos não nos premiar. O Cosmos é impessoal, não premia. Nós, humanos, premiamos. Há hierarquias na natureza, mas o prêmio não vem segundo as hierarquias e prêmios humanos, culturais. Os sábios que escreveram o texto bíblico do Velho Testamento não destoaram do estilo e espírito de outros textos de outras culturas do mundo antigo.

A inveja não fazia sentido no mundo antigo. A inveja é algo cristão, de um mundo moralizado. No mundo pré-moral do Velho Testamento, o ensinamento era sobre a Physis.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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9 Responses “Deus não premia ninguém”

  1. Marcos Aquino
    12/11/2018 at 21:35

    Peraí…
    Quando cita Caim e Abel ou Jó, você realmente está acreditando na literalidade do texto e da participação concreta de Deus nessas histórias?
    Ou é só mais um texto anedótico seu, como foi o da tentação no deserto?
    Quero aproveitar para parabenizá-lo pelo seu texto, também de inspiração bíblica, “Nossa democracia pode morrer?”.

  2. 09/08/2018 at 21:28

    A questão do merecimento é algo bem difícil de se entender ante o pensamento cristão. Não sei se o senhor possui conhecimento mais aprofundado nas Meditações de Marco Aurélio, mas o imperador fala bastante sobre isso algumas vezes. Bens e Males são distribuídos aleatoriamente. E isso é uma espécie de xeque para os que pensam que devem agir de acordo com a moral cristã e adquirir recompensas, como uma cura de uma doença ou vencer uma guerra, como Constantino ao assumir o trono. Vejo, assim, a teologia aureliana eventualmente caótica, embora a de Crisipo seja mais compacta e certeira, regada pela lógica, e a de Cleantes mais devocional, como no canto do sol.

  3. Guilherme Hajduk
    10/07/2018 at 14:30

    Realmente, se Deus se rebaixasse a ponto de ficar atendendo demandas humanas com base na meritocracia, era só nós descobrirmos pouco a pouco tudo que agrada Ele, de maneira sistemática, e fazer. E sempre permanecer fugindo de ações que Deus desaprovasse. Seríamos um bando de robozinhos fazendo sempre as mesmas coisas no mundo e assim seria eternamente. Na minha visão, algo assim seria horrível!

  4. 10/07/2018 at 00:13

    Depois de ler esse artigo lembrei do Saramago e do seu livro Caim, agora acredito que ele não entendeu a mensagem.

    • 10/07/2018 at 06:42

      Já escrevi em A filosofia como crítica da cultura (Cortez) que Saramago é uma besta sociológica.

  5. Matheus
    09/07/2018 at 21:16

    Acho que esse texto serve de uma bela base pra qualquer um entender tbm que na Grécia Antiga não havia “machismo”.

    Não havia mérito em se nascer homem, ou mulher, simplesmente se nascia, homem ou mulher, cada ser com sua própria natureza.

    Poderia-se resumir sumariamente assim?

    • 09/07/2018 at 21:31

      Até dá para falar isso no mundo antigo, uma vez que o “destino” sempre foi algo mais fácil com os antigos do que com os modernos. O pensamento trágico, de uma causalidade cruzada entre o que é desencadeado pelos deuses e o que é desencadeado pelos humanos, é uma característica antiga, quebrada pelo cristianismo e mais ainda pelos modernos. A vontade é uma faculdade moderna, não antiga. E o tempo linear também é moderno. A verdade como produção e não como descoberta também é algo moderno.

  6. Alain
    09/07/2018 at 19:18

    “Deus não é humano e, por isso mesmo, faz o que dá na telha.”

    Exato. Se Deus é omnipotente, então também pode (tem “direito” de) ser
    injusto.

    Se Deus distribuísse punições e recompensas com base em critérios
    estabelecidos, então seria como uma espécie de máquina (Deus ex
    machina, no sentido literal, se permitir um trocadilho). Pior ainda,
    seria um mecanismo que pode ser influenciado por ações humanas.

    “do estilo e espírito de outros textos de outras culturas do mundo
    antigo.”

    A teoria do karma e a reencarnação chegaram ao budismo através do
    jainismo, mas tais doutrinas não fazem parte do induísmo védico, nem
    pré-védico, menos ainda.

  7. Alain
    09/07/2018 at 19:16

    “Deus não é humano e, por isso mesmo, faz o que dá na telha.”

    Exato. Se Deus é omnipotente, então também pode (tem “direito” de) ser
    injusto.

    Se Deus distribuísse punições e recompensas com base em critérios
    estabelecidos, então seria como uma espécie de máquina (Deus ex
    machina, no sentido literal, se permitir um trocadilho). Pior ainda, um mecanismo que poderia ser influenciado por ações humanas.

    “do estilo e espírito de outros textos de outras culturas do mundo antigo.”

    A teoria do karma e a reencarnação chegaram ao budismo através do
    jainismo. Tais doutrinas não fazem parte do induísmo védico, nem
    pré-védico, menos ainda.

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