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16/12/2017

Vamos ter que ensinar o que é racismo até para os escolarizados?


Este artigo é indicado para o público em geral

Os articulistas conservadores foram para escola. Mas na escola deles faltou uma professora de filosofia atenta aos Direitos Humanos. Ou um bom professor de história. Talvez tenha faltado um bom professor de matemática ou de português, capazes de ensinar lógica. Ninguém explicou a eles o que é racismo! Ninguém explicou a eles como raciocinar sem sofismas.

O fato é que esses articulistas perderam a noção, ou nunca tiveram, a entre critica virtual e a manifestação racista. Uma crítica ao movimento negro ou até mesmo à busca de direitos iguais pelos negros é uma coisa, a manifestação de ofensa a uma etnia é outra coisa, e a ofensa a um indivíduo negro é, ainda, outra coisa. No primeiro caso, posso ser um crítico de direita que, enfim, acha que a regra formal do liberalismo, “igualdade perante a lei”, já basta para que todos sejam iguais, tomando então o ponto de partida social e histórico como irrelevante. No segundo caso, sou uma pessoa que dissemina preconceito ou ódio a todo um grupo étnico, então, na nossa legislação, isso é crime de racismo. No terceiro caso, por exemplo, alguém chamando um negro por qualquer nome pejorativo que se relaciona com o fato dele ser negro, tenho a injúria racial, que também é crime. Acreditar que essas coisas não são distintas e, pior, não podem ser identificadas e muito menos recortadas na sua distinção é tolice, é sofisma. Todo o sistema de Direito do Ocidente não poderia existir se tais coisas fossem uma fumaça nos olhos.

Ao perderem a noção dessas coisas básicas, os articulistas conservadores querem, então, reduzir toda e qualquer indignação contra o racismo ao “gosto por sangue” e ao prazer pelo “linchamento digital”. Chegam a culpar a “sociedade de mercado” (nossa, viraram socialistas estalinistas?!) e o “marketing digital” por tal coisa. Em outras palavras, querem transformar toda a indignação em falsa indignação, hipocrisia e, no fundo, agindo assim, querem mesmo é manter a proteção dos racistas. E ameaçam: se você é intelectual e escreve contra o racismo, um dia você escorrega e o linchamento virtual vai pegar você! Ora, quem escreve está sujeito a tropeçar, está sujeito inclusive a ser jogado aos leões por coisas que não fez. E daí?

Já ocorreu comigo o segundo caso. Já invadiram sala palestra minha me acusando de racismo (alunos que nunca leram nada meu e, alguns, que não sabiam a razão de estarem ali). Já mentiram na Internet dizendo que incentivei estupro (a jornalista condoída não obteve nada, pois não conseguiu provas de que havia sido eu quem a ofendeu – e não foi mesmo!). O que fiz nesses casos? Ora, mostrei a verdade pelos meus livros, artigos, currículo e, quando foi necessário, nos tribunais – por meio de provas cabais ou exatamente pela ausências de provas contra mim. Tenho uma vida dedicada às causas das minorias, à defesa dos animais, à defesa das mulheres etc, à defesa da igualdade social mais ampla. Quando sou mal-entendido, se sou um intelectual, o que me resta é explicar de novo, se acho que estou correto. Desde quando eu estaria, em 1985, menos sujeito à crítica social pelos meus escritos do que hoje, só por conta da Internet? Só um completo tolo pode achar que as brigas digitais hoje são mais terríveis que as que ocorreram pela imprensa escrita de antes da Internet. Só os muito jovens, ou os desmemoriados, podem acreditar nisso. (Já contei aqui o episódio da Folha, Marcelo Coelho X Amigos da PUC-SP). Se o Waack tem a convicção que errou, deveria pedir desculpas e, enfim, estando numa empresa que tem o direito de mandar-lhe embora, ir embora! Não consigo entender os colunistas de direita que querem encontrar na indignação contra o racismo um sentimento de maldade e vingança! Claro que minorias possuem em seu meio gente vingativa, ressentida etc. Mas isso não muda em nada a legitimidade de suas reivindicações por igualdade de existência, manifestação, tratamento digno etc.

Estou um pouco cansado dessa fórmula de pensamento, que me parece fruto de um limite de QI, que acha bonitinho encontrar em todos os que são indignados com injustiças, não o desejo de justiça, mas simplesmente o vampirismo e o desejo de sangue. Esse raciocínio é primário. É do garoto que entrou na filosofia e leu um livro de Nietzsche e, então, achou bonitinho inverter tudo como um passo do seu novo status de inteligentão. Garotos de esquerda faziam isso. Agora, a garotada da direita, já com seus cinquenta anos de idade, começou a fazer isso também. Eles olham um ecologista e acham inteligente dizer: ele não quer proteger a natureza, ele quer outra coisa. Ou então: ele quer proteger a natureza, mas não sabe que a natureza é má, que o certo seria fazer (o já feito) embate contra a natureza. Eles olham para quem protege os animais e dizem: são mulheres que protegem cachorrinhos e, no entanto, logo saem junto do feminismo, nas ruas, defendendo o aborto. Tudo para esse pensamento atual da direita é desvendado pela inversão ou por conta de encontrar “o que estaria por detrás” de boas intenções. É um tipo de leitura que o retardado mental faz de Cioran. Ele viu o Cioran dizer que preferia um cético que alguém crente com o São Paulo, pois este seria um fanático e o fanatismo busca o sangue, e então resolveu pensar assim, mas de modo tosco, para todo e qualquer um que faça um discurso anti-maldade. Os ‘progressistas’ são de antemão sacaninhas, para esse brilhante novo adolescente nietzschiano.

Há livros que gente que escreve sempre com a sede de militância política (mesmo se dizendo não político) não pode entender. As inversões de Nietzsche e Cioran não podem ser copiadas desse modo que citei – se entendidas assim, então não foram entendidas. Não adianta bancar o inteligentão e acusar “inteligentinhos”. O melhor que esse pessoal que está nessa conduta pode fazer é ou terminar ou curso de ciências sociais (ou filosofia), ou voltar para o ensino médio e recomeçar. Essa ideia deles de apontar todos como curupiras é pobre.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 20/11/2017

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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2 Responses “Vamos ter que ensinar o que é racismo até para os escolarizados?”

  1. Tony Bocão
    20/11/2017 at 13:58

    No youtube tem um vídeo de invasão a uma aula ou palestra sua. Um povo fazendo barulho e gritando, pulando, etc… claramente o vídeo mostra como funciona um clássico efeito manada em constrangimentos assim.

    • 20/11/2017 at 14:29

      Tony, aquilo não foi provocado pela Internet, aquilo foi adrede preparado por professores e alunos, ditos de esquerda (mas fascitóides) que não queriam estudar. A velha politização para justificar a vagabundagem em cursos de Humanas que todos nós conhecemos muito bem.

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