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16/12/2017

A consciência negra é fantasticamente coisa de preto


Este artigo é indicado para o público em geral

Há algo de misterioso no racismo brasileiro. É que ele tem o rosto de um fantasma. Na verdade, para o negro, ele tem tudo de fantasma. Não se pode acreditar nele, tomá-lo como realmente existente e deixar-se levar pela ideia de que o mundo é assombrado, e que há olhos por detrás da porta para impedir o êxito de cada um. Mas, ao mesmo tempo, o vulto do sobrenatural, o seu bafo gelado na nuca, se fazem presentes.

O branco pode vir a compreender intelectualmente o racismo. Pode, inclusive, se solidarizar com o negro de modo sincero e se colocar no lugar dele. Mas há um limite nessas identificações entre o branco e o negro no Brasil. É que o branco que se sente perseguido por forças estranhas que ele não sabe se existe pode ir ao terapeuta. Todavia, o fantasma do racismo pode não ser um “fantasminha camarada”! Pode tirar um emprego, impedir um namoro, barrar uma porta e, pior, cortar um benefício sem que o beneficiado de direito saiba – e não há nenhuma terapia para que uma tal paranoia desapareça. Não há terapia para tal, só práticas religiosas, por exemplo, o exorcismo da cultura. Frankfurtianos diriam: uma terapia da cultura.

Em países como o Brasil, para ser negro é necessário ficar no fio da navalha entre tentar se manter tolo o suficiente para não começar a acreditar em fantasmas e, ao mesmo tempo, ter de acreditar que o fantasma realmente está pondo o relógio para andar.

Nenhum branco começa em segundo lugar. O negro acorda todos os dias em segundo lugar. A cultura de trezentos anos de escravidão associada a mais cem de exclusão molda a visão, a audição, o tato, o paladar e olfato de um povo. O racismo é fantasmagórico por causa disso: podemos não gostar de um odor sem sabermos o porquê. O preconceito é antes de tudo um pré-sentido, um sexto sentido gerado pelo diabo. Por sutis e imperceptíveis movimentos colocamos a máquina fantasmática em funcionamento, a máquina que garante a cada negro que ele vai acordar em segundo lugar. Quando terminar o dia, toda a probabilidade de estar na “zona de rebaixamento” é válida.

O racismo não sobrevive só por causa da existência de energúmenos, como a personagem Nádia (Eliane Giardini) em O outro lado do paraíso, a novela da Globo do horário nobre. Pessoas como ela, completamente impunes por conta de relações de poder e, de certa forma, por conta de viver em uma cidade que deve ser caracterizar na trama como interiorana, são postas na berlinda de modo mais fácil. Os filhos a contestam. A vida a contesta. Mas o racismo não tem o rosto de Nádia. O racismo nem tem o rosto do Ives Gandra Martins e gente como ele. Nem mesmo tem o rosto de Waack. A estupidez é racista mas o racismo não é da ordem exclusivamente da estupidez. Fantasma estúpido não é fantasma. O fantasma é brutal na sua sutileza assombratória. O racismo tem o rosto do fantasma, age como força por detrás das forças e, na maioria das vezes, se mantém como fantasma literalmente: não deixa rastros palpáveis e com isso aumenta o terror. O peso de uma força que promete não existir é o peso mais pesado. O racismo está na ordem não dada, aquela ordem desnecessária, mas que se realiza quase que por mágica, a chamada inércia cultural chancelada por Rui Barbosa e sua tara incineratória.

Quem gostaria de existir vinte e quatro horas por dia com a sensação sufocante de que o que está fazendo pode ser o melhor possível, mas não vai adiantar? Pois é. Alguns brancos vivem assim mesmo em democracia liberal. Outros só sabem o que é isso sob o totalitarismo. O negro no Brasil sabe disso, mas, para viver o cotidiano, precisa não saber. Saber disso pode levá-lo a dobrar a força do fantasma, mas pode antes de tudo quebrar sua própria espinha. A “consciência negra” é um perigo para o negro individual, embora uma necessidade para o grupo, a minoria chamada “os negros”. A consciência negra deixa o preto se sabendo preto, mas também lhe dá a sensação de que as forças sobrenaturais e fantasmagóricas que vão lhe sobrecarregar realmente existem. Ter de acreditar em força sobrenaturais não por misticismo, mas por consciência e razão, exatamente por tais forças serem a forças da cultura, é uma tortura diária. Os pretos a suportam porque são herdeiros da seleção natural do navio negreiro. Quem descende daquele que veio por esse navio tem a alma tão preta, que sua consciência negra está preparada para adquirir consciência. O negro “cai na real” ao saber da existência real de fantasmas!

Entre a aquisição de consciência e a não submersão na mágoa e no assombramento é o fio da navalha do preto. Só pessoas preparadas por Deus podem viver assim, conseguem viver assim, sob os imperativos éticos dessa “coisa de preto”.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. São Paulo, 19/11/2017

Foto acima: Negra em rua vermelha, de Di Cavalcanti

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7 Responses “A consciência negra é fantasticamente coisa de preto”

  1. Diego Rodrigo da Silva
    20/11/2017 at 10:44

    Parabéns,pelo texto!

  2. Diego Rodrigo da Silva
    20/11/2017 at 10:30

    Parabéns Pelo Texto!

  3. Miranda
    19/11/2017 at 21:19

    Um maigo meu disse que determinismo biológico nunca existiu.

  4. Lázaro Almeida
    19/11/2017 at 16:43

    Concordo com você quando se diz, a consciência negra é coisa de preto, o preconceito está no próprio negro, ele vive com este fantasma, e se sente excluído de tudo.

    • 19/11/2017 at 17:19

      Lázaro, meu Deus!Eu não disse isso! Eu não falei em “preconceito”. Eu falei em racismo, e este não está no negro, está montado como força invisível contra o negro. Essa história de que o negro é que alimenta o preconceito, que o preconceito está introjetado nele, vale só para alguns – os eternos capitães do mato. Que sabemos o tipo de vereador que são.

    • Orivaldo
      19/11/2017 at 18:55

      A consciência negra é coisa de preto sim, mas o racismo não. O racismo é como o peido que ninguém deu mas fede…

  5. Sebastião Ribeiro
    19/11/2017 at 14:28

    Excelente texto , amigo!.
    Um abraço !

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