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16/12/2017

Explicando “consciência negra” por meio de Glória Maria


Artigo indicado para o público em geral

A jornalista Glória Maria postou em uma rede social a célebre frase de Morgan Freeman “O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela, ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece”. Vieram críticas, claro! Negros chamaram a atenção dela. E vários brancos falaram “essa é inteligente”, mais ou menos querendo realmente dizer: “essa negra é inteligente”. Gloria Maria se explicou, mas não convenceu. Ficou antes preocupada em repetir jargões do tipo “cada um tem sua opinião”. Justificou-se diante dos pares negros privatizando seus sofrimentos pessoais frente ao racismo, algo compreensível mas pouco útil no caso.

A frase de Morgan Freeman (que sobrenome significativo heim?) retirada do contexto é infeliz. Glória Maria fez referência a isso, mas não seguiu em frente. Não explicou!

No contexto da frase (veja o vídeo) a declaração de Morgan Freeman realmente faz todo o sentido.  Morgan está criticando um projeto americano para instituir o “mês da Consciência Negra”. Em seguida ele diz que toda a sua história, a história dos negros, não cabe em um mês. É nítido que  seu objetivo, na fala, é evitar que a questão do negro se torne folclore. Ao final da entrevista ele diz que o melhor modo de combater o racismo é “parar de falar disso”. Mas o que é “parar da falar disso”? É deixar correr o barco do racismo? Claro que não! É fingir que está tudo bem e que o papo de racismo vem do negro e só reforça o racismo? Claro que não! Ele explica para o interlocutor: conheço você e devo chamá-lo pelo seu nome, não como “homem branco”, e você me conhece por Morgan, e deve me chamar por Morgan, e não por “negro”. A conversa aí é total e exclusivamente americana. Os negros não chamam os brancos de “brancos”, no Brasil. Só alguns e em alguns lugares. Mas nos Estados Unidos a expressão “isso é coisa de branco” existe, é usada pelos negros. Tem um sentido pejorativo. Nos Estados Unidos há um confronto racial e, não raro, muitos negros durante crises buscaram negar o “americano” em favor do “afro”, e não quiseram ver a integração via hífen: “afro-americano”. O negros lá não são só minoria sociológica, como aqui, são minoria numérica: só 11% do país. Aqui os negros são maioria numérica e minoria sociológica. O embate aqui é menor, ao menos em termos de espetacularidade. Aqui o vetor do racismo contra o negro não é revidado, até por uma razão simples, trata-se de um racismo dissimulado. Nunca se viu aqui uma KKK ou uma passeata de negros ou passeatas de brancos contra negros etc. “Consciência negra” aqui é bem outra coisa.

O que é então? Do que falamos aqui quando falamos de “Consciência Negra”? A noção aqui tem uma pegada mais antropológica e filosófica. Não é um exclusivo aríete contra o racismo. E isso deve ser bem notado. Se não atentamos para isso, ficamos sem entender o sintagma.

“Consciência negra” é como se falássemos, ao modo da filosofia, de razão negra.  Um aparato que engloba o conhecimento do negro a respeito de si mesmo, o modo do negro dizer o que é bom ou mau e, enfim, o que o negro se dispõe da apreciar como belo. Trata-se do aparato de compreensão e julgamento dos feitos, orgulhos e agruras de uma etnia. Não é alguma coisa que deverá ser base para um novo tipo de nacionalismo ou grupelhismo. É um entendimento elevado à condição de razão e, portanto, extra-individual, algo que ganha objetividade como um espaço esférico criado na base de ressonâncias culturais. Diz respeito ao ethos de um povo, portanto, seus hábitos e costumes que o instituem na sua forma de estar no mundo. Formula-se pela “consciência negra” um conhecimento, acima de cada indivíduo, de uma construção ética, uma maneira de uma cultura dizer a um povo como é a sua própria vida cotidiana a partir de como são seus valores. “Torna-te o que tu és” é o que a consciência negra diz, nietzschianamente, a cada negro que se dispõe a ouvi-la.

A expressão “consciência negra” não é a marca de alguém a respeito de discriminação ou não-discriminação, embora também caiba na expressão a história triste de cada indivíduo da etnia em questão. Em outras palavra, e repetindo o que disse: a “consciência negra” não é um sintagma que tem como objetivo único combater o racismo. Por isso, o “Dia da Consciência Negra” no Brasil não veio para substituir o dia da Abolição da Escravatura e menos ainda para ser algo como “O dia do negro”. É o dia de pararmos o trabalho para pensarmos na cultura negra, ou seja, a cultura que permeia os gestos, os hábitos, a fala, os símbolos que estão impregnados no modo de ser brasileiro de uma maneira decisiva e diferencial. Aqui no Brasil, não faz sentido pensar o dia da “Consciência Negra” como uma possível discriminação, que viria por conta de que todos os outros dias seriam da Consciência Branca. Um pouquinho de antropologia e filosofia no ensino médio brasileiro e saberíamos entender isso.

A consciência negra é um caminho para que o dito socrático “conhece-te a ti mesmo” seja melhor usado pelo brasileiro, todos os brasileiros que se entendem como brasileiros.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. 20/11/2017

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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2 Responses “Explicando “consciência negra” por meio de Glória Maria”

  1. emisson
    20/11/2017 at 18:47

    Professor. Como ocorre essa perda indentitária, em âmbito linguístico, do sujeito individual para um “sujeito universal” que o Morgan salientou? Rememoro-me que o senhor já falara sobre este assunto, em um texto sobre o caso da menina negra que passou em medicina na Usp. A forma como ela falou, pareceu-me como o movimento negro fosse responsável pelo seu desempenho e não ela. Essa perspectiva de análise do sujeito movimento, e não do sujeito unívoco, vai de contra o pensamento de Hegel sobre o sujeito? Texto excelente.

    • 20/11/2017 at 20:05

      Não há uma perda, há um ganho. Ele propôs um. Há várias propostas.

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